quinta-feira, outubro 09, 2008

Ensaio sobre a Cegueira

(Blindness, Brasil/Canadá/Japão, 2008)



A fotografia esbranquiçada, estourada e cheia de filtros e truques de César Charlone – a representação visual e "publicitária" da tal “cegueira branca” da trama, que sem maiores explicações atinge a população de uma cidade indeterminada, obrigando-a manter-se confinada em um hospital militarmente vigiado, sob péssimas condições de higiene e reduzida à barbárie – é como um bukaki constante nos olhos do espectador. Ou seja, mais atrapalha do que faz pensar nesta fraca, embora fiel adaptação do alegórico romance do super-aclamado (e superestimado) José Saramago. Salvam-se as locações em São Paulo como terra arrasada, à maneira da Londres de Extermínio, e, vá lá, Julianne Moore – a única a enxergar alguma coisa, ao contrário do elenco internacional e, principalmente, do espectador.

Linha de Passe

(Brasil, 2008)



Um sub Rocco e Seus Irmãos – de subdesenvolvido mesmo. Para Daniela Thomas e, principalmente, para “Waltinho” Salles e seu cinema acetinado e todo “artístico” de riquinho xarope com consciência social (e renúncia fiscal), típico da era Lula, pobre só tem vez mesmo como empregada doméstica – obviamente mãe solteira da periferia paulistana, corintiana, de nome "Cleuza" e grávida pela enésima vez, para piorar ainda mais as coisas – motoboy, jogador de futebol, crente, motorista de busão ou então simplesmente como bandido. Lamentável – apesar do ótimo Kaique Jesus Santos (foto).

quinta-feira, julho 31, 2008

Batman – O Cavaleiro das Trevas

(The Dark Knight, EUA, 2008)



Batman (re)começa. Desta vez, sem traumas de infância, manjadas filosofias de superação do tipo "cair, para depois se levantar" ou qualquer princípio excessivamente explicativo presente do início ao fim no primeiro (e superestimado) filme da retomada do noturno justiceiro mascarado. Tudo cedendo lugar à ação e às intrigas políticas num contexto mais realista, muitas vezes em plena luz do dia, neste eletrizante embate com ares de tragédia grega (daí a onipresença das máscaras e de mascarados) entre o Cavaleiro das Trevas (Christian Bale) e seu arqui-sorridente inimigo Coringa (uma das derradeiras performances do excepcional Heath Ledger) – que literalmente mergulha Gotham City no caos –, sustentado por um elenco de peso (com destaque para Aaron Eckhart como Harvey Dent/Duas Caras e Gary Oldman retornando como o inspetor tornado comissário Gordon), aqui bem mais aproveitado em ótimas subtramas que conferem a necessária dramaticidade ao conjunto da narrativa, mesmo que o diretor e co-roteirista Christopher Nolan atropele um tantinho as coisas com a sua costumeira e atabalhoada edição em algumas cenas e a mania de querer impor um ar sério e exageradamente grave a tudo – a começar pelo risível tom de voz do Batman. Mesmo assim, simplesmente o blockbuster do ano!

quarta-feira, julho 30, 2008

A Banda

(Bikur Ha-Tizmoret/The Band´s Visit, Israel/França/EUA, 2007)



No Oriente Médio, o deserto é o mesmo. Os povos que o compartilham – especialmente egípcios e israelenses –, plenos de históricos conflitos entre si. Mas a música, ou a sugestão dela em meio ao silêncio e à aridez da região, e, principalmente, a língua inglesa, mediadora entre os personagens de nacionalidades aparentemente incompatíveis, harmonizam as diferenças, neste adorável filme sobre uma banda policial egípcia que, contratada para tocar num centro cultural árabe em Israel, perde-se num vilarejo israelense no meio do deserto, e seus moradores, num misto de empatia e desconfiança, os hospedam por uma noite. Assim, longe de rusgas político-religiosas, ampliam a visão de mundo uns dos outros, em momentos de humor e tolerância, apesar da rigidez e severidade do líder da banda (muito bem interpretado por Saleh Bakri). Filme bastante simpático do israelense Eran Kolirin, que conquista o espectador em seu aparente despojamento e simplicidade, sem, no entanto, forçar a barra num humanismo que se quer conciliador, atingindo as notas exatas no belo e muito aguardado concerto apresentado em seu polifônico final.

segunda-feira, julho 28, 2008

Arquivo-X: Eu Quero Acreditar

(The X-Files: I Want to Believe, EUA/Canadá, 2008)



Saudades dos homenzinhos verdes... Ainda assim, OK para marcar o muito esperado reencontro entre os ex-agentes do FBI Scully (a bela Gillian Anderson) e Mulder (David Duchovny), num suspense razoável, com ecos de Frankenstein e toques de melodrama, em que pedaços decepados de corpos encontrados por um padre vidente com um passado sombrio (Billy Connolly) funcionam também como metáfora visual para determinar o relacionamento dilacerado da dupla ao longo dos anos em que estiveram afastados um do outro, apesar da direção convencional do criador da série original, Chris Carter, bem menos cinematográfica que a que Rob Bowman imprimiu no longa-metragem anterior da dupla, Aquivo-X: O Filme (1998), e que hoje, separadamente, funciona muito bem como um thriller tipicamente paranóico e premonitório do infame 11 de setembro.

terça-feira, junho 24, 2008

Fim dos Tempos

(The Happening, EUA, 2008)



No lugar de um terremoto, um monstro, alienígenas exterminadores ou de uma onda gigante produzida por computador, devastando e arrasando grandes metrópoles americanas, uma brisa que balança as árvores de um parque. Suave vento, o “nada”, que, no entanto, carrega estranha toxina que provoca uma súbita e inexplicável onda de suicídios em massa, da qual fogem um professor de ciências (Mark Wahlberg) e sua mulher (Zooey Deschanel), ambos perplexos com “o acontecimento” do título original e, sobretudo, em crise no casamento. Assim é o Apocalipse de M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido, Corpo Fechado, Sinais, A Vila): antediluviano e, principalmente, anti-hollywoodiano em sua simplicidade. Ainda assim bastante atmosférico e sugestivo, na discreta elegância com que constrói climas melancólicos e ameaçadores, fazendo uso de pouquíssimos elementos (arbustos balançando, capim ao vento, etc.), apesar do tolo subtexto ecológico e explicativo ao final, mas que se mostra, felizmente, insuficiente para dar conta da dimensão da catástrofe, que, mais do que ecológica, é inerente à outra natureza, a humana, no tocante à falência dos afetos, das relações entre os indivíduos, da desagregação familiar, etc. Algo tão devastador e bem mais palpável que uma catástrofe tipicamente hollywoodiana.

segunda-feira, junho 16, 2008

O Incrível Hulk

(The Incredible Hulk, EUA, 2008)



Ainda que sem a mesma sofisticação visual ou qualquer referência ao muito injustiçado filme anterior de Ang Lee, Hulk (2003), o cientista Bruce Banner retorna muito bem na pele franzina de Edward Norton, agora vivendo escondido na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, arranhando um Português escorreito e trabalhando como operário numa fábrica de refrigerantes. Como bom “brasileiro”, não desiste nunca na busca de uma cura para a anomalia genética que o transforma no ser verde e monstruoso do título e ainda arruma um tempinho para ter umas aulinhas básicas de anger management com um dos lutadores da família Gracie, a fim de evitar a aparição indesejada da criatura, resultado de uma experiência mal-sucedida com raios gama. Mesmo oculto, continua, porém, sendo obsessivamente rastreado pelo General Ross (William Hurt), que o quer para desenvolver uma arma letal para o exército americano e pai do amor da sua vida, a dra. Betty Ross (a adorável Liv Tyler). Quando o general finalmente descobre o seu paradeiro, manda o militar Emil Blonsky (Tim Roth) em seu encalço, no Rio, forçando Banner a voltar a ser o bom Hulk de antigamente para fugir dali. Aí o pau come de vez e o filme não pára mais, graças à boa condução do francês Louis Leterrier, especialista em fitas de ação e quebra-pau, como os dois Carga Explosiva (2002/2005) e Cão de Briga (2005), ao roteiro fiel aos quadrinhos originais, além do ótimo elenco e da boa ambientação no Brasil, mesmo que os efeitos especiais, um dos principais problemas do filme de Lee, ainda não sejam tão convincentes na recriação das criaturas e a edição picotada suprima perceptivelmente alguns momentos importantes, especialmente na continuidade das lutas, como no confronto final entre Hulk e Blonsky, então transformado no Abominável. Mesmo assim, é inegável: nesta mais do que satisfatória retomada do querido verdão da Marvel, Hulk volta arrebentando pra valer e, melhor, não estará mais sozinho nessa briga!

domingo, junho 15, 2008

Listas e um breve retorno

Até que não foi tão complicado montar a lista dos melhores filmes nestes tão precoces anos 2000. Foi até bem divertido, embora me arrependa um pouco de ter deixado vários belíssimos títulos de fora (Lady Chatterley, Império dos Sonhos, Senhores do Crime, Síndromes e Um Século, Não Toque No Machado, Amantes Constantes, Miami Vice, etc.). Mas seleção é escolha e corte mesmo. Sem dó. E assim vou aos poucos retornando a este espaço quase inutilizado. Tá bom... Ei-la:

1) O Tempo e a Maré (2000), Tsui Hark
2) Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), Joel e Ethan Coen
3) Menina de Ouro (2004), Clint Eastwood
4) Cidade dos Sonhos (2001), David Lynch
5) A Inglesa e o Duque (2001), Eric Rohmer
6) Sob a Névoa da Guerra (2003), Errol Morris
7) Fale Com Ela (2002), Pedro Almodóvar
8) O Novo Mundo (2005), Terrence Malick
9) Gangues de Nova Iorque (2002), Martin Scorsese
10) Exilados (2006), Johnnie To
11) Sangue Negro (2007), Paul Thomas Anderson
12) Marcas da Violência (2005), David Cronenberg
13) Os Incríveis (2004), Brad Bird
14) Kill Bill, Vol. 1 (2003), Quentin Tarantino
15) O Segredo de Brokeback Mountain (2005), Ang Lee
16) Guerra dos Mundos (2005), Steven Spielberg
17) Kedma (2002), Amos Gitai
18) Amor à Flor da Pele (2000), Wong Kar-Wai
19) Um Filme Falado (2003), Manoel de Oliveira
20) Zodíaco (2007), David Fincher



O Tempo e a Maré: para mim, o campeão absoluto é adrenalina pura, movimento que não pára nunca, ação, diversão, tomadas maravilhosas, um exercício cinemático, hipercinético e hiperbólico dos mais vibrantes, pouco importando a maravilhosa confusão da trama, que envolve tiroteios coreografados com maestria, gângsteres de Hong Kong, guarda-costas picaretas, traficantes sul-americanos de Aracaju com rostos chineses e sotaque hispânico, um assassino profissional voltando à ativa , uma policial lésbica grávida no meio de todos e uma eletrizante perseguição de rapel num treme-treme na "Cidade das Baratas". Um dos filmes mais bacanas do mundo!

sexta-feira, abril 18, 2008

[REC]

(Espanha, 2007)



Sustos genuínos (eu digo genuínos mesmo! De pular da cadeira!) nesta eficiente e curta empreitada digital dos diretores Jaume Balagueró (A Sétima Vítima) e Paco Plaza (Roma Santa), “revivendo” os filmes de zumbis de acordo com a estética do vídeo caseiro, consagrada em A Bruxa de Blair e retomada recentemente em Cloverfield, Redacted e, principalmente, Diário dos Mortos, do mestre George Romero, só que concentrada em poucos espaços. No caso, no quartel do corpo de bombeiros e num prédio de apartamentos em Madri, palco dos momentos mais claustrofóbicos, para onde seguem a repórter Angela (Manuela Velasco) e o cinegrafista Pablo (o ponto de vista do filme), que, a fim de fazer uma reportagem para o programa noturno “Enquanto Você Dorme”, acompanham filmando incessantemente a rotina de bombeiros, especialmente quando estes, junto com policiais, atendem a uma chamada vinda do prédio. Tudo muito banal, até que um dos policiais sofre um ataque de uma moradora enlouquecida: uma mordida, que transmite uma infecção capaz de tornar a vítima em zumbi raivoso. Logo em seguida, sem maiores explicações, o prédio é isolado pelas autoridades sanitárias, e os bombeiros, moradores, policiais e, principalmente, Angela e o cinegrafista, sem nunca deixar de registrar o que se passa lá dentro, são impedidos de sair. A cada nova mordida, claro, a epidemia se espalha, numa sangria desatada. Sem muita enrolação, começa então um sobe-e-desce de escadas, em momentos de gelar a espinha, neste filme enxuto, que aproveita muito bem os exíguos espaços em que o terror, solerte, se imiscui em cada canto ou apartamento escuro e se revela numa abrupta virada de câmera, até o final arrepiante, que ainda consegue encaixar a tradicional rivalidade entre portugueses (“Medeiros”, hehehe) e espanhóis e evocar mais uma vez, ainda que brevemente, um certo misticismo religioso comum às duas nações. Pena que os americanos, para estragar tudo, como andam fazendo com os terrores asiáticos, já o estejam refilmando como Quarantine...

quinta-feira, abril 17, 2008

The Rolling Stones – Shine a Light

(Shine a Light, EUA/Reino Unido, 2008)



Não curto o quarteto inglês, nem o “róqui” em geral, muito menos os Clinton (meu voto é para o McCain!). Portanto, não sou um entusiasta fervoroso deste filme, apesar de reconhecer os méritos da filmagem impecável do ardoroso fã (e estressadíssimo) Martin Scorsese, no registro de duas apresentações dos Stones no pequeno Beacon Theatre, em Nova Iorque, em 2006, alternando saborosos depoimentos antigos de seus integrantes com as manjadíssimas Jumpin´Jack Flash, Start Me Up e Satisfaction no palco, embora as guitarras elétricas encubram com certa constância os vocais do faceiro e serelepe frontman Mick Jagger, o homem, o mito, a lenda. Aqui, mais o homem, suas encoxadas (em Christina Aguilera) e, principalmente, suas rugas, bem como as do pai do Jack Sparrow, o guitarrista Keith Richards, e as do também guitarrista Ronnie Wood. Melhor quando arriscam tocar blues, ao lado de Buddy Guy ou no vocal de Richards acompanhado pela harmônica de Jagger, ou country, ou acústico, ou ainda quando Scorsese destaca o olhar blasé do também enrugado baterista Charlie Watts.

Visto numa sessão geriátrica, ou seja, durante à tarde num dia de semana, o que é até condizente com o espírito deste DVD, ou melhor, filme chapa-branca sobre a longevidade da banda e das rugas de seus incansáveis protagonistas sessentões.

quarta-feira, abril 16, 2008

Imagens do Além

(Shutter, EUA, 2008)



O boboca Joshua Jackson (o Pacey da série Dawson’s “Cricri”) e a gata Rachael Taylor (de Transformers) formam um desses irritantes e grudentos casais jovens, moderninhos e descolados que, recém-casados, mudam-se para o Japão, onde ele vai trabalhar como fotógrafo de uma revista de moda de amigos, num emprego dos sonhos, com direito a um apartamento “funcional” no centro de Tóquio, todo decorado no melhor estilo GNT, Discovery Travel & Home, Pottery Barn, Tok & Stok e Casa Cláudia (o mundo dos vivos nunca foi tão morto e padronizado como atualmente...). Ela, no entanto, solitária e “perdida na tradução”, vagando pelas ruas de Tóquio durante o dia, tenta-se habituar ao novo lugar e, sobretudo, à cultura do superpovoado país oriental. Uma noite, voltando de um passeio, atropelam uma menina. Ou pensam ter atropelado. E estranhas e fantasmagóricas imagens de vultos começam a aparecer nas fotos que tiram.

Ainda que bem ambientado no Japão e comandado por um genérico diretor japonês, Masayuki Ochiai (de Infecção, disponível em DVD), refilmagem quase igual ao tailandês Espíritos – A Morte está a Seu Lado (2004), grande sucesso de bilheteria no Brasil, com os mesmos sustos, inclusive, só que tudo bem suavizado e previsível, sem a mesma capacidade de criar o clima apavorante e de constante tensão do original, que, afinal, não era tão original assim, já que lembrava Ringu – O Chamado, One Missed Call (vem aí a péssima versão gringa do”ringu” de Takashi Miike), Ju-On – O Grito e tantas outras fitas nipônicas e suas imitações chinesas e coreanas de meninas cabeludas e desgrenhadas vindas do além em busca de vingança. Mas que era(m) bem mais eficiente(s) em sua reciclagem de lugares-comuns.

terça-feira, abril 15, 2008

Estômago

(Brasil/Itália, 2007)



O Como Água para Chocolate brazuca, versão “coxinha”, na estória em flashback de um paraibano, Raimundo Nonato (João Miguel), que, da prisão, relembra o dia em que chegou a São Paulo sem um tostão. Faminto, pede duas coxinhas num pé-sujo vagabundo e tem que se virar lavando os pratos para pagar. Consegue, porém, um quartinho ao lado da cozinha. E como é bom pra pôr a mão na massa, torna-se cozinheiro da espelunca, cujas coxinhas boas “pra caralho” que frita fazem sucesso retumbante entre os (novos) freqüentadores, dentre os quais uma puta um tanto gulosa (Fabiula Nascimento, muito bem), que vira a sua namoradinha, ainda que ela não o deixe beijá-la. Em pouco tempo, estará preparando o chique penne alla putanesca na cozinha de um fino restaurante italiano nas proximidades, gerido por um grosso, mas todo professoral carcamano (Carlo Briani). Alternadamente, na prisão, tenta se impor entre os perigosos colegas da apertada cela, por meio de receitas improvisadas no exíguo espaço, a fim de melhorar a gororoba servida no presídio.

Despretensioso filme de Marcos Jorge, com diálogos engraçados à brasileira, temperado por muitos palavrões e sacanagem, embora force um pouco no didatismo gastronômico, especialmente nas falas um tanto artificiais do dono do restaurante italiano, e levado pela divertidíssima interpretação de João Miguel como o simpático aprendiz de mestre-cuca paraíba e dono de um olhar só aparentemente inocente, além de um desfecho digno de giallo. Não é perfeito, um monte de gente vai gastar tinta para deitar falação socioculinária-cinematográfica em cima, mas ao menos dá pra rir. Ao menos aqui, não se trata da "cosmética da fome", tão freqüente no cinema brasileiro, muito menos de fome. Essa, só na barriga do espectador depois da sessão.

domingo, abril 13, 2008

Meu Nome é Taylor, Drillbit Taylor

(Drillbit Taylor, EUA, 2008)



Três nerds típicos – o gordinho tarado e falastrão, o magricela desengonçado e tímido (prefigurando o sensacional McLovin, de Superbad) e o outro, baixinho e com aparelho nos dentes, que não desgruda dos dois –, calouros numa High School, sofrem nas mãos de um psicótico veterano fortão. Cansados das surras e humilhações rotineiras, decidem contratar um guarda-costas (Owen Wilson) para se protegerem. Porém, o homem responsável pela segurança deles, pago com o dinheirinho da suada mesada de cada um, é na verdade um sem-teto malandro, que vivia de esmolas pelas ruas de Los Angeles, apesar de veterano, ou melhor, desertor do exército americano.

Ótima premissa, baseada em idéia do genial John Hughes, rei dos filmes adolescentes dos anos 80, e no filme Cuidado Com Meu Guarda-Costas (1980), e um começo que garante boas risadas, a cargo do martírio do desengoçado, mas simpático trio de nerds. No entanto, com a entrada em cena do meio sorumbático Wilson (sozinho ele não segura um filme, ainda mais depois de uma tentativa real de suicídio), infiltrando-se como professor no ambiente escolar, a coisa toda desanda, além do ritmo irregular característico das produções de Judd Appatow (Ligeiramente Grávidos, Superbad, O Virgem de Quarenta Anos, Ricky Bobby, O Âncora), ao sabor da verborragia típica do co-roteirista Seth Rogen (ator em Superbad, O Virgem..., Ligeiramente...), numa mistura que muitas vezes não dá liga, neste filme do burocrático Steve Brill, com resultados um tanto aquém de seu hilário potencial. O produtor Appatow deveria era ter trazido o Matt Dillon de volta. E agora como o guarda-costas da garotada.

sexta-feira, abril 11, 2008

Um Beijo Roubado

(My Blueberry Nights, Hong Kong/China/França, 2007)



Com a surpreendente colaboração no roteiro do romancista de livros policiais Lawrence Block (O Ladrão que Estudava Espinosa, Cidade Pequena, Hit Parade), um dos meus escritores de "thriller de aeroporto" favoritos, o chinês Wong Kar-Wai (Dias Selvagens, Amor à Flor da Pele) dirige seu primeiro filme de língua inglesa, no entanto, não sendo este Um Beijo Roubado muito diferente daqueles que o celebrizaram em Hong Kong, marcado aqui também pelo uso ostensivo da câmera lenta, pelo demorado abrir e fechar de portas, embalado por uma trilha sonora nostálgica e melancólica e povoado por tipos solitários, em meio a vitrines embaçadas, suspensos no tempo das imagens que se sobrepõem, sofrendo nas noites de bebedeira ou de insônia as dores dos amores fraturados. Em seus filmes, de relações que se estabelecem ao acaso, o amor começa de repente, acaba de repente, sem explicação, e é uma lembrança dolorosa, que assombra seus protagonistas. Aqui não é diferente, só trocando o aperto dos apartamentos e as ruas tortuosas de Hong Kong pela vastidão das paisagens desérticas da América. Os sentimentos de abandono permanecem os mesmos, porém. Logo no começo, uma imagem comum a outros de seus filmes: um trem no elevado, símbolo dos amores expressos e desencontrados, atravessa a cena noturna, cruzando a cidade, no caso Nova Iorque, onde Elizabeth (a cantora Norah Jones, muito bem), à procura do namorado com quem acabara de romper, conhece Jeremy (Judy Law, ainda que bom ator, muito metrossexual para o papel que seria mais adequado a tipos mais duros e sofridos, como os de Tony Leung ou Andy Lau dos filmes chineses), que dirige um café e também foi deixado por sua namorada russa. A cada noite de insônia, Elizabeth reaparece para bater papo com ele, saboreando a torta de mirtilo ou blueberry do título original, que costuma fazer pouco sucesso entre os clientes do café, restando intacta no final do dia. Uma noite, ela não reaparece mais. Mergulhada na tristeza, deixa-se levar pelas estradas da América e vai parar em Memphis, onde trabalha como garçonete de dia e bartender à noite, quando ouve as tristezas e lamentos de um policial alcoólatra (David Strathairn), abandonado pela esposa (Rachel Weisz). Em outra parada de sua fuga sentimental pelos EUA, faz amizade com uma jogadora de pôquer (Natalie Portman), que a leva até Las Vegas. Jeremy, no entanto, não deixa de segui-la por meio de correspondências ou de telefones, onde quer que ela esteja. Correspondência que é mútua, com a narração de ambos pontuando o filme.

Com esplêndida fotografia, pra variar, filme belo e poético que talvez peque no roteiro, por ser redondinho demais em relação aos outros trabalhos de Kar-Wai, ora erráticos, ora confusos, mas ainda assim sempre fascinantes, para quem sabe apreciar suas obsessões fetichistas, aqui centradas no caráter erótico da torta de blueberry, imagem que abre e encerra o filme. Enfim, uma nova sinfonia pop de Kar-Wai, que nunca deixa de ser marcante pelos encontros e desencontros dos afetos à deriva, pelo visual elaborado de cores berrantes, mas nunca afetadas, e pelo elenco estelar, sobretudo por Norah Jones e pelos tipos desesperados e desesperançados interpretados por Stratahairn e pela bela, ou melhor, belíssima Weisz. Ah, o amor, essa coisa complicada...

quinta-feira, abril 10, 2008

O Sol

(Solntse, Rússia/Itália/Suíça/França, 2005)



Filme visto há quase dois anos na Mostra de Cinema de São Paulo, na sempre muito agradável companhia da recém-conhecida Alê Marucci (saudades, Alê!), mas ainda bastante fresco na memória, em que o diretor russo Aleksandr Sokurov busca mais uma vez dar volume e densidade a figuras históricas, sem enaltecê-las de maneira patética, desmistificando-as, mantendo-as, porém, envoltas numa aura de densa e misteriosa melancolia.

Depois do Hitler de Moloch (1999) e do Lênin de Taurus (2001), agora é a vez do imperador japonês Hiroito (o Sol do título), recolhido nos subterrâneos de seu palácio às vésperas da rendição japonesa, dando fim à Segunda Guerra Mundial. Tóquio em chamas sob os incessantes bombardeios dos americanos, e o imperador, aficcionado por biologia marinha, preocupa-se somente em observar os peixes no aquário, no interior de seu bunker, com um olhar de peixe morto, com a boca que se move como a do peixe do aquário, sem emitir sons. O país é enfim rendido, e diante do então chefe da ocupação, o general MacArthur, toda a ritualística do imperador, outrora expressa nos mínimos gestos cheios de significados divinos para os japoneses, se esvazia e importa pouco para os ocidentalizados e pragmáticos yankees, que o chamam de Charlie, por acharem que ele se parece com Charles Chaplin. Com os privilégios revogados, Heroito renuncia a sua condição divina para permanecer Imperador, e também renega a tradição milenar guerreira e militarista do Japão, anunciando uma inédita era de paz a seus súditos.

Um choque de culturas decorrente de uma nova realidade para o humilhado imperador, para os japoneses e também para os americanos de pouco tato, que rende também alguns bons momentos de humor, coisa rara nos trabalhos anteriores de Sokurov, neste belo filme que se desenrola lento, contemplativo, quase estático, banhado numa sublime fotografia difusa, de cores mínimas, e que tem na interpretação de Issei Ogata, recriando com perfeição os mínimos gestos e tiques do imperador um tanto perplexo, outro tanto alienado diante dos novos tempos, um de seus maiores e mais significativos triunfos.

quarta-feira, abril 09, 2008

Jumper

(EUA, 2008)



Na adolescência, o muito maltratado pelos colegas David Rice (Hayden Christensen) descobre que tem a incrível capacidade de se teletransportar pelo mundo, para onde bem entender. Assim, foge do pai abusivo (Michael Rooker) e cotidianamente rouba uns trocados dos cofres de bancos que invade sem esforço, para viver muito bem uma despreocupada, ainda que solitária, rotina de globetrotter, em que acorda em Nova Iorque, passa o dia em Londres, ou em Tóquio, ou no Egito, ou no Havaí, e depois retorna tranqüilamente para o lar, são e salvo. E, melhor, sem jet lag. Tudo vai no bem bom até passar a ser alvo dos Paladinos, uma seita proto-religiosa que há séculos combate esses "jumpers", liderada por Roland (Samuel L. Jackson), obcecado em exterminá-los um a um, onde quer que estejam. Descobrindo também que há outros como ele, como Griffin (Jamie Bell), David vê-se no centro de uma guerra, pondo em risco não só a sua vida, mas a de sua família (ou o que restou dela) e, principalmente, a de uma antiga paixão de adolescência (Rachel Bilson).

Ótimo conceito, muito bem aproveitado e executado pelo diretor Doug Liman (Swingers, Vamos Nessa, A Identidade Bourne), num filme divertido e ágil, que não enrola e que tem como maior mérito a declarada despretensão ao longo de seus gostosos noventa minutos, além de dinâmicas (alguns chatos "dissonantes" dirão "tremidas") e inventivas cenas de ação around the world.

segunda-feira, abril 07, 2008

À Procura da Vingança

(Seraphim Falls, EUA/Reino Unido, 2006)



Nas montanhas geladas do meio-oeste americano, enquanto descansa, um homem (Pierce Brosnan) leva um tiro. Ferido, despenca morro abaixo e cai num rio, ao tentar atravessá-lo. Levado pela gelada correnteza, despenca na queda d´água. Sobrevive à cachoeira, ao frio intenso, à ferida da bala que arranca sozinho, à falta de cavalo e comida. Porém, continuará, sem maiores explicações, a ser incessantemente perseguido pelo algoz (Liam Neeson) e seu bando pelas montanhas, por vales escarpados, por ferrovias em construção, pelo árido deserto. Os motivos mais tarde virão à tona, em econômicos flashbacks. Mas importam menos. Importa mais a jornada empreendida.

Com belos enquadramentos, um curioso western com jeitão europeu, de pouca fala e muita movimentação do diretor e co-roteirista David Von Ancken, valorizado pelas performances de seus dois ambíguos antagonistas, pelo onipresente clima estranho, quase sempre místico, nessa rota de fuga marcada pela presença de mórmons e pistoleiros no meio do caminho de ambos, por um índio de comportamento enigmático e pontuado pelas falas proféticas e sentenciosas a cargo de Liam Neeson, dignas de um vingativo capitão Ahab há anos atrás de sua baleia branca, que, com intenção de caçar seu oponente e liquidá-lo a qualquer custo, não poupa nem os indivíduos do séquito que o acompanha. Atmosfera essa acentuada no final pela presença misteriosa de Anjelica Huston, encarnando um personagem muito semelhante à da feiticeira da Odisséia de Homero, e pela beleza das paisagens naturais que se descortinam silenciosas a cada ato, sempre implacáveis em sua vastidão. Mais do que um filme sobre a vingança, um filme sobre a peregrinação neste mundo estranho e que parece infinito, em que a vingança e somente ela obrigam os dois homens em seu desespero a percorrê-lo e a serem vencidos por ele, esgotados, liquidados, por fim.

domingo, abril 06, 2008

A Grande Ilusão

(La Grand Illusion/ The Grand Illusion, França, 1937)



Durante a Primeira Grande Guerra Mundial, um avião francês é abatido por alemães. Os sobreviventes, o nobre capitão De Boeldieu (Pierre Fresnay) e o tenente da classe operária Maréchal (Jean Gabin) vão parar no campo de prisioneiros dirigido pelo aristocrático comandante Von Rauffenstein (Erich Von Stronheim, um dos grandes atores e diretores advindo da Era Muda), protótipo do refinado militar prussiano, que logo na chegada os convida para jantar em seus aposentos, simpatizando-se sobretudo com De Boeldieu, pertencente ao mesmo estamento da nobreza que ele, apesar da beligerante rivalidade entre as nacionalidades. Mas guerra é guerra, e os dois franceses, mais outro prisioneiro que conhecem nos alojamentos, o judeu e rico banqueiro Rosenthal (Marcel Dalio), armam planos para fugir dali, primeiro cavando um túnel, depois tentando armar para cima dos guardas. Enquanto isso, as diferenças de classe mais aproximam que separam soldados franceses dos inimigos soldados alemãos, e aristocratas alemães e franceses, além dos russos e ingleses, confinados no mesmo local, honram suas origens, bebendo juntos, mesmo sabendo que a extinção da nobreza e de seus refinados valores de civilidade está mais do que certa com a iminente ascensão da classe operária ao final do conflito, "pois quem quer que vença a guerra, será o fim dos Rauffensteins e dos Boeldieus", prenuncia o comandante alemão, com o corpo bastante marcado pelas infelicidades do conflito. Mas o filme é mais do que isso. Com a guerra, as diferenças sociais se exacerbam em acaloradas discussões ou se harmonizam dentro do campo, demonstrando que fronteiras e conceitos de patriotismo não passam de noções fabricadas que terminam por separar os iguais dos diferentes e que, ao compartilharem da mesma humanidade, do gosto pelas mulheres, pelo vinho, pelo teatro, pela música, embora se comuniquem em idiomas diferentes, esses homens todos, sob o olhar marcante de Jean Gabin ou sob o rosto resignado e marcado de Von Stronheim, acabam não sendo assim tão diferentes entre si.

De estrutura episódica, com uso pioneiro da profundidade de campo, uma constante, embora discreta e muito elegante movimentação de câmera, que serve formalmente para estabelecer relações entre os prisioneiros, aproximando indivíduos, unindo-os, alternando momentos pungentes com outros bem-humorados, uma obra-prima indiscutível do mestre do realismo poético Jean Renoir e um dos grandes filmes de todos os tempos, transpirando genuíno humanismo e pacifismo em cada uma das suas memoráveis seqüências, como a da apresentação do improvisado teatro de atores "travestidos" para os prisioneiros ou as conversas amigáveis entre os "camaradas" inimigos militares De Boeldieu e Von Rauffenstein, além da fuga pelas montanhas até a fronteira da Suíça, em que os franceses fugitivos são recebidos por uma resignada viúva alemã que já não acredita mais nessas noções abstratas de nacionalismo, após ter perdido quase toda a família nas maiores vitórias de seus compatriotas militares.

No final, a "grande ilusão" do título é aquela em que muitos acreditaram de que essa guerra, que "iria pôr fim a todas as guerras", não iria durar tanto assim, neste belo filme feito às vésperas de outra grande guerra, proibido e quase destruído pela Alemanha nazista, que se fecha com uma poética e inesquecível imagem da brancura da neve numa paisagem de montanhas, praticamente indiferenciando a Suíca da Alemanha, já que "a natureza não dá a mínima para fronteiras, meras invenções dos homens", conforme fala emblemática do pragmático sobrevivente Rosenthal.

Charlton Heston (1924-2008)



Ou El Cid, Ben-Hur, Michelangelo, Moisés... Mais do que o Senhor da Guerra, o Senhor do CinemaScope e do Technicolor.

sexta-feira, abril 04, 2008

O Banheiro do Papa

(El Baño del Papa, Uruguai/Brasil/França, 2007)




(Ou O Muambeiro Fiel.)

Pensando nas suas necessidades financeiras e, sobretudo, nas necessidades fisiológicas dos outros, Beto (César Troncoso), um muambeiro de Melo, Uruguai, que vive a penosa rotina de trazer diariamente em sua bicicleta produtos contrabandeados do Brasil para as vendinhas do povoado local e assim garantir parte do minguado sustento de sua muito pobre família, decide construir, sozinho, um banheiro para atender aos milhares de fiéis esperados durante a visita do Papa João Paulo II à região, em 1988. A fim de lucrar alguns trocados, todos os moradores também pretendem oferecer algum tipo de serviço aos esfomeados e sedentos visitantes que acorrerão ao local, vendendo lanches, quitutes, tortas e refrescos, empenhando suas parcas economias e até suas casas para armar as barracas e comprar lingüiça e pão. Muito pão. Tanta comida temperada que entra na boca dos fiéis uma hora deve ter de sair, raciocina o dedicado e engenhoso muambeiro Beto, com um tanto de ingenuidade, outro tanto de esperteza, daquela esperteza tão decantada pelos intelectuais e atribuída à sabedoria e criativdade das classes populares. Daí a idéia do banheiro. Começa então sua dura jornada para arranjar mais dinheiro e trazer na garupa de sua bicicleta desde a porta da toalete, encanamentos até o vaso sanitário, em momentos de humor e muita movimentação, enfrentando com algum jogo de cintura e muita teimosia os guardas de fronteira, a polícia, um fiscal aduaneiro que vive de achacá-lo e até a contrariedade da mulher e da filha.

Nem tão engraçado ou redentor quanto se poderia supor, já que o Papa acaba não sendo tão pop assim, o estreante diretor uruguaio César Charlone, em parceira com Enrique Fernández, emulando clássicos do neo-realismo italiano, iraniano, indiano, ucraniano, boliviano, etc., acaba na verdade prejudicando o bom potencial dessa história real que se quer singela com a sua intrinseca capacidade de filmar a pobreza dos hermanos daquele seu jeito tão brasileiro e comovido de retratar a miséria, visto nos filmes que fotografou e o consagrou, como Cidade de Deus e Jardineiro Fiel. O resultado, mediano, embora celebradíssimo pela crítica e pelo público chique, é acetinado, como as fotografias de Sebastião Salgado, e previsível, apesar da simpatia de seu esforçado protagonista, que conduz o filme. Ou seja, o que poderia ser uma revelação acaba sendo mais um típico representante latino-americano compromissado com as conhecidas mazelas de nosso continente, só que nos mesmos tons manjados e sem a mesma ironia dos filmes de pitoresca vila inglesa abalada com a chegada de algum visitante inusitado, como O Inglês que Subiu a Colina e Desceu a Montanha e O Barato de Grace.

segunda-feira, março 31, 2008

A Família Savage

(The Savages, EUA, 2007)



Há tempos afastados um do outro, dois irmãos da família “Selvagem” do título original se reencontram para cuidar do pai (Philip Bosco), que sofre de demência e que foi recentemente expulso da casa no Arizona onde vivia há anos com a sua recém-falecida companheira pela família dela. O irmão (Philip Seymour Hoffman) ensina teatro numa universidade de segunda linha em Buffalo e tenta concluir um livro sobre Brecht. A irmã (Laura Linney) sonha em se tornar dramaturga, pleiteando bolsa de pesquisa junto a famosas instituições, como a Fundação Guggenheim, enquanto se vira em trabalhos temporários em Nova Iorque. Em comum, ambos, por volta dos quarenta anos, têm dificuldades nos relacionamentos amorosos e não parecem muito satisfeitos com as rotineiras vidas que levam, embora nunca comentem abertamente entre si. A reaproximação exporá as diferenças entre eles, especialmente na maneira de lidar com a velhice do pai rabugento, e servirá para dar novo rumo à vida dos dois. Ou quase. Mas, apesar de tudo e de todos, sobretudo do pai quase sempre ausente da vida deles e agora moribundo, nunca deixarão de serem irmãos, prevalecendo, entre brigas, discussões e abraços, o reencontro com os afetos fraternais, o apoio de um a outro.

Ora terno, ora irônico, sempre bem-humorado filme em que a direção sensível e elegante da também roteirista Tamara Jenkins se encarrega de evitar o melodrama rasgado que um tema como esse poderia render e, principalmente, os tiques comuns do cinema americano dito independente, além de valorizado pelas justas interpretações de Linney e Hoffman, sem sombra de dúvida, dois dos melhores e mais confiáveis atores da atualidade. Bom filme agridoce sobre os encantos, curtos, e os desencantos, prolongados, do cotidiano, belos atores, acima de tudo.

quinta-feira, março 27, 2008

Richard Widmark (1914-2008)



Como protagonista ou como coadjuvante em filmes de Elia Kazan, John Ford, Otto Preminger, Jules Dassin, Henry Hathaway, Don Siegel, Edward Dmytryk, etc., sempre um cara durão. Na foto, como o assassino psicopata Tommy Udo, em O Beijo de Morte (1947), de Hathaway, sua estréia nos cinemas e papel que lhe valeu a sua única indicação para o Oscar (a de melhor ator coadjuvante).

Chega de Saudade

(Brasil, 2007)



Numa única noite num clube de dança em São Paulo, pessoas de várias gerações se encantam, se enamoram, se desencantam, embalados por antigos sucessos do passado, nas vozes de Elza Soares e Marku Ribas. Há os que dançam com todas (Stepan Nercessian), há quem invoque com quem dança com todas (Cássia Kiss). Há o gordinho suado com quem ninguém quer dançar. Há quem quer dançar e não consegue companhia (Betty Faria). Há quem lamente já não poder dançar (Leonardo Villar) e que briga com a sua companhia (Tonia Carrero). Há ainda, dentre os da geração mais nova, a namorada (Maria Flor) do DJ (Paulo Vilhena) que se deixa embalar nos braços daquele da velha guarda que dança com todas, para desespero de seu jovem e irritadiço parceiro, que, por ciúmes, quase arruína com o ritmo da noite. No meio de tudo, um garçom serve a todos e a todos observa.

No salão de dança, entre o compasso dos passos e o descompasso dos sentimentos, entre o brilho do passado e a desilusão do presente, olhares são trocados, olhares são correspondidos, amantes que mal se conhecem roçam pernas na escuridão e num ritmo próprio, bilhetes vão e vêm de mesa em mesa e amores desfeitos são refeitos com poesia e paçoca. Outros talvez jamais se refaçam. Entre pernas e mãos que balançam e quadris que chacoalham, Laís Bodansky (O Bicho de Sete Cabeças), recorrendo a O Jantar, de Ettore Scola, e a Altman, só que com mais doçura, nos presenteia com uma crônica sensível e agradável sobre os velhos tempos nestes novos e efêmeros tempos, sem se deixar levar por uma nostalgia embolorada, típica de um filme como a do argentino Clube da Lua, e sem forçar na poesia, que surge espontânea dos lábios (e da lábia malandra também) do Eudes de Stepan Nercessian, o personagem que melhor sabe viver o “encanto do momento”, e faz este filme coral caminhar com muita desenvoltura e em tempo quase real entre os vários freqüentadores do baile, graças sobretudo à câmera fluida de Walter Carvalho que, felizmente, evita aqui o seu conhecido pendor para maneirismos e embelezamento vazio de outros trabalhos, como Amarelo Manga, encarregando-se de registrar pés, tatuagens, braços e sobretudo rostos enrugados dos participantes com a necessária melancolia e algum despojamento. Além, é claro, da montagem de Paulo Sacramento (O Prisioneiro da Grade de Ferro), que se encarrega de embalar o bom ritmo do filme na cadência das danças e da prosa, do samba, do tango, etc., dos personagens.

quarta-feira, março 26, 2008

O Sinal

(La Señal, Argentina, 2007)



Após a morte de Eduardo Mignogna, que escreveu o roteiro, baseado em seu próprio romance, o sempre competente ator Ricardo Darín ( Nove Rainhas, O Filho da Noiva, XXY), com a ajuda de Martin Hodara, assumiu bem a direção deste curioso O Sinal, um noir portenho de atmosfera fúnebre, já que se passa em lugares mais lúgubres da Buenos Aires dos anos 50, tendo como pano de fundo a agonia de Evita Perón. Enquanto os argentinos rezam por sua saúde debilitada, em flashback, o cínico detetive particular Corvalán (o próprio Darín) é contratado por uma sedutora e misteriosa mulher (Julieta Díaz) para seguir um sujeito suspeito, apesar dos avisos contrários de seu sócio Santana (Diego Peretti, de Tempo de Valentes), que desconfia que uma mulher dessas, uma femme fatale, é sinal de encrenca na certa (aliás, qualquer mulher traz encrenca, hehehe). No entanto, o cara aparece morto, e Corválan, antes mais acostumado a lidar com casos de infidelidade conjugal e de animais de estimação desaparecidos, agora passa a ser perseguido por mafiosos da pesada, vendo aumentar a cada dia a contagem de cadáveres ao seu redor. Ou seja, mergulha no inferno comum a muitos detetives de filmes noir de outrora.

Trama previsível e sem novidades, com as esperadas reviravoltas, traições e enfrentamentos no final, mas a atmosfera bem construída e a boa dinâmica entre a dupla central de detetives, na pista de corrida de cavalos, nos cafés e num jogo de sinuca, entre outros lugares - dinâmica essa levada até o último plano -, garantem o interesse deste filme, que é discreto, tem andamento cadenciado e atento aos detalhes em sua precisa reconstituição de época, reverente do início ao fim ao gênero. Mais um ponto para os argentinos.

terça-feira, março 25, 2008

Colossus: The Forbin Project

(EUA, 1970)



Em plena Guerra Fria, do alto de sua conhecida prepotência , o governo americano anuncia o lançamento de um supercomputador apelidado de Colossus e responsável por gerenciar todo o arsenal de mísseis nucleares do país, eliminando de setor tão estratégico as imprecisões do fator humano. Mas a Rússia também construiu o seu, The Guardian e, pior, as duas máquinas se comunicam numa linguagem própria, possuem uma acelerada capacidade de aprendizagem, adquirem autonomia, são impenetráveis e têm planos de dominação mundial. Em suma, um pesadelo que põe soviéticos e americanos lado a lado na luta para se evitar uma catástrofe global, assistidos pelo professor Forbin (Eric Braeden), cientista idealizador de Colossus e que passa a ser vigiado 24 horas (ou quase) pela sua ciumenta cria cibernética.

Uma peróla da ficção científica dos anos 70, produto típico de uma era repleta de filmes em que supersistemas autônomos concebido por seres humanos positivistas fugiam do controle, como O Enigma de Andrômeda, Síndrome da China e Westworld: Onde Ninguém Tem Alma, e cuja temática pré-cyberpunk decontrole do mundo pelas máquinas já antecipava Jogos de Guerra, a SkyNet da esplêndida cinessérie O Exterminador do Futuro e até Matrix. Apesar de envelhecido no hardware mostrado, a boa direção de Joseph Sargent ainda hoje garante firme a tensão em momentos como o do primeiro ataque nuclear ordenado por Colossus, visto dos telões da sala de controle, e o humor das cenas à Big Brother, quando o cientista Forbin se vê cercado por câmeras controladas por Colossus, que o observa constantemente até nos momentos mais íntimos. Também ainda impressionam os primeiros minutos em que o supercomputador é posto em funcionamento, com ótimo uso do CinemaScope. Aos poucos, suas enormes plataformas e torres encravadas no alto de uma montanha vão sendo visualizadas, com grande destaque para a materialidade das estruturas do sistema, concebido a princípio para acabar com todas as guerras, o que só se torna possível desumando-se toda a humanidade. Ou seja, só corroborava na época a opinião corrente até hoje de que o computador surgiu mesmo para resolver problemas que você nunca teve antes, além de criar outros mais complicados ainda.

segunda-feira, março 24, 2008

Delírios

(Delirious, EUA, 2006)



Depois de Johnny Suede (1992), Vivendo no Abandono (1995) e Uma Loira de Verdade (1997), o independente cineasta novaiorquino Tom DiCillo volta a dar estocadas verbais no mundo da fama e, principalmente, das fugazes celebridades que nele habitam, com seu característico humor, sarcástico e mordaz, na estória de um sem-teto, Toby (Michael Pitt), que sonha ser ator e por acaso se torna assistente do irritante paparazzo pobretão Les Galantine (Steve Buscemi), acostumado a invadir festas de celebridades em Manhattan, sobretudo para conseguir a sacolinha de lembranças, e que se orgulha, entre outros feitos notáveis, de ter apertado a mão de Robert De Niro (!), tirado uma foto de Elvis Costello sem chapéu (!!) e outra de Goldie Hawn almoçando (!!!). Juntos, conseguem fotografar uma celebridade recuperando-se de uma cirurgia para aumentar o pênis, o que rende a Les alguns benvindos trocados, e se aproximam de uma fútil cantora juvenil, K´Harma (Alison Lohman), em crise após o fim de um relacionamento e que simpatiza com o jeitão carente, ingênuo e desprotegido de Toby.

Bobo e esquecível, como quase todos os filmes de DiCillo, aqui apoiando-se mais uma vez na interpretação histérica de Buscemi, bom para encarnar tipinhos repulsivos e outrora alter ego do diretor no esperto Vivendo no Abandono, mas com boas alfinetadas aqui e ali neste singelo mundo de aparências, modas descartáveis e pessoas que nele se autoconsomem, e um final bastante irônico, digno de telenovela, além da boa presença de Pitt, da sempre atraente Lohman e de Gina Gershon como uma vampiresca e vaidosa agente de casting. Por mais grossos ou sofisticados que sejam os óculos ou as lentes das máquinas fotográficas usadas por seus protagonistas, eles poucos são capazes de enxergar além do próprio nariz. E, atenção, para quem for vê-lo nos cinemas, fiquem até depois dos créditos.

sexta-feira, março 21, 2008

Juízo

(Brasil, 2007)



Formalmente semelhante ao seu anterior Justiça (2004), a diretora Maria Augusta Ramos volta com ainda mais rigor a abordar a questão judical no Brasil. Só que aqui, em vez das Varas Criminais, aponta a sua demonstrativa e discreta câmera para audiências com menores infratores, julgados com severidade por uma espalhafatosa e moralista juíza da Vara da Infância e da Juventude do Rio de Janeiro, chamando especial atenção para o abismo que separa o réu, em geral preto e pobre, das decisões e argumentos dos assim chamados operadores da lei (defensores públicos, promotores, juízes, etc.), durante os julgamentos bastante rápidos. Abismo sobretudo lingüístico, pelo jargão bacharelesco empregado pelos doutores e meritíssimos, cujas sentenças são recebidas com visível apatia pelos infratores, que parecem pouco entender o que é dito ali ou o significado de tais decisões para as suas vidas. Infratores substituídos, no contraplano, informa o filme logo no começo, por jovens não-infratores, já que a lei não permite que menores infratores sejam identificados, mas que passam pelas mesmíssimas condições sociais às dos personagens reais, breves encenações que nada prejudicam na veracidade do que é mostrado neste bom docudrama, já que todo o resto é bem real, especialmente o olhar de desalento dos familiares dos réus ou as conversas em tom jocoso entre os bacharéis após cada sentença proferida. Ao mesmo tempo, intercalam-se as audiências com imagens da instituição para onde são encaminhados muitos desses jovens, cujas precárias instalações pouco diferem das prisões convencionais, sobretudo pela maneira como são amontoados nas celas. Não admira muitos fugirem de lá depois. Mas, no fim, todo julgamento ou "juízo" dos absurdos e distorções aqui mostrados contra o menor (e permitidos pela severidade da anacrônica e desproporcional da lei brasileira) fica mesmo a critério do espectador.

quinta-feira, março 20, 2008

Um Homem para Todas as Interpretações



Sir Paul Scofield (1992-2008) como Sir Thomas More, em O Homem que Não Vendeu sua Alma (A Man for All Seasons, 1966), de Fred Zinnemann, filme com o qual este shakespeareano, contemporâneo de Richard Burton, ganhou o Oscar de Melhor Ator. "Give the Devil benefit of Law".

Ponto de Vista

(Vantage Point, EUA, 2008)



"May God bless America"


Alertado pelas centenas, quiçá milhares de críticas ruins de prestigiosos jornalistas culturais dessa nossa grande imprensa e por comentários parciais de blogueiros bem mais esclarecidos do que eu, juro que tentei não gostar deste filme de ação que, pelo trailer, se anunciava rotineiro, com cara de Super Cine e tal. Juro. Mas este sub-Bourne, com a correria típica de 24 Horas (uma missão a ser cumprida num espaço apertado de tempo) e traços de Rashomon em seu fiapo de enredo, apesar do mote da trama batidíssimo e do absurdo roteiro feito de encontros improváveis, em que pela enésima vez algum grupo terrorista radical teimoso e malvado tenta assassinar o presidente dos EUA (William Hurt), matando um monte de gente inocente no caminho, numa conferência global sobre terrorismo em Salamanca, Espanha, despertando como conseqüência a fúria dos valorosos e dedicados agentes americanos, é bastante movimentado e curto o suficiente para entreter uma preguiçosa tarde de sábado e evitar maiores aborrecimentos. O atentado, um tiro que atinge o presidente, seguido por uma violenta explosão, acontece logo no começo. Depois o filme, sem ser intricado, recua em sucessivos flashbacks para narrar os eventos anteriores que culminaram no momento fatídico, pelo ponto de vista de algumas figuras-chave, como um policial espanhol (Eduardo Noriega), um turista americano que filma tudo (Forest Whitaker), dois dos terroristas (a sensual israelense Ayelet Zurer, de Munique, e o bom ator francês Saïd Taghmaoui), um veterano agente do Serviço Secreto americano que acompanha a comitiva (Dennis Quaid) e o próprio presidente dos EUA. A cada recuo, uma reviravolta, uma nova traição, e o filme avança e finalmente engrena. Parece banal e é, já que a intenção aqui não é levar a dúvida, como em Rashomon, mas sim expor a cada momento desvelado uma peça do quebra-cabeça com absoluta certeza de encaixe até o movimentado final, mesmo tropeçando no roteiro. Mas a boa direção de Pete Travis, que nunca perde o fio da meada, e, principalmente, a ótima montagem a cargo do veterano Stuart Baird (de Superman – O Filme, A Profecia, US Marshalls – Os Federais) faz tudo caminhar direitinho, num pulsante e envolvente crescendo, sem a entropia da muito aclamada cinessérie Bourne, com seus zooms, caos visual, câmera ostensivamente tremida, fotografia modernosa de tons esmaecidos, etc., e os personagens são todos bem aproveitados dentro da estrutura da trama, à exceção de Sigourney Weaver, muito breve como a diretora de uma das emissoras que registra o atentado. Enfim, uma patriotada que dá para o gasto, dependendo do nobre gosto superior dos refinados e muito sabidos espectadores atuais.

quarta-feira, março 19, 2008

A Última Odisséia



Sir Arthur C. Clarke (1917-2008), escritor de ficção científica, autor, entre outros livros, do conto A Sentinela, que deu origem ao inesquecível filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, de Stanley Kubrick, do qual também foi co-roteirista.

Temos Vagas

(Vacancy, EUA, 2007)



Um casal em crise, cujos cônjuges já não se bicam e, pior, amargando a perda do filho pequeno (Luke Wilson e a sempre bela Kate Beckinsale), se perde numa estrada secundária. Para piorar, o carro deles quebra. Sem saber onde estão, são obrigados a passar a noite num quarto de um sinistro e deserto motel que encontram no caminho. No entanto, se agüentarem juntos por mais uma noite até a chegada do mecânico é o de menos, já que descobrem, por meio de fitas de vídeo deixadas lá, que o quarto onde se hospedam é todo vigiado por câmeras e usado como cenário de filmagem de snuff movies caseiros, tendo os pobres hóspedes como os protagonistas torturados até a morte pelo desagradável gerente (Frank Whaley) e seus amiguinhos dublês de cineastas de filme extremo.

Enxuto (menos de 90 minutos), com tensão construída aos poucos pelo diretor húngaro Nimród Antal, do bom e estiloso Kontroll (2003), que se passava inteiramente nos túneis do metrô de Budapeste, filme de visual cuidado, que, desde a abertura com seus elaborados créditos, evoca o perene trabalho do mestre Hitchcock, lembrando inclusive um episódio estendido da série Alfred Hitchcock Presents em sua trama concentrada, passada num único local, e elementos de Armadilha para Turistas (1979), principalmente nas máscaras usadas pelos agressores. Com alguns sustos, uma pena que quase tudo se dilua no final precipitado. E bem que poderia haver mais sangue, como num bom giallo, já que um argumento desses prometia. Ainda assim, os atores, a direção de Antal e a atmosfera tensa, com direito a uma fuga por túneis estreitos, elevam este thriller um pouco acima da mediocridade de tantas outras fitinhas atuais de terror e suspense. Nada de mais, mas diverte e deixa-se ver, sobretudo por causa de Kate.

segunda-feira, março 17, 2008

O Ultimato Wally

Cada Um com Seu Blogue

Caros Amigos, ou melhor, leitores da Bravo, freqüentadores deste espaço e companhia virtual em geral, direto das escarpadas montanhas da Garfagnana, na Toscana, ou melhor das antigas fazendas de Barão Geraldo, em Campinas, o professor Jorge Coli, da UNICAMP e do Mais! (ninguém é perfeito), orgulhosamente anuncia que finalmente aderiu ao mundo dos blogues. Nas palavras do próprio, se "tiverem tempo a perder", o endereço é este:
http://bravonline.abril.com.br/participe/blogs_listarpublicacoes.shtml?1316

Cada Um com Seu Cinema

(Chacun son Cinéma ou Ce Petit Coup au Coeur Quand la Lumière s'Éteint et que le Film Commence, França, 2007)



Cada com seu cinema ou cada um com seu futebol (no caso de Ken Loach), nesta coletânea de 33 curtas de três minutos cada, dirigidos por significativos cineastas consagrados, em homenagem aos 60 anos do pomposo Festival de Cannes e obviamente ao cinema em geral como arte, como lugar de exibição das grandes emoções, afetações, distúrbios psicossociais, lembranças e paixões afins, enfim, como celebração de uma trajetória pessoal. Cada curta com o estilo e, muitas vezes, com a cara de seu diretor, literalmente: o apocalipse de David Cronenberg (foto, um dos melhores); o humor bonachão do quase centenário Manoel de Oliveira, reinventando a História, com H maiúsculo; o niilismo nietzscheano de Lars Von Trier, aqui aplicando na prática a "filosofia do martelo" do bigodudo pensador alemão; o cinema e suas cortinas vermelhas como porta de entrada para o mundo de sonhos e, principalmente, de pesadelos de David Lynch; a comicidade dolorosa de Roman Polanski; o tipo excêntrico, rural e solitário de Takeshi Kitano; a nostalgia poética de Theo Angelopoulos, homenageando o 8 e 1/2 de Felllini; a nostalgia de butique de Claude Lelouch, homenageando os pais; o conhecido narcisismo de Youssef Chahine; o diário confessional e bem-humorado de Nanni Moretti, falando das idas ao cinema com os filhos; o cinema em tempos de guerra sem fim de Amos Gitai, tanto no passado como no presente, sobrepondo-se; o pai e filho de acento cockney à Ken Loach armando confusão na fila do cinema, decidindo-se entre o cinema e o jogo de futebol e irritando todo mundo, em outro bom segmento; os amores fetichistas feitos e desfeitos na sala escura, refúgio de solitários, de Wong Kar-Wai; o humor à Jacques Tati e crítico de Elia Suleiman; a sala de cinema como lugar de tolerância, de Billie August; o humanismo de Abbas Kiarostami, ao enquadrar somente o rosto e a reação de mulheres islâmicas comovidas diante da cena final de Romeu e Julieta, de Franco Zeffirelli, entre outros. Como era de se esperar, coletânea irregular, com alguns bons filmetes, outros nem tanto, como o de Walter Salles, que, apesar de engraçadinho e esforçado, é o mais "institucional" de todos, lembrando as propagandas e vinhetas do Governo Federal e seu apreço todo sentimental (e falso) a tipos populares, aqui representado pela simpática dupla de repentistas Caju e Castanha, e o de Jane Campion, com seu forçado simbolismo psicanalítico protofeminista, na estória de uma barata bailarina que é pisoteada num cinema. Ainda assim, um conjunto bastante agradável, em que se sobressai uma melancólica nostalgia em que o cinema, com suas grandes salas de milhares de poltronas, hoje decadentes ou fechadas, parecia ser de fato este tão nostálgico lugar de momentos inesquecíveis proporcionados por cineastas e atores míticos, como Bresson, Dreyer, Fellini, Mastroianni e Godard (escolhas óbvias até demais), algo, segundo quase todos os missivistas, aparentemente impossível de se vivenciar hoje em dia, sem se copiar, felizmente, o estilo lacrimoso, consagrado por Giuseppe Tornatore em Cinema Paradiso. Próximo projeto coletivo, já que os cinemas andam decadentes ou voltados demais para o consumo tipo multiplex: Cada Um com Seu YouTube!

sexta-feira, março 14, 2008

Sentença de Morte

(Death Sentence, EUA, 2007)



Do mesmo jovem diretor de Jogos Mortais (2004), mas felizmente sem os mesmos excessos e maneirismos visuais deste, um movimentado e eficiente vigilante movie, que atualiza a premissa básica da justiça com as próprias mãos de Desejo de Matar, baseando-se inclusive em livro do mesmo autor, Brian Garfield, acrescentado de nuances psicológicas e enriquecido por uma soturna atmosfera que remete instantaneamente ao clássico de Michael Winner. Aqui, é a vez de Kevin Bacon, como Nick, um bem-sucedido diretor de uma grande companhia de seguros e pai de família exemplar, ver seu filho mais velho e esportista promissor ser estupidamente assassinado durante assalto a um posto de gasolina por um delinqüente em processo de iniciação para ser aceito na gangue que comete o roubo. O assassino obviamente é solto. E obviamente Nick o mata, quase que instintivamente. Passa então a ser perseguido sem trégua pela gangue de tipos animalescos, numa escalada de violência e vingança mútua que destruirá o que restou de sua família e, sobretudo, de sua humanidade. Mas Nick, antes incapaz de segurar um revólver, não vai deixar barato, pois de tanto encarar o(s) monstro(s), torna-se ele um monstro também, só que cada vez mais armado e psicótico, mergulhado num pesadelo que não parece ter fim, em filme bem levado por James Wan, que conta com Kevin Bacon, excelente num papel bastante físico, e uma eletrizante perseguição, filmada quase sem cortes num edifício-garagem por uma câmera que desliza sem treme-treme pelas ruas e plataformas, como seus principais trunfos, além de participações de John Goodman, como o homem que arma Nick, e de Kelly Preston, que faz a esposa do todo certinho pai de família tornado justiceiro implacável. Enfim, assim como o recente Valente, de Neil Jordan, um filme matador.

quinta-feira, março 13, 2008

Dois Dias em Paris

(2 Days in Paris, França/Alemanha, 2007)



Enquanto flana mais uma vez por Paris, Julie Delpy dirige, escreve, edita, atua, compõe e ainda canta algumas das músicas da moderninha trilha sonora desta comédia romântica verborrágica, obviamente influenciada pelos trabalhos de Richard Linklater, sobretudo Antes do Pôr-do-Sol (2004), onde também co-escrevia e protagonizava. No entanto, aqui o tom é mais sarcástico, menos romântico na estorinha de jeitão indie de um casal descolado, a francesa Marion (Delpy) e seu hipocondríaco namoradinho americano Jack (Adam Goldberg, cria de Linklater, revelado no ótimo Jovens, Loucos e Rebeldes, 1993), com um relacionamento de dois anos já um tanto desgastado e que, após viagem à Itália, decidem passar dois dias em Paris antes de regressarem a Nova Iorque, onde moram. Filha de pais liberais e, especialmente seu pai, artista plástico erótico (Abert Delpy, pai de Julie), bastante lúbricos, mantém contato com os vários ex-namorados que encontra casualmente na rua, cumprimentando-os sempre com dois beijinhos, o que desperta os ciúmes quase doentios de Jack, um decorador hipocondríaco, barbudo, tatuado e obviamente malinha, apesar da aparência cool, obcecado por registrar todos os momentos da viagem com uma câmera fotográfica digital, embora a fotógrafa profissional seja ela.

Com alguns diálogos afiados na falação toda e outros bons momentos, como a visita ao túmulo de Jim Morrison sempre cheio de fãs extravagantes ou quando Jack, mesmo sem conhecer a cidade, explica a um grupo de estúpidos americanos fãs de Dan Brown como chegar ao Louvre, dando-lhes propositalmente as direções erradas, a bela Julie (aqui enfeiada e parecendo uma estudante universitária desleixada), apesar de francesa, cutuca sem dó os estereótipos de sua terra natal, como a comida esquisita dos “frogs”, as múltiplas neuroses dos parisienses, os taxistas racistas, os artistas jovens, culturetes e pretensiosos que povoam os distritos da Cidade Luz e, sobretudo, toda essa liberdade bem francesa para falar o tempo todo e descompromissadamente sobre sexo (e fazê-lo também quando der na telha, sem grilos ou quase), desviando a câmera dos pontos turísticos mais tradicionais e do clichê de Paris como cidade romântica, embora este curioso filme, agradável e divertido, não traga nenhuma surpresa em relação a tudo o que já foi visto no irregular filme-ônibus Paris, Te Amo (2006) e no supracitado trabalho de Linklater, terminando até de forma bem mais caretinha, ainda que o briguento casal deste filme se pareça mais com tipos reais que os dois jovens românticos idealizados do(s) filme(s) de Linklater. Ah, l´amour, toujours l’amour...

quarta-feira, março 12, 2008

Angel

(The Real Life of Angel Deverell, França/Reino Unido/Bélgica, 2006)



A conhecida colagem visual e de referências tradicionais de gêneros fílmicos de outrora, que François Ozon (re)utilizara com sucesso em filmes como Oito Mulheres e Swimming Pool, retorna aqui, depois do interlúdio mais assentado de O Tempo Que Resta. Neste seu primeiro filme inteiramente de língua inglesa, bebe direto na seiva do melodrama clássico à Douglas Sirk, ao narrar a trajetória, baseada em livro de Elizabeth Taylor (não a atriz, a escritora britânica), da Angel do título. Filha decidida de uma quitandeira humilde e dotada de imensa imaginação, torna-se escritora de sucesso de romances açucarados na Inglaterra do começo do século XX, vira dona de seu próprio castelo e conquista, ou melhor compra, o seu príncipe encantado, um artista esnobe, Esmé (Michael Fassbender), de origem aristocrática e que pinta seus nada coloridos quadros com traços modernistas em seu estilo ainda não muito bem aceito e compreendido pelos gostos vigentes da sociedade da época. A princípio adorável, com o tempo, Angel torna-se cada vez mais obsessiva em transpor as fantasias que imagina para o seu mundo, ignorando, de sua enorme mansão Paradise, os fatos concretos ao redor, algo nem sempre em sincronia com os desejos dos outros, especialmente com os de seu cada vez mais insatisfeito marido. Não raro também incorre a sua própria imaginação para reinventar-se como pessoa, criando peripécias mirabolantes que diz referir-se a acontecimentos ocorridos em sua vida.

Começando com um jeitão propositalmente antiquado, denunciado pelo uso ostensivo e artificial de back projection em alguns planos e pelas cores que remetem aos melodramas clássicos, revivendo-os, além da presença dos espelhos, marca registrada de várias obras de Douglas Sirk, como Sublime Obsessão e Palavras ao Vento, aos poucos, à medida que Angel vai se fechando em seu mundo de fantasia, que obviamente colide com a realidade, especialmente quando explode a Primeira Guerra Mundial e seu marido se alista e da qual volta mutilado, adquire tons mais sóbrios e soturnos, nada fantasiosos. E, como é típico na obra de Ozon, os relacionamentos, antes idealizados, vão se desgastando e se autoconsumindo com a convivência, sem possibilidade de redenção, além de expor nas entrelinhas certa tensão homoerótica no relacionamento entre Angel e sua secretária, irmã de Esmé, com fixação acentuada na escritora. Com ótimos coadjuvantes, como Charlotte Rampling, atriz fetiche de Ozon, e Sam Neill, arrasta-se um pouco à medida que se aproxima do final, que fecha o filme com uma clássíca tomada da fachada da mansão, vista numa panorâmica de baixo para cima, e nem sempre Romola Garai (de Feira das Vaidades e Desejo e Reparação, aqui morena) dá conta da complexidade de sua personagem-título, mas filme no todo elegante e bom de se ver, como os melhores filmes de época à inglesa.

segunda-feira, março 10, 2008

10.000 a.C.

(10.000 b.C., EUA, 2008)



"Ô meu, sai fora! Aqui não é a Era do Gelo não, mané!"

Embora se passe antes de Cristo, tá cheio de Cristo barbudo e com dreadlocks correndo atrás de mamutes peludões, neste filme de Roland Emmerich em que uma tribo de bons selvagens, sofrendo a escassez de alimentos, tem vários de seus membros seqüestrados e escravizados por maus selvagens. Ou melhor, pelos "civilizados" de unhas cumpridas e lápis nos olhos da nascente civilização egípcia, que, para erguer suas pirâmides faraônicas, capturam inclusive a órfã Evolet (Camilla Belle, de Quando Um Estranho Chama), menina de belos olhos azuis e consagrada pela feiticeira tribal como prenúncio de uma antiga profecia que vai livrar a tribo da atual situação de penúria, e que obviamente se cumprirá, já que o jovem e valoroso D'Leh (Steven Strait), filho de um caçador que abandonou a tribo e visto como um covarde por todos, parte para resgatá-la e assim provar que é capaz de segurar firme na grande lança branca de Tic-Tic (Cliff Curtis, de True Lies e Sunshine - Alerta Solar)!

Como bom alemão, Emmerich sempre curtiu um apocalipse e foi capaz de criá-lo até que bem, ao menos em algumas seqüências de filmes-catástrofe (ou catástrofe de filmes?) como Independence Day (1996) e O Dia Depois de Amanhã (2003). Aqui, no entanto, sem o mesmo grau de destruição, com vários elementos e referências já visualizados antes (e melhor) em Apocalipto (2006), efeitos especiais que fazem tudo parecer de mentirinha e um elenco sem nenhum carisma, em que até a gata da Camilla Belle está bem enfeiada, precisando urgente fazer uma escova nos cabelos, um espetáculo nada épico e pra lá de bocejante, prejudicado ainda mais pela monótona narração de Omar Sharif. No final das contas, há que se dar crédito mais uma vez ao ator, filológo,homofóbico, católico obscurantista, membro da Associação Nacional do Rifle (NRA), raivólotra assumido e cineasta bebum anti-semita Mad Mel Gibson: seu megalomaníaco Apocalipto, apesar de usar e abusar da câmera lenta e de referências chupadas de outros filmes, como Rambo e A Prova do Leão, é bem mais eletrizante. E nele o sangue jorra pra valer!

sexta-feira, março 07, 2008

Estamos Bem Mesmo Sem Você

(Anche Libero Va Bene, Itália, 2006)



Mesmo com alguns excessos, com um pé meio trêmulo fincado nos clássicos do neo-realismo da bota e outro, mais firme, no típico melodrama familiar à italiana, em que não faltarão lágrimas e ternura em seu comovente desfecho, o ator e estreante na direção Kim Rossi Stuart (A Chave de Casa, 2005) nos conduz com certa habilidade, através dos olhos tristes do menino Tommaso (Alessandro Morace, muito bem), ao dia-a-dia de uma família de classe média marcada pelo abandono rotineiro da mãe. Mesmo com a sentida ausência dela e mesmo alternando momentos de genuíno afeto com outros típicos de irritação e teimosia paternas, o pai (Stuart) consegue manter razoavelmente equilibrada a rotina familiar, enquanto trabalha como operador de steadycam em produções cinematográficas, tarefa que também exige equilíbrio, calma e habilidade. Ou seja, estão todos bem mesmo sem ela. No entanto, a mãe, um tipo emocionalmente desequilibrado, reaparece do nada, e o pai, um trouxa ainda apaixonado, a perdoa (mais uma vez). Mas Tommaso, que quer ser atacante de futebol do time da escola, sabe que isso não é para sempre, e o fantasma de um novo abandono acaba por se impor a todos e traduz-se em instabilidade à recém-reunida família, principalmente a seu irritadiço pai, sendo que o garoto é o que mais sofre neste processo cíclico de retorno/abandono e assim amadurece mais do que todo mundo, tendo a certeza de que os afetos que um dia pareciam estáveis, longos, terminam por solapar diante da onipresente ameaça da ausência, da perda. Se, no ninho da infância, acreditava na idéia de um lar como uma fortaleza contra as incertezas do mundo, seu olhar, com a passagem do tempo e mais maduro, traduz-se depois em angústia e resignação diante do despedaçamento familiar, ainda que não deixe de se agarrar ao que resta do teimoso afeto paterno e assim seguir em frente, só que agora como "líbero" (defensor), de acordo com a insistência paterna e com o título original do filme. Mas, para o conformado garoto, se for manter os cacos do que restou da família reunidos, "va bene" (está bom) assim mesmo.

quarta-feira, março 05, 2008

A Era da Inocência

(L'Age des Tenebres/Days of Darkness, Canadá/França, 2007)



Com algumas delirantes, outras nem tanto, fantasias envolvendo a bela Diane Kruger e o cantor Rufus Wainright, Jean-Marc (Marc Labréche) preenche seu cotidiano vazio de funcionário público franco-canadense de classe média desprezado pela mulher workhalic e pelas duas filhas que não largam de seus iPods e telefones celulares. Fantasias também um tanto vazias. A era das trevas do título original, oculta sob a estúpida tradução nacional, é a assunção da estúpida era das celebridades, da exposição contínua da vida privada e do conformismo e resignação da classe média e de sua limitada imaginação a ela, anuncia com toda a superioridade que lhe é característica o diretor Denys Arcand, dando um fecho aqui um tanto apressado e monocórdico ao falatório intelectualizado dos super-aclamados O Declínio do Império Americano (1986) e As Invasões Bárbaras (2003), pois Jean-Marc, no fundo, não passa de um pulha também, que não ajuda nenhum dos desvalidos que vêm lhe pedir auxílio na repartição pública onde trabalha e não há muito que fazer para ele ou para a sua vidinha a não ser continuar se refugiando neste seu universo paralelo. E assim o filme, ainda que com bons momentos, como a encenação de uma justa medieval em pleno século XXI, a mesma câmera fluida dos trabalhos anteriores de Arcand e o seu pungente final clamando uma silenciosa volta de Jean-Marc às origens, se mostra tão vazio quanto os sonhos de seu protagonista malinha, o que talvez não represente nenhum descompasso em relação às intenções do diretor. O vazio, o vazio, e os cacos ou as maçãs depois... ah, esses canadenses. Têm de tudo, se dão ao luxo de brincar de Ivanhoé vez ou outra e vivem reclamando. Humpf!

terça-feira, março 04, 2008

Jogos de Poder

(Charlie Wilson´s War, EUA, 2007)



Nos anos 80, um congressista americano do baixo clero, Charlie Wilson (Tom Hanks), beberrão e mulherengo, que gosta de se ver cercado por mulheres bonitas e inteligentes em seu gabinete, e uma rica socialite do Texas, Joanne Herring (Julia Roberts), típica representante da direita cristã americana, amante ocasional de Charlie nas festinhas beneficentes que promove em Houston. Juntos conseguem, com a ajuda de um estourado agente da CIA posto na geladeira (Philip Seymour Hoffman), aumentar de US$ 5 milhões para US$ 1 bilhão de dólares anuais a ajuda em armamentos e munição para os combatentes mujahidin contra as forças invasoras soviéticas durante a guerra então travada no esquecido Afeganistão, além de costurarem sigilosamente uma habilidosa e improvável aliança entre países rivais como Israel, Arábia Saudita, Egito e Paquistão no apoio à causa afegã. Uma guerra então pouco comentada, mas que deu trabalho aos soviéticos e cujo desgaste da derrota e da retirada ajudou a acelerar a derrocada do comunismo soviético pelo mundo. Finda a guerra, finda a ajuda. O país mergulha no caos, com os desdobramentos que se conhecem hoje em dia, sob a sombra sinistra do pós-11 de setembro. Por isso, a cena final diante da bandeira americana, que abre e fecha o filme, tem um gosto de amarga ironia, além do que o seu patético triunfalismo patriótico possa sugerir à primeira vista para alguns desavisados.

Ainda que não no mesmo nível dos de um David Mamet (Mera Coincidência), diálogos afiados, excelentes atores e, sobretudo, direção precisa do veterano Mike Nichols (A Primeira Noite de Um Homem, Ânsia de Amar, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, Ardil 22, Closer), que sabe como ninguém orquestrar o timing cômico de seus simpáticos intérpretes, sem afetação, tornando o assunto explosivo e a árida prática política que o acompanha num ritual de gestos, conversas cotidianas quase banais, mas sempre divertidas, agrados aqui e ali em certas autoridades. Política feita nos bastidores, num ofurô em Vegas, na cama ou na banheira dos amantes, numa boate no Oriente Médio, nos gabinetes de Washington, enxugando-se copos de uísque. Gestos que se entrelaçam e acabam por determinarem decisões, que, se certas ou erradas, só o tempo dirá. Enfim, filme sarcástico do início ao fim e que consegue tornar seus tipos um tanto intransigentes ou paranóicos (como o personagem de Hoffman) em seres bastante simpáticos e divertidos. Ao menos, mais simpáticos que nossos mensaleiros, legisladores de causa própria ou parlamentares neopuristas mancos da Língua Portuguesa, né, Aldo?

segunda-feira, março 03, 2008

Rambo IV

(Rambo, EUA, 2008)



Em algum lugar remoto nas selvas da Tailândia, estava quieto em seu lugar o bom e velho veterano do Vietnã, John Rambo (Sylvester Stallone), quando alguém vem mais uma vez perturbar a paz que desfrutava junto a suas cobras e serpentes. Desta vez, um grupo de teimosos missionários americanos que, munido apenas de boas intenções humanitárias, Jesus no coração e nenhum armamento, pede-lhe que os conduza rio acima com o seu barco para uma aldeia na vizinha Myanmar, país em guerra civil, governado por uma longeva e brutal ditadura militar. Rambo, após certa relutância, cumpre o que promete, apesar de alguns violentos percalços. E lá os missionários, como era de se esperar, são capturados pelos militares locais liderados por um malvadão, bigodudo e caricato oficial pedófilo, não sem antes massacrarem com requintes de crueldade a vila inteira, não poupando mulheres, crianças e até bebês, nas mais gráficas cenas há muito não mostradas no cinema. Pelo menos, num cinema mais convencional, desses de shopping. Sem perder tempo, Rambo é novamente contatado para retornar ao local, agora conduzindo um grupo de mercenários nervosinhos com a missão de resgatar os missionários seqüestrados, que estão sendo dados de alimentos aos porcos. E aí a conhecida máquina de guerra desperta em John Rambo e ele lança toda a sua fúria contra os militares genocidas, rasgando gargantas com as próprias mãos, aniquilando-os com o seu arco-e-flecha ou, melhor ainda, fatiando-os como ninguém com uma poderosa metralhadora giratória, em icônicas imagens que retomam os filmes anteriores. O sangue, os pedaços de corpos arrancados, os membros decepados tornam o filme um espetáculo literalmente visceral, como poucas vezes se vê por aí.

Rápido, enxuto, sem firulas e bem conduzido pelo próprio Stallone, especialmente nas cenas de ação, que, abrindo mão da sutileza nos diálogos ruins e agora sem politicagem ou jingoísmo, dando ênfase ao individualismo resignado do herói, não economiza na violência, na forma crua e direta de mostrá-la, num espetáculo de força bruta e gore que tem mais em comum na carga de violência explícita com os seus sangrentos imitadores ou antecessores italianos que com os outros filmes da série e que será marcante e nostálgico para muitos ou detestável ou aborrecido para outros tantos. Mas, dando as costas para a platéia, Stallone/Rambo conclui de forma até catártica e bem satisfatória a saga de seu sofrido veterano e assim despede-se de todos, como na cena final, que retoma o percurso inverso ao do primeiro filme, de 82, ao som do marcante tema musical de Jerry Goldsmith.

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Antes de Partir

(The Bucket List, EUA, 2007)



Um velho sábio, outro nem tanto. Um acumulou fortuna e inimizades (o diabólico Jack Nicholson). O outro (o sempre sábio Morgan Freeman) acumulou sonhos que foi sendo obrigado a deixar para trás ao longo da vida, para cuidar da família e dos filhos. Em comum, ambos sofrem de câncer terminal e, por isso, dividem o mesmo quarto no hospital de política igualitária do filantrópico e solitário milionário. Apesar das diferenças, viram amigos e, juntos, decidem realizar seus últimos sonhos em comum, às expensas do milionário, obviamente, antes de baterem as botas. O que inclui, na lista que elaboram, rir até chorar, conhecer as pirâmides do Egito, o Taj Mahal e as muralhas da China, pilotar carros vintage em alta velocidade numa pista de corrida, pular de pára-quedas, fazer um safári na África, essas coisas. Um safári onde não se atire nos bichinhos, está claro. Afinal, os tempos mudaram e Jack Nicholson sempre foi um liberal, apesar da aparência demoníaca. E, com tanto a fazer em tão pouco tempo, Morgan Freeman ainda prefere ficar no quarto de hotel em Hong Kong vendo Jeopardy na TV ou até voltar logo para a família, vejam só.

Mesmo com um tom predominante mais melancólico, obviamente por causa do tema, filme que diverte, instrui e deixa-se ver graças ao formidável carisma da dupla, apesar da direção pouco criativa de Rob Reiner (de clássicos como A Princesa Prometida, This is Spinal Tap, Harry e Sally), de algumas costumeiras piadas sobre a velhice e da sempre solene e sábia narração de Morgan Freeman pontuando o filme. E a imagem final, no Everest, é até bastante bonita e vale o percurso.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Na Natureza Selvagem

(Into the Wild, EUA, 2007)



Mais maduro como cineasta e retomando, em imagens deslumbrantes e poéticas, temas que lhe são bastante caros, como o sujeito rebelde, desgarrado da família e do mundo, visto em seu filme de estréia como diretor, Unidos pelo Sangue (1991), ou pais tendo que lidar com a dolorosa perda do filho, como em Acerto Final (1995) e A Promessa (2001), Sean Penn, com a ajuda de um ótimo elenco e baseando-se em livro-reportagem de Jon Krakauer (autor de Sobre Montanhas e Homens e do horripilante No Ar Rarefeito), dirige com muita segurança um relato emocionado de Christopher McCandles (Emile Hirsh), jovem americano de família rica, recém-graduado com notas altas na universidade, que larga tudo e, sem identidade, dinheiro ou motivo aparente, adota o nome de Alex Supertramp e parte com seu carro velho rumo ao Alasca. Seus complicados pais (William Hurt e Marcia Gay-Hardem) nunca mais terão notícias dele vivo, assim como a sua irmã mais nova (Jena Malone), cuja perplexa narração pontua o filme. Essa sua jornada espiritual combina o idealismo do Walden de Thoreau com o espírito humanista de autores aventureiros, como Jack London, ou intimistas, como Tolstói. Em sucessivos flashbacks, Alex, por onde passa, deixa impressões profundas nas pessoas que conhece, como um casal de hippies que já não é mais o mesmo e um senhor viúvo e solitário (Hal Holbrook, excelente), em belo momento do filme, até o seu isolamento no inóspito Alasca, onde, como um personagem de algum filme de Werner Herzog, é vencido pela natureza que tanto idealizava e lá definha. Um olhar épico sobre paisagens bastante conhecidas da vastidão da América profunda, sobre o eterno desejo de desbravá-las e de se perder nelas, mas também intimista, de um jovem obstinado, generoso, de ideais inconformistas que lhe escapam no confronto sempre desproporcional com a natureza ou com outros indivíduos. O que havia de idealismo libertário na América, representado pela jornada tardia do enigmático Alex ou Christopher, reafirma Penn no final com certa melancolia, parece ter ficado naquele ônibus "mágico", perdido em algum lugar no meio do Alasca.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Senhores do Crime

(Eastern Promises, Reino Unido/Canadá/EUA, 2007)



Em vez de falarmos da vida alheia ou sobre Vestida para Casar, mais um tolo representante de um dos mais perversos gêneros cinematográficos em voga atualmente, a comedinha romântica fofa (afinal, embora não comentem, nada mais assustador para muitos homens que uma mulher vestida de noiva, especialmente se um desses homens for o noivo...), retomemos as perversões corpóreas cada vez mais concretas de David Cronenberg (Marcas da Violência, 2005), neste seu formidável Eastern Promises. Apesar de diluídas num formato mais convencional, na aparência um drama policial dos mais eficientes e enxutos sobre mafiosos russos em Londres, envolvendo contrabando de drogas, mercadorias e, principalmente, tráfico de adolescentes do Leste Europeu, suas obsessões com o corpo permanecem desde a primeira e perturbadora cena, em que uma garganta é lacerada profundamente por uma navalha. Afinal, a superfície epidérmica rasgada, que dá vazão ao jorro sanguinolento sem meios tons é o que importa desde sempre no mundo distópico de Cronenberg, em que tipos aparentemente ameaçadores, como o motorista Nikolai (Viggo Mortensen), tatuam seu histórico de violência sobre a própria pele. E mais: a pele marcada, o corpo jogado num rio, o DNA de um recém-nascido, todos “contam” histórias, assim como a jovem imigrante que entra sangrando numa farmácia, às vésperas do Natal. Um rasgo na garganta por onde se morre, uma abertura por onde se nasce. Entre a morte e a vida, muito sangue. A adolescente agonizante, de apenas 14 anos, está grávida e morre ao dar a luz no hospital onde trabalha a parteira Anna (Naomi Watts). O bebê sobrevive por pouco, e a jovem, sem qualquer identidade, deixa um diário em russo. Anna, querendo localizar um nome ou pista que a leve a algum parente da garota, a quem possa entregar a desamparada criança, mesmo filha de russos, é incapaz de decifrar a escrita em cirílico da menina. No entanto, dentro do diário encontra um cartão que a leva ao restaurante russo de Semyon (Armin Mueller-Stahl), um velho simpático que se dispõe a traduzir o conteúdo o diário, mesmo alertada pelo tio, um ex-funcionário da KGB (o veterano diretor polonês Jerzy Skolimowski) sobre os perigos de se mexer nas coisas de um morto. Semyon é simpático só na aparência, pois trata-se de um chefão local da Vory v Zakone ("ladrões dentro da lei"), a sinistra máfia russa. Com sua fala suave, modula ameaças veladas, enquanto prepara um típico borscht. Entre eles, seu violento filho Kirill (Vincent Cassel) e o motorista da família e responsável por limpar todo o trabalho sujo do bando, Nikolai, um tipo bastante reservado, embora ambíguo, e eficiente naquilo que faz e, por isso, prestes a ascender dentro da hierarquia rígida da organização. Ou seja, Anna mete-se, sem se dar conta a princípio, numa enrascada barra-pesada, pondo em risco a sua vida, a de sua família e a do bebê.

Para falar do Mal que se infiltra entre os homens, Cronenberg não vê mais a necessidade de recorrer monstros gosmentos, patologias sexuais, mutantes ou indivíduos deformados, como em A Mosca, Gêmeos, Mórbida Semelhança ou Mistérios e Paixões. Ele não mudou, porém. O mundo é que ficou mais cruel, mais ameaçador em sua indiferente opacidade, tal qual a dos olhos inquietantes de Semyon ou das sombrias ruas de uma Londres bem distante de seus badalados pontos turísticos, um lugar onde nunca faz sol, nas palavras melancólicas de Semyon. E, afirma Cronenberg por meio de límpidas imagens, sobreviver a este mundo sufocante de ocultas ameaças é que se torna o grande desafio tanto para o frágil bebê, que vem ao mundo coberto apenas de placenta, mal conseguindo respirar, quanto para o forte Nikolai, que certa feita terá que se defender deste mesmo mundo e de seus seres insanamente violentos, de suas agressões, completamente nu e desamparado, como na já emblemática e bastante comentada cena da luta na sauna, um embate puramente físico contra dois sangüinários agressores chechenos, ponto alto deste belo filme, que, apesar do final esperançoso, é bastante incômodo, amargo e defendido com garra visceral pelo ótimo elenco.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Não é fraco, não, friendo!



Onde os Fracos Não Têm Vez: Oscar de filme, diretor(es), ator coadjuvante (Javier Bardem) e roteiro (brilhantemente) adaptado. Mais do que merecidas foram também as premiações para Daniel "I´ve abandoned my child" Day-Lewis (Sangue Negro), para a bela Marion Cotillard (Piaf) e Tilda Swinton, surpreendendo como coadjuvante em Conduta de Risco. Mais do que esperada a premiação de melhor roteiro original para Juno. E a única também, thank God (ou Diablo!). Outros prêmios justos: melhor filme de animação para Ratatouille, fotografia para Sangue Negro, trilha sonora para Desejo e Reparação, direção de arte para Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, figurino para Elizabeth: A Era de Ouro e canção para Once, que no momento dos agradecimentos, feito em duas partes, teve um discurso emocionado de seus dois intérpretes, compositores e protagonistas. Já O Ultimato Bourne consagrou-se nos prêmios técnicos (Edição de Som, Mixagem e Edição). Pena que Transformers, o melhor blockbuster de 2007, não tenha levado a estatueta de efeitos visuais, que ficou para o sem-graça A Bússola de Ouro. E resta aguardar para saber se The Counterfeiters, o ganhador da estatueta de melhor filme estrangeiro da Áustria, terra de grandes diretores do passado como Billy Wilder, Fred Zinnemann, Fritz Lang e Otto Preminger, é tão bom assim para ter desbancado os filmes de Wajda e Nikita Mikhalkov. De resto, uma cerimônia correta, quase sem surpresas e autocongratulatória do início ao fim, com algumas boas, outras nem tanto alfinetadas a cargo de seu politizado apresentador Jon Stewart, que contou ainda com a nobre presença na platéia de Cormac McCarthy, autor de No Country For Old Men, e que demonstrou que há ainda muito lugar para os velhinhos. Aos menos no cinema. Que o diga Robert Boyle, diretor de arte e designer de produção de vários filmes de Hitchcock e homenageado da noite aos 98 anos. E palmas para Lewis, Bardem, McCarthy, para o corajoso final enigmático e sem concessões do livro e do filme e, principalmente, para os irmãos Coen, que três vezes subiram no palco do Kodak Theatre nesta madrugada.