terça-feira, março 04, 2008

Jogos de Poder

(Charlie Wilson´s War, EUA, 2007)



Nos anos 80, um congressista americano do baixo clero, Charlie Wilson (Tom Hanks), beberrão e mulherengo, que gosta de se ver cercado por mulheres bonitas e inteligentes em seu gabinete, e uma rica socialite do Texas, Joanne Herring (Julia Roberts), típica representante da direita cristã americana, amante ocasional de Charlie nas festinhas beneficentes que promove em Houston. Juntos conseguem, com a ajuda de um estourado agente da CIA posto na geladeira (Philip Seymour Hoffman), aumentar de US$ 5 milhões para US$ 1 bilhão de dólares anuais a ajuda em armamentos e munição para os combatentes mujahidin contra as forças invasoras soviéticas durante a guerra então travada no esquecido Afeganistão, além de costurarem sigilosamente uma habilidosa e improvável aliança entre países rivais como Israel, Arábia Saudita, Egito e Paquistão no apoio à causa afegã. Uma guerra então pouco comentada, mas que deu trabalho aos soviéticos e cujo desgaste da derrota e da retirada ajudou a acelerar a derrocada do comunismo soviético pelo mundo. Finda a guerra, finda a ajuda. O país mergulha no caos, com os desdobramentos que se conhecem hoje em dia, sob a sombra sinistra do pós-11 de setembro. Por isso, a cena final diante da bandeira americana, que abre e fecha o filme, tem um gosto de amarga ironia, além do que o seu patético triunfalismo patriótico possa sugerir à primeira vista para alguns desavisados.

Ainda que não no mesmo nível dos de um David Mamet (Mera Coincidência), diálogos afiados, excelentes atores e, sobretudo, direção precisa do veterano Mike Nichols (A Primeira Noite de Um Homem, Ânsia de Amar, Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, Ardil 22, Closer), que sabe como ninguém orquestrar o timing cômico de seus simpáticos intérpretes, sem afetação, tornando o assunto explosivo e a árida prática política que o acompanha num ritual de gestos, conversas cotidianas quase banais, mas sempre divertidas, agrados aqui e ali em certas autoridades. Política feita nos bastidores, num ofurô em Vegas, na cama ou na banheira dos amantes, numa boate no Oriente Médio, nos gabinetes de Washington, enxugando-se copos de uísque. Gestos que se entrelaçam e acabam por determinarem decisões, que, se certas ou erradas, só o tempo dirá. Enfim, filme sarcástico do início ao fim e que consegue tornar seus tipos um tanto intransigentes ou paranóicos (como o personagem de Hoffman) em seres bastante simpáticos e divertidos. Ao menos, mais simpáticos que nossos mensaleiros, legisladores de causa própria ou parlamentares neopuristas mancos da Língua Portuguesa, né, Aldo?

6 comentários:

Merr disse...

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Daniel The Walrus disse...

Eu gostei, mas não é um dos filmes de humor negro mais sofisticados de um mestre do estilo como é o Nichols

E o filme todo pertence ao Philip Seymour Hoffman. Se Bardem não tivesse nascido, com certeza ele ganharia o Oscar. :)

Daniel The Walrus disse...

Ah, e posso estar enganado e vc parece mais antenado politicamente que eu, David, mas o Donald Rumsfeld não devia aparecer na história desse filme não?

Lorde David disse...

Não é mesmo, Daniel, comparando-se com Ardil 22 ou Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, mas, para a vulgaridade de nossos tempos, está mais do que bom. E acho que Hanks também está muito bem. Quanto a Rumsfeld, não sei do grau de envolvimento dele com Wilson, embora o falcão fosse de fato, durante o governo Reagan, ligado a assuntos estratégicos do Oriente Médio.

André Renato disse...

Muito boa crítica! Concordo em tudo!

Lorde David disse...

Faz bem, André. Hehehe. Um abraço.