sexta-feira, dezembro 21, 2007

Bee Movie – A História de Uma Abelha

(Bee Movie, EUA, 2007)



Se por trás de sua arrojada animação computadorizada Formiguinhaz (1998) era sobretudo um autêntico filme do Woody Allen levado ao universo das formiguinhas trabalhadoras, Bee Movie, de estrutura semelhante, é o longa-metragem em 3-D em que, desta vez, o grande comediante Jerry Seinfeld (também produtor e co-roteirista) leva para dentro de uma colméia todas as suas neuroses tipicamente nova-iorquinas. Nela, Seinfeld, como Barry B. Benson, é um zangão recém-graduado que descobre que passará o resto da vida no emprego que escolher dentro da colônia, voltada, claro, para a produção de mel em larga quantidade, trabalho altamente especializado e com uma enorme divisão de trabalho. Saindo para um passeio fora da colméia e em busca de novos ares, encanta-se com a florista Vanessa (Renée Zellwegger) e fica amigo dela, que não estranha nem um pouco o fato de seu novo colega ser um tanto “abelhudo”. E ainda por cima falar demais e querer comprar briga com as grandes corporações que roubam o mel das abelhas, levando o caso para os tribunais. Mas como é Seinfeld o cara por trás dessa boa causa, como já sabemos de vários episódios da clássica série, nem sempre o seu empenho em agir com boas intenções resultará em algo de bom, tanto para as abelhas quanto para os humanos. Trama para adultos e crianças, que se desenrola com muita leveza, a animação é ágil, os tipos secundários cativantes, o visual agrada e, sobretudo, as boas tiradas típicas do Seinfeld do sitcom garantem o resto desta “doce” diversão descompromissada da DreamWorks, que inclui ainda engraçadas “ferroadas” para cima de Sting, Ray Liotta e Larry King, além de justas citações paródicas a filmes como A Primeira Noite de um Homem e Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu! Acima de tudo, bom para matar as saudades de Jerry.

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Império dos Sonhos

(INLAND EMPIRE, França/Polônia/EUA, 2006)



“Estranho o que o amor faz”, entoa em certo momento o refrão da assombrosa música-tema composta e cantada pelo próprio David Lynch sobre os “fantasmas do amor”. Esse amor proibido que faz mal à atriz Nikki Gracie (Laura Dern), mulher casada com um homem poderoso e controlador e, que após se envolver num affair perigoso com o galã mulherengo Devon (Justin Theroux), com quem contracena na nova produção do cineasta Kingsley (Jeremy Irons), é arrastada para uma apavorante, inexplicável e labiríntica jornada em que, além do papel em que atua, assumirá múltiplas personalidades, tema recorrente na obra de Lynch, e caminhará em percursos descontínuos por cômodos escuros habitados por prostitutas que, certa feita, dançarão alegres ao som de “Locomotion”, becos sombrios com poloneses oriundos dos anos 40, ruas cobertas de neve e com tristes prostitutas polacas, escadarias, corredores de hotel, terá seu rosto espancado, esbofeteado e literalmente deformado, ao longo das três fascinantes horas de duração deste INLAND EMPIRE. Porém, antes de o filme de Nikki entrar em produção, uma cigana (Grace Zabriskie, assustadora) a visita e a alerta sobre um assassinato que ocorreria fora da trama do filme e, no tom bastante sinistro que seu discurso de forte sotaque eslavo vai assumindo, com o seu rosto fora de proporção, deformado pela lente grande angular, fala sobre como o mal se impregnou no mundo e sugere que Nikki traria em si a sua variação, como a menina que se perdeu no mercado e passou a enxergar o “amanhã”, sem saber distingui-lo do “ontem” e do “hoje”, tornando-se além de atriz, espectadora daquilo que virá para si. O filme em que atuará e se perderá em seus cenários, em diferentes pulos no tempo, na verdade, é uma refilmagem de um antigo filme situado no Leste Europeu, outrora baseado num conto cigano e que nunca fora concluído, pois os dois atores principais teriam sido assassinados durante a produção. Assim, paira sobre esse projeto abortado a fama de amaldiçoado, inclusive pelo seu nome original, em alemão “Vier-Sieben”, ou “47”, número considerado maldito, informação mantida oculta pelos produtores do remake. Essa lenda urbana de filme maldito, nunca completado, lança a todos os envolvidos no projeto uma espécie de aura maligna, acentuada pelas luzes do set que mal iluminam o que deve ser iluminado. Ao contrário, em seus desajustes, expõem todos à escuridão. A própria claridade da cena romântica no gazebo no jardim cenográfico tem que ser desfeita ou deixada para trás logo em seguida para que se apronte outro set no interior do escuro estúdio. Aos poucos, ambos os filmes, o do passado e o do presente, se misturam, assim como a vida da atriz principal ou “real” se funde com a da ficção e com a(s) de outra(s) mulher(es) que encontra em seu tortuoso percurso. Ora Nikki se torna uma mulher pobre, suburbana, ora uma mulher agressiva, abandonada pelo marido, amargando um filho morto, que conta para um lacônico terapeuta (ou um detetive ou um policial), em sessões num sujo escritório, todos os abusos sofridos por homens, até uma hora em que se perde enlouquecida na constelação das estrelas impressas na calçada da fama de Hollywood, largada ferida na sarjeta onde vomita sangue sob o olhar indiferente de mendigos que lá habitam. De atriz vira prostituta com outras prostitutas. Ou volta a ser atriz. À espreita, seu marido e um “Fantasma” a observam, a perseguem, a assustam, a atormentam, enquanto tudo parece ser assistido na televisão de um quarto de hotel por uma mulher, ou “Lost Girl” (Karolina Gruszka), que chora copiosamente. Ao mesmo tempo, em várias cenas que pontuam o filme, os Rabbits do sitcom da Internet criado por David Lynch, na verdade uma família de humanos com cabeça de coelhos, quase nada fazem a não ser aguardar numa sala de estar, proferindo frases banais, mas que provocam gargalhadas típicas de claques de seriados cômicos de TV, tornando o filme uma espécie de simulacro do espetáculo televisivo. Ainda assim, por mais passivos que sejam esses rabbits, também "vazam" para outros ambientes ou se fundem a outros personagens.

Sem dúvida, o mais desconcertante (ou para muitos de seus detratores, o “mais desconjuntado”) trabalho de Lynch, que aqui abdica radicalmente da clareza narrativa (mas não da narrativa em si, está claro, pois lança várias pistas e sinais que remetem uns aos outros ao longo do filme, que são sempre retomados ou intensificados num coeso jogo de associações visuais) e de seus fáceis jogos de identificação para apagar de vez as fronteiras entre o sonho, o devaneio, o espetáculo cinematográfico, o televisivo e o que se chama de realidade, na verdade um todo imposto pela representação cinematográfica fabricada e manipulada pela mão artística do diretor, ao mesmo tempo atraído por Hollywood e anti-hollywooodiano por excelência. Representação erguida aqui de forma mais bruta, desorientadora, pelas imagens muitas vezes mal-cuidadas, nem sempre muito nítidas, pois captadas por pequenas e flexíveis câmeras digitais de menor definição que as câmeras HD. Ainda assim, imagens essas bastante perturbadoras e hipnóticas em sua natureza mais áspera, intensificadas pelo clima de pesadelo empregado pelo diretor, obcecado que é com os sonhos, e onipresente em cada quarto percorrido. Só Lynch, com toda a sua radicalidade estética que lhe é notória, consegue impor um clima ameaçador a um simples abajur que oscila num quarto escuro, elevando o volume das caixas acústicas a patamares inquietantes. Aliás, o trabalho sonoro aqui, como sói acontecer na obra de Lynch, é dos mais envolventes e sensoriais. Ajuda a tornar o medo sentido a cada passo dado pela esplêndida Laura Dern pelas portas que adentra muito real, epidérmico, de provocar genuínos calafrios, como há muito não os sentia, especialmente na cena que se abre com a fusão de uma pintura de um palhaço com a imagem de Dern correndo na escuridão em direção à câmera ou em toda a seqüência do confronto com o “Fantasma”, cujo rosto se transfigura no rosto deformado dela para depois derreter grotescamente. É Lynch transmutando o tempo todo as peças do seu quebra-cabeça móvel, que se abrem para outros encaixes e (muitas vezes inúteis) possibilidades interpretativas, além de incorporar nesse percurso fragmentos de outros trabalhos, como Mulholand Drive, A Estrada Perdida, Darkened Room, o já citado Rabbits, Os Últimos Dias de Laura Palmer e, sobretudo, evocar o clima bem mais experimental de Eraserhead.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Armênia

(Le Voyage en Arménie, França, 2006)



O diretor marselhês Robert Guédiguian (dos ótimos Marie-Jo e Seus Dois Amores, 2002, e O Último Miterrand, 2005), de origem armênia, como atesta o sobrenome (terminado em “-an”, como Atom Egoyan e Chahnour Varinag Aznavourian, o popular Charles Aznavour), volta à terra de seus antepassados neste um tanto longo, mas interessante road movie, que narra a jornada da médica francesa Anna (Ariane Ascaride, mulher e habitual colaboradora do diretor) à Armênia em busca do pai (Marcel Bluwal), que desaparece de Marselha e teria partido para viver seus últimos dias na pátria natal, após ser diagnosticado com uma grave doença cardíaca. No país, ex-república soviética de língua e alfabeto muito particulares e a mais antiga nação cristã do mundo, com um histórico de opressão, massacres e diáspora de seu povo muito semelhantes aos infortúnios sofridos pelos judeus, aos poucos Anna vai descobrindo que não importa tanto onde está seu pai e sim onde se ocultam as suas próprias origens. No começo, tal qual uma teimosa francesa, resiste, como demonstra a cena em que, depois de ter ido à manicure, arranca as unhas postiças colocadas para se fazer parecer mais “armênia”. Porém vai-se redescobrindo, à medida que toma contato com a milenar história, sociedade, música e cultura armênias, em imagens de cartão postal e diálogos muitas vezes tirados de guias turísticos, a cargo principalmente de um general bandidão e trambiqueiro, porém charmoso (Gérard Meylan, outro fiel parceiro de Guédiguian) que a guia pelo país e, certa feita, a livra de uma encrenca daquelas com contrabandistas, traço comum em muitos dos países do Leste Europeu, que, após a derrocada do comunismo, encontraram-se dominados por máfias violentas, que comandam a prostituição e o tráfico de todo tipo de mercadoria e se escondem em inúmeros negócios de fachada na capital Yerevan. Apesar dos tipos esquemáticos, do tom panfletário à Ken Loach e das situações muitas vezes pueris, sobretudo quando o filme envereda por uma desajeitada e muito forçada subtrama policial envolvendo uma jovem cabeleireira, a chance de vislumbrar pelas telas do cinema mais uma região remota, a “terra das pedras”, cuja história remonta aos tempos bíblicos, desde Noé e o Monte Ararat, símbolo do país (embora hoje pertença aos rivais turcos) e cuja imagem emblemática, primeiro num fundo de palco pintado, depois na representação cinematográfica da montanha autêntica, abre, acompanha a protagonista em seu périplo, pontuando várias cenas importantes, e, enfim, encerra o filme. Nas imagens do Monte, Guédiguian, fazendo uso de suas costumeiras tonalidades ensolaradas, parece dizer que “o Monte está logo ali, mas não está. Não pertence a nós, embora faça parte de nós, armênios, sempre, na Armênia ou fora dela”.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Novo Mundo

(Nuovomondo, Itália/Alemanha/França, 2006)



Flertando vez ou outra com o realismo fantástico, o diretor Emmanuele Crialese (do “rústico” Respiro, 2002) recria, em três partes bem definidas – a vida nada idílica na Sicília, a viagem de navio e o processo de entrada nos EUA – e com certo rigor e tomadas sintéticas, a saga da imigração italiana para a América pelos olhos do viúvo Salvatore Mancuso (Vincenzo Amato), seus dois filhos (Francesco Casisa e Filippo Pucillo), um deles surdo-mudo, e sua mãe “curandeira” (Aurora Quattrocchi), que, no início do século XX, embarcam da paupérrima e rural Sicília para a riquíssima Nova Iorque na terceira classe de um navio abarrotado de gente com as mesmas esperanças: a de um dia fazer a vida na América. No caminho, em meio ao mar revolto, o aperto e a insalubridade das acomodações, encontram uma misteriosa inglesa (Charlotte Gainsbourg) que precisa arrumar um marido a fim de poder ser admitida no Novo Mundo. Mancuso se prontifica a se casar por conveniência com ela, mesmo correndo o risco de ser passado para trás após o desembarque.

Filme econômico, quase documental em seu registro naturalista, como na seqüência em que se recria com detalhes todo o difícil processo de admissão e entrada nos EUA, com exames e todo tipo de testes, às vezes humilhantes, aplicados na triagem aos recém-chegados, quebrado vez ou outra por momentos um tanto deslocados de visões oníricas, mas no todo com belas imagens, como a visão que o simplório, mas muito expressivo Mancuso tem de Nova Iorque através das janelas embaçadas do porto da Ilha de Ellis. Nova Iorque, aliás, nunca é mostrada como conhecemos, a não ser do interior do porto de imigração, o que garante algum frescor sem deslumbramento a mais este olhar sobre o corriqueiro tema da imigração dos italianos (e de outros povos) ao Novo Mundo, além da presença sempre enigmática e fascinante de Gainsbourg.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Conduta de Risco

(Michael Clayton, EUA, 2007)



Mais uma vez estamos de volta à paranóia dos anos 70 com este suspense-denúncia de ritmo cadenciado e ausência quase completa de trilha sonora, em que o discreto Michael Clayton (George Clooney), ex-promotor público, é agora o responsável privado de uma grande firma de advocacia de Nova Iorque por limpar as sujeiras dos importantes clientes que representa, antes que elas atinjam as pás do ventilador da mídia, ainda que ele, endividado, com um negócio falido, filho pequeno e divorciado, não consiga dar conta da própria bagunça que é a sua vida pessoal. Nem sequer fala com o irmão alcóolatra e ex-gerente de seu negócio. Para piorar, o seu amigo Arthur Edens (Tom Wilkinson, em notável atuação), brilhante, embora maníaco-depressivo (o mais correto seria dizer que sofre de “transtorno bipolar”. Mudam-se as denominações, por uma questão semântica ou politicamente correta, mas o mal permanece igualzinho, tsc, tsc...) brilhante advogado da firma, responsável pela defesa de uma grande corporação química numa ação litigiosa, surta. Na verdade, um surto de lucidez, já que muda de lado e passa a defender as vítimas do bilionário processo, que se arrasta há anos, em que a empresa citada é acusada de contaminar os fazendeiros e seus familiares de uma região dos EUA com os agrotóxicos cancerígenos que produz. Clayton obviamente é enviado para discretamente apagar o incêndio e convencer Arthur, que tirou a roupa no meio de uma audiência e foi preso, a reassumir seu papel, para beneficio dele e da firma, obviamente. Perceberá depois que ele mesmo faz parte de um esquema em que é uma mera peça a ser manipulada e depois descartada por forças mais poderosas, quando não mais tem utilidade.

Um filme do estreante Tony Gilroy (roteirista dos filmes de Jason Bourne), de atmosfera soturna, realista, em que os embates são essencialmente verbais, com a ação, lenta, avançando por meio de ótimos diálogos e uma cuidadosa construção da trama em flashbacks, que aos poucos vão compondo um sórdido quebra-cabeça, de onde se destaca uma seqüência de assassinato feita sem cortes e assustadora em sua eficaz simplicidade e frieza. Para isso, a atuação precisa de todo o elenco, em especial Clooney, Wilkinson, Sidney Pollack, como o chefe de Clayton, e a sensacional Tilda Swinton, como uma das chefonas da firma, controladora, agressiva, impessoal, despida de qualquer lado emocional mais evidente, tendo aderido por completo às engrenagens corporativas, empresta ainda mais solidez a este belo trabalho de Gilroy.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Os coelhinhos estão chegando...



INLAND EMPIRE ou, pior, Império dos Sonhos, sexta, finalmente nos cinemas. Não tente jamais entendê-lo, porque as peças aqui mudam de face o tempo inteiro. Sinta-o simplesmente e bons sonhos, se conseguir dormir depois... Bú!

Across the Universe

(EUA, 2007)



No cinema, a diretora de teatro americana Julie Taymor já foi beeem mais inventiva no maquiavélico Titus (1999) e até no superficial, mas colorido Frida (2002), compensando os personagens rasos e convencionais deste último com uma riqueza visual fora do comum em cada seqüência. Aqui, numa longa mistura que evoca Hair com Rent (só que sem a Aids!!!), com um pouco de Pink Floyd – The Wall e muito, mas muito amor livre ou nem tanto, porque “All We Need is Love”, “Love is All We Need”, “All My Loving”, várias canções conhecídissimas dos Beatles, inclusive a do título, servem de gancho e evolução para a estória rasteira e cheia de óbvias referências visuais do estivador inglês de Liverpool (claro!) e wannabe artista plástico propositalmente chamado de Jude (Jim Sturgess) que, na busca pelo pai na América e, sobretudo, pelo auto-conhecimento (o que quer que isso seja), encontra a sua muito bem-nascida "Lucy In The Sky With Diamonds” (Evan Rachel Wood), a sua cara-metade. Antes, conhece também Max (Joe Anderson), o rico irmão de Lucy. Max, playboy da fraternidade, abandona a faculdade em Princeton e todos partem para morar juntos numa república na Vila Madá, ou melhor, num loft no Greenwich Village nova-iorquino, dividindo o espaço com outros artistas, como a sexy cantora Sadie (Dana Fuchs) e seu amante, o músico Jo-Jo (Martin Luther McCoy), em plena efervescência cultural e política do final dos anos 60. Com a contracultura a todo vapor, a guerra do Vietnã explodindo e o movimento de Martin Luther King pela igualdade racial pegando fogo, o jubilado playboy Max é literalmento convocado pelo Tio Sam a servir na Indochina. Sem escapatória, claro. E Jude vê a engajada Lucy aderir cada vez mais às passeatas e movimentos contra a guerra. E, pouco ligando para a política, sente perdê-la para a causa. No fundo, costurando inúmeras referências da época, uma sucessão irregular de clipes mais calculados que verdadeiramente delirantes ou menos extravagantes do que se poderia esperar de um material desses, mesmo quando “The Benefit of Mr. Kite” dá origem a uma seqüência circense cheia de malabarismos visuais estrelada por Eddie Izzard, ou quando Bono aparece travestido de Dr. Robert, guru espiritual da galera, e engata nossos heróis por uma jornada psicodélica ao som de "I Am The Walrus" num ônibus escolar riponga em direção à Califórnia, para juntos fazerem todos “o teste do ácido do refresco elétrico”. Tudo de mentirinha. Os nossos heróis ficam no meio do caminho. Assim como o filme. Mas as mais de 30 canções dos Beatles que empurram o que sobra da narrativa são sempre irresistíveis, mesmo quando cantadas pela (boa) voz dos atores e em arranjos de ritmo muitas vezes mais lento do que o usual, como “Let It Be” ou “I Want To Hold Your Hand”, aliás um belo momento entoado pela “Dear Prudence” (T.V. Carpio), lamentando no início do filme um amor não-correspondido.

No fundo, apesar da forma e da temática anos 60, um filme muito, mas muito careta, totalmente condicionado ao amor monogâmico de hoje em dia, que é emblemático na busca de Jude por Lucy, na busca da parceira ideal, da cara-metade dos sonhos artificialmente coloridos e da necessidade de exibi-la para todo o mundo como um troféu, como um fetiche agarrado, como demonstra a cena final no alto do prédio, declaração coletiva de amor pretensamente romântico que não esconde o seu conservadorismo triunfal. Isso em época de amor livre, de amor grupal, de amor coletivo, negando o verdadeiro espirito da contravenção amorosa dos anos 60 em cada fotograma retocado artificialmente e sintonizando-o a estes nossos tristes tempos em que ninguém parece disposto a ficar só ou a buscar em vários parceiros ou relacionamentos de descobertas os seus vários amores que se completam, senão um único que se quer que se jure o tempo todo que será eterno, sacramentado, com papel passado e tudo, depois pelo casamento, ou pelo morar juntos que, aos olhos da lei, ganhou a estranha e medieval denominação de "concubinato". Ou seja, pelo supostamente viveram felizes para sempre, pelo dividir a casa juntos, por fazer planos de classe média para o futuro somente depois de alguns meros encontros, vislumbrando um ideal que não existe. Se existisse, não haveria, em contrapartida, tanto divórcio por aí. Com papel passado e tudo.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

O Sobrevivente

(Rescue Dawn, EUA, 2006)



Com jeitão daqueles filmes de guerra da capinha azul distribuídos pela saudosa América Vídeo nos anos 80 e um final deliciosamente patriótico, daquele bem militarista, tipicamente americano, no entanto, um POW movie à maneira do loucão do Werner Herzog (Aguirre – A Cólera dos Deuses, Fitzcarraldo, Cada Um por Si e Deus Contra Todos, ou melhor, O Enigma de Kaspar Hauser, Coração de Cristal, O Homem Urso), largando os personagens para serem pouco a pouco engolidos pela natureza impiedosa que os cerca ou enlouquecerem de vez, ou então obsessivamente lutarem contra ela para sobreviver, às vezes de maneira inútil. Aqui, no caso, a história real e já mostrada antes por Herzog no documentário O Pequeno Dieter Precisa Voar (1997), do piloto alemão naturalizado americano Dieter Dengler (Christian Bale), que, em 1965, um pouco antes da escalada da guerra no Vietnã, é convocado com sua esquadrilha para uma missão ultra-secreta de bombardeio a alvos da guerrilha vietcongue no vizinho Laos. Seu avião é abatido, ele sobrevive, mas é feito prisioneiro no meio da selva, numa região de difícil acesso, pouca comida e vietcongues pra lá de caricatos. Além disso, é mantido numa cabana abafada, algemado a colegas um tanto desanimados, exaustos, esquálidos ou já bem louquinhos, como o Gene interpretado com todos os tiques conhecidos 'por Jeremy Davies. No entanto, a atitude positiva do sempre sorridente e engenhoso Dengler, capaz de abrir algemas, confeccionar facas e racionar a escassa comida, os motiva a tentar uma fuga arriscada pela densa selva escura e, enfim, ocultar-se nela, em momentos mais próximos aos dos emblemáticos filmes de Herzog estrelados pelo psicopata do Klaus “Aguirre” Kinski, sobretudo pelo lado demonstrativo, direto, com que a sobrevivência deles é mostrada. Até a cena da jangada à deriva no rio, de Aguirre, se faz presente aqui. Envolvente, filme conduzido sobretudo pela ótima atuação de Christian Bale, totalmente entregue ao papel e mais do que disposto a levar seu personagem ao limite, como bem teria lhe exigido o diretor, embora evitando deixar-se tomar pela loucura, mesmo nos momentos mais desesperadores, em que o olhar arregalado ou exausto de seu parceiro na fuga, brilhantemente vivido por Steve Zahn, num papel atípico, dá a exata medida do que teriam passado os soldados reais da história. Que venha agora o Rambo IV!

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Monstros de Quatro Olhos

(Four Eyed Monsters, EUA, 2005)



Jovens narcisistas vão para Nova Iorque cheios de aspirações artísticas e com o supremo desejo de encontrar a sua cara-metade. Conquistar a metrópole e também corações e se tornar junto com a tão sonhada amada o temível ou então mais do que desejado “monstro de quatro olhos” do título. Na maioria das vezes, no entanto, acabam virando garçons, garçonetes, vendedores, balconistas e, pior, ficando ainda mais solitários. Almas desencontradas que um dia se encontram pela Internet, como é o caso do videomaker Arin (Arin Crumley), que ganha a vida editando vídeos de casamento, filmando o “amor dos outros monstros de quatro olhos”, embora acalente o sonho de se tornar cineasta. E, claro, de ser amado. Mas, totalmente inseguro e travado para falar com as mulheres, além de paranóico com a possibilidade de adquirir alguma doença sexualmente transmissível, conhece pela rede digital a simpática artista plástica e então garçonete Susan (Susan Buice). Juntos, iniciam um relacionamento inusitado, em que só conversam via chat, e-mail, torpedos, scraps, trocando depoimentos gravados em vídeo ou bilhetinhos, centenas de bilhetinhos o tempo todo. Quase nunca se falam diretamente, cara a cara. Também quase não se tocam. E o filme, escrito e dirigido pela dupla de protagonistas, vai incorporando essas diferentes linguagens a sua estética pós-moderna, feita de cortes rápidos, diferentes cores e texturas, cenas mais lentas, seqüências animadas, seqüências reais, tudo pontuado por depoimentos de pessoas mal-amadas nada fictícias. E o relacionamento se transforma numa espécie de videoinstalação cibernética. Um filme de espírito independente, um retrato simpático, muitas vezes divertido e afetuoso dos amores expressos, à maneira dos filmes de Wong Kar-Wai para a era da Internet e que demonstra, em sua curta duração, a dificuldade de se estabelecer um contato mais tradicional com as pessoas numa era abundante de mensagens eletrônicas e hipertextos, que, no entanto, nem sempre comunicam ou aproximam os indivíduos como muitos acreditam.

Num espírito de guerrilha, o filme foi distribuído de maneira pioneira pela Internet e, para quem se interessar, a sua última versão, de 72 minutos, pode ser vista integralmente no YouTube:

quinta-feira, dezembro 06, 2007

No Vale das Sombras

(In the Valley of Elah, EUA, 2007)



E lá estava eu à noite, na madrugada à deriva pelos canais televisivos, a rever na Record o glorioso Crash – No Limite (2005), de Paul Haggis. E, pior, gostando, hehehe. Isso até a cena do tiro de festim do comerciante persa no chaveiro latino abraçado à filha. Aí o filme deixa mais claro suas intenções e limitações, não fazendo mais questão de mascarar a circularidade de seu roteiro esquemático, escrito por Haggis justamente com o intuito de fazer prevalecer no rosto dos espectadores aquele espanto manipulado de “Ó! Então era isso mesmo!”. O que lhe valeu o Oscar de melhor filme na época, para espanto ainda maior de Jack Nicholson e de muitos blogueiros e críticos indignados mundo afora! Aqui, neste segundo trabalho de Haggis na direção, as coisas são um pouco menos óbvias, embora não tão sutis, como a referência explícita à narrativa bíblica de Davi e Golias (evocada no título original), na história de um policial aposentado do Exército e ex-combatente do Vietnã (Tommy Lee Jones), metódico e patriota, lutando para saber do paradeiro do filho, que voltou do Iraque de licença sem que o pai soubesse e que desapareceu após uma noite de folga do quartel. Para a tristeza dele e da mãe (Susan Sarandon), o rapaz é encontrado morto e esquartejado numa área cuja jurisdição é disputada tanto pela polícia, quanto pelo exército. Com a ajuda um tanto relutante da detetive da polícia local, Emily Sanders (Charlize Theron), ele vai pessoalmente até a cena do crime, esbarrando nos superiores do quartel e da polícia, para tentar descobrir os motivos e os responsáveis pelo que aconteceu com o garoto. Em paralelo, conduz ele mesmo a sua investigação particular, tendo como pista uma gravação de vídeo encontrada no celular do filho, com imagens e fotografias deterioradas e uma mensagem de voz com um pedido de socorro enviado ao pai pouco antes do seu desaparecimento, algo que o assombra profundamente. Embora importante e bem conduzida, a investigação, como no panfletário Redacted (2007), de Brian De Palma, é mais um pretexto para discutir os abusos dos militares americanos, em geral muito jovens e despreparados, sobre a população civil na atual ocupação militar do Iraque, além das seqüelas psicológicas deixadas nos recrutas e, principalmente, nos seus familiares. Um filme muito melancólico, carregado pela serena interpretação de Jones e beneficiado pelo fato de Haggis, ainda que não seja um triunfo como diretor, nunca abusar do sentimentalismo, sendo bastante comedido até no uso da trilha incidental, algo aprendido, creio eu, com Clint Eastwood, para quem roteirizou o oscarizado Menina de Ouro e o excepcional Cartas de Iwo Jima.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

A Coragem de Amar

(Le Courage D’Aimer, França, 2005)



Os Amores Parisienses de Claude Lelouch. Ou seja, assumidamente cafona do início ao fim, com alguns toques “esotéricos” e cenários e figurinos novamente remetendo àquele jeitão de novelinha das oito, padrão "Globo" de qualidade. E, ao contrário do filme de Alain Resnais, elegantemente conduzido por canções tradicionais que pontuam a trama, aqui bregas canções românticas, com forte sotaque italianado, invadem sem pudor a trama deste filme coral, em que várias estórias se entrecruzam versando sobre casais em constante desacerto amoroso, pra variar. Uma delas, e a mais emblemática, trata de um cantor italiano que se apresentava nas ruas e bares de Paris com uma jovem e promissora cantante, antes praticante de furtos em butiques, e que um dia é descoberta, levada ao mainstream, abandonando o seu mentor e companheiro, deixando-o desolado. Até que este conhece uma garçonete e os dois partem para a Itália, onde ele refaz a sua carreira, vida amorosa e passa a ter mais sucesso e prestígio que sua antiga companheira. Essa garçonete tem uma irmã gêmea idêntica que trabalha num castelo recém-comprado por um milionário empresário do ramo de pizzarias. O milionário "adquire" não só o castelo, mas também sua antiga proprietária, uma atriz, casando-se com ela e convivendo com suas constantes infidelidades, dentro e fora do palco, quando Lelouch arrisca alguns exercícios de metalinguagem até que interessantes, especialmente ao assumir o papel de um diretor obsessivo que filma a estória dos dois cantores, obrigando-os a cada dia a reviver o seu doloroso relacionamento, agora para ciúmes da ex-garçonete esposa do cantor. Mas o que prevalece mesmo no final das contas são aquelas canções que insistem em invadir a(s) estória(s) e grudar na cabeça do espectador. Parece que, para alguns franceses, amar e ser amado é sempre um saco ou algo eivado de breguice, embora as possibilidades para isso estejam ao alcance de qualquer um, fruto do simples acaso, em cada esquina de Paris ou às margens do rio Sena ou na saída de alguma estação de metrô ou até mesmo em algum luxuoso castelo à venda nas proximidades. Tá bom...

terça-feira, dezembro 04, 2007

A Vida dos Outros

(Das Leben der Anderen, Deutschland, 2006)



Um ótimo filme... para um filme alemão. Ou seja, quadradão e convencional do início ao fim, talvez refletindo um pouco do cotidiano excessivamente regular na sombria Alemanha Oriental (“die DDR”), anos antes da queda do Muro de Berlim, um país cuja população era mantida sob estreita vigilância pela temida Stasi, uma das maiores polícias secretas do mundo, com espiões e informantes em toda a parte, muito empenhados em fornecer ao governo comuna informações detalhadíssimas do comportamento de cidadãos considerados suspeitos, ou melhor, simpatizantes do “decadente e burguês” modo de vida ocidental. Um os espiões, o rígido capitão Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) se encarrega de vigiar um dramaturgo de Berlim, Georg Dreyman (Sebastian Koch), que, apesar dos exemplares serviços prestados à pátria comunista, com peças que inclusive exaltam o regime dos comedores de criancinhas, faz sucesso também do outro lado do muro, o que evidentemente gera suspeitas de traição. Aos poucos, porém, em sua obstinada vigilância por meio de escutas, telefones grampeados e gravações, o solitário Gerd vai se envolvendo mais e mais com o cotidiano agitado de Georg e, sem motivo aparente, passa a omitir em seus relatórios diários detalhes do comportamento do dramaturgo considerados comprometedores, especialmente quando este decide colaborar com uma publicação ocidental, num artigo versando sobre adulterações no número de suicídios no regime totalitário.

Envolvente em seus detalhes, minucioso na reconstituição do trabalho pra lá de voyeurístico (ou paranóico mesmo) dos agentes, apesar da mudança de lado um tanto inverossímil para um duro carrasco voluntário da Stasi, o filme, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, com eficaz, embora impessoal, direção do debutante em longas Florian Henckel von Donnersmarck, é conduzido sobretudo pela excelente interpretação do já falecido Ulrich Mühe como o oficial pleno de ambigüidades, mas cujo modo discreto de agir prevalece até o final comovente, mas contido, que evita o drama rasgado: “Es ist für mich” (“É para mim”). Sehr gut!

segunda-feira, dezembro 03, 2007

A Lenda de Beowulf

(Beowulf, EUA, 2007)



Exuberante animação em 3-D a cargo de um especialista em fantasias “virtuais”, Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro, Uma Cilada para Roger Rabbit, Forrest Gump, O Expresso Polar), que conta a saga do mitológico herói do título, o nórdico guerreiro Beowulf (Ray Winstone). Um homem um tanto egocêntrico e cheio de feitos a narrar que chega a Dinamarca governada pelo rei Hrothgar (Anthony Hopkins) para enfrentar o monstro Grendel (Crispin Glover), que, após uma celebração regada a vinho e “hidromel”, despertado, massacra os súditos no salão de festas real. Porém, a morte de Grendel nas mãos de Beowulf provoca a fúria da mãe da criatura (Angelina Jolie), que se vinga de forma sangrenta, obrigando o herói a também combatê-la. Mas, dessa vez, mais do que um outro monstro, Beowulf terá que lutar contra seus próprios instintos e impulsos humanos, demasiadamente humanos, se desejar prevalecer agora como o novo rei “virtuoso” da Dinamarca, conforme as canções entoadas a seu respeito. Mais do que o impressionante visual, melhor apreciado em salas de projeção 3-D (para mim, tanto faz, já que só enxergo razoavelmente bem com um dos olhos!), impressiona também o roteiro minucioso de Neil Gaiman e Roger Avary, fiel ao espírito da epopéia anônima medieval, apesar de algumas mudanças na estória original, mas com alta dose de violência, linguagem séria, cheia de arcaísmos, recitativos e alguma nudez no todo. Além disso, ótimos atores como Hopkins, Winstone, John Malkovich, Robin Wright-Penn emprestam muito mais charme e veracidade aos personagens virtuais que os atores “reais” que atuam mais como bonecos emborrachados em 300 ou Eragon, por exemplo.

sexta-feira, novembro 30, 2007

O Reino

(The Kingdom, EUA, 2007)



Nos primeiros minutos, uma sintética, dinâmica e muito didática animação detalha as relações de interdependência entre os EUA e a Arábia Saudita desde os anos 30, com a descoberta de petróleo no país árabe e sua subseqüente exploração por companhias americanas, que criaram no país núcleos residenciais à parte da sociedade saudita, verdadeiros subúrbios tipicamente yankees, com a finalidade de abrigar os trabalhadores das empresas americanas e seus familiares, até os atentados de 11 de setembro, perpetrados por fundamentalistas, sauditas em sua maioria como o seu mentor, Osama Bin Laden. Depois, nos dias atuais, num desses núcleos na capital Riad, um atentado suicida deixa mais de 100 mortos e duas centenas de feridos. Entre as vítimas fatais, um agente do FBI, Francis Manner (Kyle Chandler), cuja morte deixa o Bureau e, principalmente, o seu amigo, o também agente Ronald Fleury (Jammie Foxx), profundamente abalados. Apesar de impedido pela burocracia, Fleury arruma um jeito de se deslocar para o reino saudita com uma equipe que inclui a médica legista Janet Mayes (Jennifer Garner), esposa do agente assassinado, e os agentes especiais Grant Sykes (Chris Cooper) e Adam Leavitt (Jason Bateman, muito mal-aproveitado). No entanto, o trabalho dos americanos é dificultado ao máximo pela polícia, pelo pouco tempo de que dispõem para permanecer na cena do crime e pelos costumes locais. Apesar do realismo dessas seqüências e da ambientação precisa, tudo é pretexto para o movimentado terceiro ato, movido a uma saraivada de tiros e com as explosões de sempre, em que os agentes agora viram o alvo preferencial dos terroristas, deixando de lado o subtexto que se insinuava crítico à intervenção americana do começo, partindo finalmente para as cenas de ação bruta e eficiente, onde o diretor e ator Peter Berg imita descaradamente muito do estilo dos filmes de Jason Bourne e do produtor Michael Mann. O problema é que aí a valentia do mala do Jamie Foxx prevalece mais do que o necessário. Há ainda, na coda, um sussurrado discurso moral que tenta restabelecer criticamente a igualdade entre os atos dos terroristas e os dos agentes americanos e a inutilidade de atitudes mais ponderadas, mero pretexto para retaliações manu militari de ambos os lados, mas que no fundo é também mais um pretexto para deixar a porta aberta para uma (improvável) continuação.

quinta-feira, novembro 29, 2007

Viagem a Darjeeling

(The Darjeeling Limited, EUA, 2007)



Carregados de pesadíssimas malas e baús, três irmãos que não se viam desde a morte do pai se reúnem para uma viagem de trem pela Índia no expresso do título original, organizada pelo mais velho (Owen Wilson) que, a princípio não revela o verdadeiro propósito da aventura e que se põe no papel de decidir tudo por todos, da comida aos itinerários turísticos. Há muito tempo sem se falarem, cada um enfrenta a sua crise particular. Um (Adrien Brody) está para ser pai. Outro (Jason Schwartzman, sempre descalço), afastou-se da namorada (Natalie Portman), embora mantenha encontros habituais com ela, como mostra o prólogo do filme num quarto de hotel em Paris. E o suposto “líder” da expedição sofrera antes um acidente, o que o deixa cheio de dores e com o rosto inchado e enfaixado, apesar de seu otimismo constante. A viagem é o momento de reencontro, reaproximação dos três, que nunca foram amigos de fato, e, sobretudo, de redenção espiritual que só um lugar caótico e exótico como a Índia poderia proporcionar. Com uma beleza visual fora do comum, adornando cada cenário com um colorido que é particular de seus filmes, vários momentos de ternura, de comédia ou de conflito entre indivíduos que parecem muito bizarros, mas são na verdade profunda e dolorosamente humanos, além da trilha sonora sempre extraordinária, mais uma viagem propositalmente errática de Wes Anderson, difícil de embarcar a princípio em toda a irregularidae do trajeto, mas que têm seus momentos de encanto. Ainda assim, prefiro Rushmore - Três é Demais (1998), seu segundo filme e inigualável obra-prima, porque no colágio particular daquele filme havia um mundo inteiro de possibilidades a ser explorado, e o seu protagonista, Max Fisher (também Jason Schwartzman), transbordava energia e esperança em cada um dos projetos malucos a que se dedicava. Aqui, pelo contrário, nesse trem que percorre o mundo, à deriva, como no barco de A Vida Marinha com Steve Zissou (2004), há apenas desencanto e frustração.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Lady Chatterley

(Bélgica/França/Reino Unido, 2006)



A célebre narrativa literária do inglês D.H. Lawrence da paixão da nobilíssima Constance Chatterley (a adorável Marina Hands, de As Invasões Bárbaras) pelo rústico guarda-caças Parkin (Jean Louis Coulloc'h), empregado da propriedade rural do marido dela, Sir Clifford (Hippolyte Girardot), paralisado da cintura para baixo por causa de ferimentos decorrentes de sua participação como oficial na I Guerra Mundial, ganha aqui, pelas lentes de Pascale Ferran, uma leitura rigorosa, francófona, clássica, próxima em estilo ao das adaptações literárias fidedignas ao texto (e levadas pelo texto) dirigidas por Jacques Rivette. E contemplativa, sobretudo. Por chamar a atenção para a natureza, nos vários e longos passeios de Lady Chatterley pela floresta em direção à cabana de Parkin. Por contemplar com muita naturalidade, em sua longa e necessária duração, várias vezes o toque de mãos dela no corpo desnudo do empregado. E o dele no dela. Aliás, o corpo aqui é essencial. O dele, quando ela o vislumbra pela primeira vez com o torso nu banhando-se nos fundos da cabana. O dela, quando após essa visão, encantada, contempla-se depois nua diante do espelho, redescobrindo a sua sexualidade e permitindo abrir-se diante de novas possibilidades antes inimagináveis, quando enfim consumará a relação adúltera com Parkin, primeiro de maneira quase mecânica, instintiva, até o desnudamento progressivo dos dois corpos que, certa feita, correrão nus, sem pudores, libertos dos costumes e despreocupadamente pela chuva que molha a vegetação. Uma cena belíssima, vale dizer. Entre os dois predominam os silêncios e os sons da Natureza. E farão questão depois de se adornarem com flores, aproximando-se ainda mais da natureza que os circunda. Nesse momento-chave do filme, pouco importa a diferença de classes e de educação. O filme, rousseauniano, faz questão de se ater ao intercurso amoroso como forma de aproximar indivíduos de distintos backgrounds, da mesma forma que o livro de Lawrence, que aqui tem a segunda versão de seu clássico escandalosamente proibido na Inglaterra, que é conhecida como “John Thomas and Lady Jane” (em alusão aos apelidos que os amantes safadinhos dão aos órgãos genitais um do outro), adaptada para as telas.

A intimidade é progressiva, à medida que as idas de Constance (ou “Jane”?) à floresta se tornam mais e mais intensas, a paixão entre eles nasce e as complicações surgirão, claro, como o marido que demonstra sinais de recuperação, e Parkin, que volta para a esposa e sai da fazenda enquanto Constance viaja com a irmã pela Itália, até o belo desfecho, todo dialogado entre Parkin e Constance, em que Parkin, até então uma mera presença física, de poucas palavras e muita virilidade, terá o seu direito à fala alongada, num momento em que a diretora Ferran não se intimida diante do texto de Lawrence e o lança na tela quase que integralmente pela boca de Parkin, encerrando em aberto este filme formidável. Como cinema e como literatura.

terça-feira, novembro 27, 2007

Jogo de Cena

(Brasil, 2007)



Direto para a câmera, num palco de costas para uma platéia vazia, depoimentos de mulheres "reais" são “interpretados” por outras mulheres. Algumas delas atrizes mais do que conhecidas, como Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres. Outras, nem tanto. Outras, ainda, apenas mulheres comuns, pessoas nada conhecidas, como eu, como você, como todos nós. Mas eles se misturam, se repetem um a um, se sobrepõem, a ponto de nunca sabermos com certeza o que de fato é interpretação, o que de fato é emoção real, mesmo quando Marília Pêra revela para o diretor-entrevistador-“fingidor” Eduardo Coutinho (de Peões, Edifício Master, Santo Forte, Cabra Marcado Para Morrer, O Fim e o Princípio) um dos truques para simular choro em cena. E os depoimentos alternam momentos divertidos com outros mais tristes e muito verossímeis, mesmo entre as atrizes mais célebres. Assim, pouco a pouco, a linha que separa o real da representação, e até o documentário da ficção, vai se tornando inexistente, com resultados no mínimo inusitados e sempre fascinantes, pois, afinal, nós, os desconhecidos, estamos de um jeito ou de outro também representando, seja no trabalho, seja no depoimento à Polícia ou ao Juiz, seja para o médico, seja para a pretendente à namorada no primeiro encontro, fingindo ser o que não é, etc.

segunda-feira, novembro 26, 2007

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford

(The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford, EUA, 2007)



Além de covarde, o jovem Robert Ford (Casey Affleck, ótimo) é sobretudo um traidor. Como os personagens de outro James, o escritor Henry, em suas fantasias, Robert achava-se destinado à grandeza. E, um dia, sempre motivo de troça do irmão mais velho (Sam Rockwell, excelente), dos primos e dos conhecidos, considerou que a obteria se liquidasse seu ídolo de infância, o lendário fora-da-lei Jesse James (Brad Pitt, numa interpretação serena e plena de desencanto), cuja quadrilha, liderada por ele e pelo irmão Frank (Sam Shepard), se dispersa após o último grande assalto do bando a um trem, numa seqüência magnífica, com o comboio visto pelas árvores cortadas pelo farol da locomotiva, enquanto faz a curva nos trilhos. Jesse, vivendo escondido, sob falsos nomes, na obscuridade com a prole e a mulher, como um fantasma, doente, cansado e desconfiado de tudo e de todos, vai matando e perseguindo um por um dos seus antigos comparsas até chamar os irmãos Ford para um derradeiro roubo, que pode ser uma cilada para os dois ou uma chance para a tão esperada glória do caçula Robert, motivo de chacota também do próprio Jesse, mas também informante da polícia, que protagonizará o ato enunciado no título do filme e ainda tentará lucrar com a fama de ter liquidado o bandidão, reencenando o assassinato com o irmão centenas de vezes em apresentações teatrais por toda a América. Mas mitos adquirem uma grandeza ainda maior com a morte. E covardes não passam de covardes em vida. Baseado em romance de Ron Hansen, extraordinário faroeste de Andrew Dominik, de natureza contemplativa, andamento pausado em suas quase três horas de duração, cujo tom crepuscular lembra o Sam Peckinpah de Pat Garret e Billy, The Kid (1973), sem, no entanto, haver tiroteios espetaculares, e cuja força em cada quadro em movimento da estonteante fotografia esfumaçada ou embaçada e de tonalidades envelhecidas e fúnebres de Roger Deakins (Onde os Fracos Não Têm Vez, Fargo) o aproxima da beleza pictórica de Barry Lyndon (1975), de Stanley Kubrick, e de Dias do Paraíso (de 1978 e o mais belo filme de todos os tempos!), de Terrence Malick, além de conduzido com a necessária lentidão pelo fantástico motivo musical de Nick Cave. Pontuado por uma meditativa narração em off e um constante vai-e-vem no tempo, sem dúvida e ao menos visualmente, um dos mais belos filmes deste ano excepcional. Para o cinema e para o western, está claro.

sexta-feira, novembro 23, 2007

A Noiva Perfeita

(Prete-Moi Ta Main, França, 2007)



Um solteirão convicto, ruim de tato e ótimo de faro (o sempre divertido Alain Chabat, também produtor e co-roteirista). Para os perfumes, está claro. E as suas mulheres. Suas várias mulheres. Na verdade, sua mãe e suas cinco irmãs que, com ele, formam o “G7”, grupo de reunião familiar, herança paterna do muito querido pai ultrademocrático, agora presidido indefinidamente pela matriarca e que decide todo tipo de assunto na mesa da sala de jantar e onde ele é obviamente voto vencido em qualquer discussão, das nas mais triviais às mais sérias, tanto que vive sendo pressionado por todas a se casar logo, já que passou dos quarenta anos e se encontra ainda na barra delas, que querem se livrar dele de uma vez por todas. Primogênito sofre mesmo. Então, de saco cheio, decide bolar uma farsa. “Aluga” a irmã (Charlotte Gainsbourg) de seu colega de trabalho para que ela vire a sua noiva de mentirinha até o dia do casamento, para então ser dramaticamente abandonado por ela no altar, acreditando assim que, por causa do trauma encenado, a mulherada nunca mais tocará no assunto. Mas as coisas, claro, serão mais complicadas. Não por culpa dele, já que as irmãs e a mãe passam a gostar muito, mas muito mesmo da cunhada "avulsa", perdoando-a por qualquer deslize e deixando-o cada vez mais num beco sem saída. Ela também quer adotar uma criança (e brasileira!!) e, sendo noiva ou casada, o processo seria bem menos complicado. Nada de mais, certamente previsível, mas um filme agradável de Eric Lartigan, sobretudo por causa do charme da dupla principal e das situações divertidas que cria desde o início à anos 70. Mais, por mais despretensioso que seja este filme, refletindo seriamente, parece haver uma onda no recente cinema francês, sempre em sintonia com a realidade atual, de amizades compradas ou de noivas alugadas, tal como visto em Meu Melhor Amigo (2006), do veterano Patrice Leconte, e em Por Amor ou Por Dinheiro (2005), do também veterano Bertrand Blier. Parece mesmo que o amor e a amizade descompromissada são itens mais raros hoje em dia na sociedade francesa ou em qualquer outra sociedade, e isso não deixa de ser de fato um tantinho inquietante.

P.S.: Apesar do momento um tanto difícil e de incertezas e frustrações que se somam a cada dia, só para lembrar a todos que o tem acompanhado que este esnobe blogue completa hoje o seu primeiro aniversário. Espero continuar com ele por algum tempo, embora, depois de tudo o que tem me acontecido de junho para cá, no fundo, no fundo, eu preferiria mesmo é ter permanecido para sempre na Toscana, tomando vino rosso, comendo salame de funghi porcini, disputando campeonato de lançamento de queijo ou procurando trufas brancas nas florestas escuras e nas montanhas escarpadas da Garfagnana. Mas vamos em frente. Com ou sem trufas.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Mutum

(Brasil/França, 2007)



O universo literário-atemporal-metafísico de João Guimarães Rosa é muito bem transposto para as telas por Sandra Kogut nesta sensível, mas nunca sentimental adaptação de Miguilim, a novela original que, junto com Manuelzão, compõe o livro Campo Geral. Ao manter a fidelidade à linguagem poética do texto de Rosa em muitos dos diálogos, na verdade todo um discurso trabalhado e transfigurado em outra língua, que nada tem a ver com regionalismos e exotismos e que, no entanto, nunca soa artificial ou pomposo, saindo com naturalidade da boca dos atores, em sua grande maioria "não-atores", a diretora Kogut narra com o mínimo de recursos, mas bastante apuro, dispensando inclusive o uso da trilha sonora invasiva, limitando-se aos ruídos ambientes e, mais importante, às elipses, a estória de Miguilim, aqui Thiago (Thiago da Silva Mariz), um menino do sertão mineiro às voltas com o pai bruto (João Miguel, de Cinema, Aspirinas e Urubus) cada vez mais agressivo, que, além de bater nele e na mãe, num dos surtos, manda embora a cadelinha Rebeca, a sua favorita, coisa que não compreende por quê. A oras tantas, seu irmão e muito amigo Felipe (o Dito no conto original) fica enfermo e falece, entre outros fatos ruins e igualmente incompreensíveis que presencia, que acontecem por acontecer e que compõem o duro processo de crescimento e aprendizagem de Thiago, nesta parábola de cunho universal sobre ver melhor. Sobre Thiago/Miguilim transcender este seu mundo pouco nítido e encarar o mundo dos adultos com outro olhar, conforme atesta o belo final, que, tal qual no livro, muito me comoveu em sua enganadora simplicidade.

quarta-feira, novembro 21, 2007

Crimes de Autor

(Roman de Gare, França, 2007)



Impessoal, o estilo novelão das oito do Daniel Filho francês, também conhecido como Claude Lelouch, auteur de Um Homem, Uma Mulher, Retratos da Vida, Os Miseráveis, Os Intragáveis..., até que funciona para manter a atenção desta trama policialesca, cheia de ganchos narrativos e sobreassaltos no tempo, em que uma escritora consagrada (Fanny Ardant) é acusada de matar o seu ghost-writer. Depois, recuando no tempo e no espaço, pois vamos de Paris para a Borgonha e depois Cannes, versa sobre um serial killer foragido, conhecido por entreter suas pobres vítimas com truques de mágica antes de dar cabo nelas. E de um casal que se desentende num posto de gasolina, sob os olhos muito suspeitos do feioso, mas até que simpático e pleno de ambigüidades Dominique Pilon (o ator favorito do diretor Jean-Pierre Jeunet, de Delicatessen, Amélie Poulain, Alien 4), que, além de adorar truques de mágica e de criar estórias de assassinatos com algum talento narrativo e principalmente "realismo", insistente, oferece carona à bela moça abandonada (Audrey Dana). Ele, no entanto, acaba tendo que se fingir de noivo da mulher diante da família muito jeca dela. Família desconfiada, no entanto. De uma maneira ou de outra, as várias estórias se entrelaçarão até a reviravolta rocambolesca e totalmente inverossímil do final. Mas o filme, em sua despretensão, tem seus momentos, inclusive aqueles em que Lelouch permite se homenagear, filmando a perspectiva de um carro em movimento pelas rodovias francesas tal qual naquele seu célebre curta dos anos 60, em que, sem cortes, corria raivosamente com uma Ferrari pelas ruas esvaziadas da madrugada parisiense e que depois foi remixado ao som de música do Snow Patrol.

segunda-feira, novembro 19, 2007

1408

(EUA, 2007)



Vultos, poltergeists e assombrações não passam de mitos e invencionices para o escritor Mike Enslin (John Cusack interpretando John Cusack pós-Identidade), que, separado da mulher e em crise, já convive um tempo considerável com o fantasma bem concreto da perda da sua filha. Desde então, sem inspiração para novas estórias, dedica-se a desmascarar supostos fenômenos paranormais em quartos de hotéis e pensões com fama de serem altamente amaldiçoados. Até que um dia, a fim de completar mais um capítulo para o seu livro "Dez Noites em Quartos de Hotel Mal-Assombrados", interessa-se em hospedar-se no quarto do título, no tradicional hotel nova-iorquino Dolphin e onde ninguém teria sobrevivido mais de uma hora, de acordo com o gerente do lugar (Samuel L. Jackson), que tenta, sem sucesso, dissuadi-lo da idéia. Devidamente instalado, as assombrações, claro, começam a aparecer. Ou não seriam delírios, frutos de seu enlouquecimento progressivo e paranóia? Apesar de alguns sustos esperados, mas não descarados, e da reviravolta final um tanto frustrante, um filme que tem seu charme no visual elegante e na maneira como o diretor sueco Mikael Håfström (Evil – Raízes do Mal, A Maldição do Lago, Fora de Rumo), construindo aos poucos o suspense, se esforça para desdobrar o exíguo espaço do local em mundos surrealistas que remetem diretamente ao universo da série Além da Imaginação, evitando toda aquela sangria desatada. Assim, uma adaptação mais do que razoável de um conto de Stephen King que, se não entra para a história como o clássico O Iluminado (1980), com quem compartilha alguns elementos em comum, ao menos, deixa-se ver e ainda provoca algumas inquietações bem concretas sobre a natureza sinistra dos quartos de hotéis, onde tantos se hospedam e inevitavelmente deixam lá suas marcas, como fluidos ou sangue ou mesmo a sua solidão e abandono. Ainda que não mais corpóreas, depois de lavadas, limpas, aspiradas, higienizadas, sempre estarão lá, na banheira, nos lençóis, no carpete e, sobretudo, na cabeça do próximo hóspede...

sexta-feira, novembro 16, 2007

Os Donos da Noite

(We Own the Night, EUA, 2007)



Dois irmãos. Um, Joseph (Mark Wahlberg), é um policial honesto, orgulho do pai também policial, o capitão veterano Burt Grusinsky (Robert Duvall). Outro, Bobby (Joaquin Phoenix), a ovelha negra, é gerente de um grande clube noturno no Brooklyn, na verdade, fachada para o tráfico de cocaína e da então nova droga da moda, o “pó de anjo”, e local controlado por mafiosos russos da pesada, que estão para expandir os negócios em direção a Manhattan, no final dos anos 80. Expansão em que Bobby terá um papel de destaque. Mesmo não sendo um criminoso, sabe do tipo de crime(s) associado(s) às pessoas que freqüentam seu estabelecimento. Está mais do que entranhado no submundo, tanto que, para não se complicar com os patrões, Bobby adotou o sobrenome da mãe, Green, evitando qualquer associação com o irmão e, sobretudo, com o pai. E assim distanciou-se da família. Só a sua namorada porto-riquenha (Eva Mendes) sabe do segredo. Até que um perigoso traficante, sobrinho do dono, passa a fazer negócios dentro da boate, batendo de frente com a polícia numa investida surpresa e, sobretudo, com o irmão de Bobby, que agora dirige a divisão de repressão às drogas e que comandou a batida. Em conseqüência disso, Joseph sofre uma represália. Bobby é então obrigado a escolher um lado. Ou ajuda a polícia, e seus parentes, ou envereda de vez para o mundo do crime, o que lhe impõe um dilema, cuja decisão, qualquer que seja, vai mexer inexoravelmente com o destino dos três. Ou, mais importante, trará a possibilidade reaproximá-los.

Com diálogos precisos, ótima ambientação em tons azulados ou acinzentados, nenhuma firula narrativa ou edição de cortes histéricos ou bruscos (até Mark Wahlberg está bem mais controlado do que os tipos mais nervosinhos e estouradões que costuma interpretar), o diretor James Gray, de filmografia esparsa, mas consistente, neste sombrio drama policial, com calma e elegância, consegue impor um clima constante de tensão, que tem como ponto alto uma impressionante perseguição com tiroteio sob a chuva filmada inteiramente do ponto de vista do interior do carro de Bobby, descartando efeitos espetaculares ou mesmo uma trilha sonora convencional, utilizando apenas ruídos ambientes como a chuva torrencial caindo no pára-brisa e o barulho dos limpadores. Nem os tiros são ouvidos. Os atores, todos ótimos, parecem mesmo sussurrar, mesmo nos momentos mais intensos. Enfim, outro filmaço de Gray, que repete a mesma parceria com Phoenix e Wahlberg do anterior Caminho Sem Volta (2001), também retornando, sem nunca soar repetitivo, ao universo claustrofóbico das pequenas e fechadas comunidades mafiosas nova-iorquinas (e seus tentáculos e conseqüências na família) que tão bem retratou em Caminho e no excepcional Fuga para Odessa (1994).

quarta-feira, novembro 14, 2007

Antes Só do Que Mal Casado

(The Heartbreak Kid, EUA, 2007)



No episódio 1 da primeira temporada da série britânica Extras, Ben Stiller, fazendo o papel de si mesmo como o improvável diretor de um drama sério, seriíssimo, sobre a guerra na Bósnia, gabava-se para o pobre do Ricky Gervais, um simples figurante no set, sobre o quanto seus filmes rendiam bem nas bilheterias, atestando a sua imensa popularidade e pretensa superioridade e arrogância diante de todos os meros mortais. Ao menos desta vez, no entanto, Ricky poderia dar o troco em Stiller, já que este mais recente trabalho dos irmãos Farrelly estrelado por Stiller, quase dez anos depois de trabalharem juntos em Quem Vai Ficar com Mary? (1998), foi um tremendo fracasso nas bilheterias americanas. E não sem razão. Aqui, nesta refilmagem de Corações em Alta (1972), Stiller faz Eddie Cantrow, um sujeito quarentão que não consegue se comprometer com o sexo oposto, por inúmeras implicâncias e idiossincrasias, enquanto vê amigos e ex-namoradas se casarem. Um dia, pressionado, sobretudo pelo pai (Jerry Stiller), ele reage sem pensar duas vezes: casa-se com Lila (a bela sueca Malin Akerman), semanas depois de socorrê-la num assalto e que lhe parecia a mulher ideal, pela química que rola depois do incidente. Mas é na lua-de-mel num resort no México que ele passa a conhecê-la melhor e descobre que Lila não tem nada a ver com ele. E passa a implicar com todos os defeitos dela, exacerbados à maneira grosseira e irreverente dos irmãos Farrelly. Apesar de toda lindona e loira, Lila tem desvio de septo, o que faz escorrer pelo nariz tudo o que ingere, cantarola sem parar, não ganha nada em seu trabalho, além de ser selvagem e bruta na cama, o que não acho que seja tão mal assim, hehehe.

Um filme que começa bem, com muito do humor de banheiro e sujeitos pra lá de bizarros, lembrando os bons tempos de Débi e Lóide (1994) e Quem Vai Ficar com Mary?. No entanto, sem os mesmos tipos mais simpáticos de Ligado em Você (2003, sim, eu gosto desse filme, hehehe) ou Amor em Jogo (2005), cede a uma misoginia intolerável por parte do personagem de Ben Stiller, especialmente quando este se interessa por outra e bem mais adorável hóspede do hotel (Michelle Monaghan) e passa a desprezar ainda mais a mulher, mesmo quando ela é capaz de demonstrações de afeto. E vai perdendo o gás em situações mal-amarradas e piadas repetitivas, com muitos elementos cômicos já vistos em outros filmes dos Farrelly, como os cantores mexicanos que aparecem para o casal nos momentos mais inconvenientes (tais quais os cantores chatos de Quem Vai Ficar com Mary?) ou piadinhas/pegadinhas do tipo “I got you!” (presentes em todos os filmes dos irmãos), mas aqui sem a mesma graça ou timing, e, aos poucos, o Eddie de Stiller vai se mostrando o que é de fato: um tipo mentiroso, covarde e cafajeste, algo confirmado na cena final. É muito difícil ter simpatia por alguém assim. Lamentável.

terça-feira, novembro 13, 2007

A Via Láctea

(Brasil, 2007)



“Seguir em linha reta em direção a tudo o que amamos” é o mote deste literário e pouco cinematográfico A Via Láctea, segundo e que se quer sensorial trabalho na direção da clarinetista Lina Chamie (Tônica Dominante, 2001). No entanto, o filme segue torto, torto, com o engarrafamento paulistano e as mazelas sociais que encontra pelo caminho servindo de óbvia metáfora para o desespero existencial do protagonista Heitor (Marco Ricca), professor de literatura e literatices, que, após ter rompido com a bem mais jovem namorada por telefone (Alice Braga), decide ir ao encontro dela de carro para tentar reatar. No entanto, a longa viagem pelas entupidas avenidas de São Paulo torna tudo mais difícil e dispara nele uma série de recordações felizes ou infelizes. Além disso, o que é pior, Chamie pavimenta o caminho de Heitor com óbvias e muito pretensiosas citações literárias e musicais, como o início de A Morte e a Donzela, de Schubert, mesclada aos primeiros versos de A Divina Comédia, de Dante Alighieri, mescla já feita melhor e de modo idêntico por Robert Guédiguian em Marie-Jo e Seus Dois Amores (2002). Assim como na utilização da Lacrimosa do Réquiem K626 de Mozart, obviamente evocada quando há morte e tristeza no ar, algo já visto ou ouvido inúmeras vezes em Elizabeth, Amadeus, O Dia da Caça e tantos outros filmes. Também há poemas de Carlos Drummond de Andrade, do livro Claro Enigma, Manuel Bandeira e de Mario Chamie, pai da diretora. E um final mais do que óbvio e esperado. Uma pena, porque nas cenas em que se ouve o pizzicato do movimento intermediário da Sinfonia em Ré Menor de César Franck há certa beleza, soterrada no entanto por mais uma metáfora literária pretensiosa, forçando na poesia barata que quer buscar uma transcendência universal a todo custo, como aquela da luz das estrelas que se extinguiram mais que ainda viaja pela Via Láctea, que é também a imensidão de luzes dos faróis dos carros parados à noite no engarrafamento. Oh, que poético!

segunda-feira, novembro 12, 2007

Leões e Cordeiros

(Lions for Lambs, EUA, 2007)



Um jovem senador republicano com ambições de concorrer à presidência americana (Tom Cruise, também produtor), um falcão na verdade, apresenta a uma jornalista veterana (a sempre formidável Meryl Streep), em entrevista exclusiva, sua nova estratégia para combater o terror wabbista do Talibã, desta vez mandando soldados para um ponto montanhoso e estratégico do Afeganistão, quase na fronteira com o Irã. Enquanto conversam, a nova ação de “Choque e Pavor” já está sendo implementada pelo exército americano. No entanto, subestimando o poder de fogo do inimigo, como sempre, o helicóptero que transportava o pelotão é alvejado e dois soldados (Derek Luke e Michael Peña) caem feridos nas gélidas montanhas e são encurralados pelo Talibã. Os dois eram alunos de Stephen Malley (Robert Redford), um professor universitário idealista que tenta inspirar outro dos seus alunos mais promissores (Andrew Garfield), que andava um tanto preguiçoso e ausente das aulas, a fazer algo pelo seu país por meio de debates e participação mais ativa na política. Mas não se engajando diretamente na guerra, como fizeram os outros dois soldados e que, agonizantes, aguardam o cada vez mais improvável resgate sob forte tiroteio. E a estatégia do senador vai escorrendo pelo ralo, enquanto a jornalista, um tanto cética, tenta decidir se leva ou não ao ar o conteúdo da entrevista. Basicamente, em três momentos que transcorrem paralelamente, uma grande discussão em torno das responsabilidades americanas pós-11 de setembro na mídia, na política, na própria sociedade do país, indiferente em relação ao resto do mundo, e no combate ao terror e suas conseqüências devastadoras até agora, sobretudo para a imagem da América, a “Roma em chamas”. Um boa discussão, no entanto, incisiva em vários momentos, e ótima direção de atores, apesar do tom predominantemente discursivo e demonstrativo, que redundam em imagens que reafirmam o que já foi dito no diálogo ou na cena anterior, neste que, ainda assim, é o melhor filme do convencional Robert Redford (Gente Diferente, Rebelião em Milagro, Nada é para Sempre, Quiz Show) como diretor. Definitivamente estamos de volta aos anos 70, em que o cinema, mesmo o hollywoodiano, não se furtava em falar abertamente de política estando em sintonia com o momento atual. Até a clássica United Artists, produtora do filme e bem forte naquela época, foi trazida de volta depois de amargar um tenebroso ostracismo.

sexta-feira, novembro 09, 2007

O Petróleo é nosso! O Cinema também!



Se for confirmada, com a descoberta da sua maior bacia petrolífera no litoral paulista, o Brasil vai se tornar enfim não só um dos maiores produtores de petróleo do mundo (Chupa, Chavez!), mas também de filmes. Todos, claro, pagos pela Petrobrás no Baixio das Bestas de Brasília 18% (da propina). Bollywood já era. Hollywood e o imperialismo yankee, coitados... É hora de inchar mais ainda de funcionários e burocratas aquela já bem balofa Secretaria do Audiovisual ou construir uma nova e faustosa sede superacessível a todos em Bruxelas ou Londres ou Nova Iorque. Quanto aos filmes, já imaginaram que show formidável: finalmente Cinderela Baiana vai ter aval do Ministério da Cultura para uma continuação e/ou preqüela, assim como Ó Paí Ó. Guilherme Fontes vai enfim concluir o seu polêmico Chatô. Vai ter dinheiro de sobra para mais um sensacional Acredite! Um Espírito Baixou em Mim. Acreditem! Ou para a volta/regresso/transtorno da Irma Vap. Todos os filhos do Francisco terão também a sua cinebiografia. Daniel Filho fará o seu épico sobre as patricinhas tesudas da Barra da Tijuca e de Miami regadas a caipiroska, estrelado pelo Fábio Assunção. E a Xuxa não vai mais sair das telonas, assim como o Renato Aragão, a Sandy e o Júnior (ou só a Sandy ou só o Júnior), o Padre Marcelo e a Eliana com os botos e o botox emprestados da Angélica. Ou a família Barreto. E Chorão terá o seu O Magnata transformado em cinessérie. Chorei! Podecrer! 1, 2, 3, 4... Cacá, Jabor, Odiquê! Eu não conhecia Tururu. Mais do mesmo: ditadura, ditadura, ditadura. E o Araguaya sem conspiração do silêncio. A tchurma mucho lôca da Concepção de volta para aprontar novos agitos e confusões. Plim-Plim. É a chance também de Norma Bengell lançar em DVD o seu tão injustiçado O Guarani remasterizado, widescreen, edição quíntupla Deluxe, com milhares de extras, comentários em áudio do Rubinho analisando a pele e o penteado dos índios, tudo embalado num luxuoso estojo em forma de cocar. Com tanta bufunfa, até Sganzerla ressuscitaria para rodar mais uma ficção documental sobre a visita de Orson Welles ao Brasil. É tudo verdade! Sem contar os inúmeros curtas de idéias curtas ou documentários que ninguém vai ver, mas que já estarão devidamente pagos pelos cofres do Bananão, versando sobre tocadores do boi-bumbá, farofeiros de Santos, mestres capoeiristas do ABC, surfistas desnudos da Paraíba, playbas e tesudas do Cambuí campineiro e dos Jardins, os anões da periferia de Nova Iguaçu, os sacoleiros de Foz do Iguaçu, as tribos paulistanas descoladérrimas, como os japas do rap do metrô Conceição, os maconheiros de Itapuã, os cervejeiros do Amapá, os artesãos de panelas e estatuazinhas rústicas de argila do Vale do Jequitinhonha, as bruacas e barangas de Barueri, os puxadores de escolas de samba da Vila Isabel, os garis e guris de Belford Roxo, os fogueteiros do morro do Pau da Bandeira e do Jacarezinho, os cariocas descamisados, os paulistanos acelerados, os baianos suados e sarados correndo nus pelo Pelourinho ao som do Olodum e da Ivete. A nudez dionisíaca-exu do Zé Celso, os trombadinhas da Cinelândia e da Cracolândia, as putas grávidas da Augusta e do Itatinga, os jangadeiros e boleiros e o Zeca Baleiro. As cerzideiras hermafroditas de Joaquim Egídio, os roceiros albinos do Oiapoque, os travecos telúricos dos bosques das Campinas das andorinhas e dos Jequitibás, além de mais uma leva daqueles docs urgentes sobre músicos e compositores da MPB, mostrando o vigoroso comuna Jorge Mautner de sungão vermelho praticando escalas dissonantes arrebatadoras com o seu violino (e outros instrumentos...), ou o making of do pornô da Rita Cadillac com o Alexandre Frota e a Gretchen ou ainda a Pedrinha de Aruanda num brunch bem baiano na casa de Dona Canô com seu irmão Caê, etc. Tudo isso filmado através do olhar de publicitário sensível de cineastas ricos, riquíssimos, mas com consciência social, está claro. Mas é bom que sobre algo desse arrego todo para mais um Tropa de Elite, porra! Depois ficam aí reclamando na caixa de comentários que este blogue não fala de cinema, muito menos do brasileiro, tsc, tsc...

quinta-feira, novembro 08, 2007

Valente

(The Brave One, EUA, 2007)



Excelente filme de justiceiro às antigas, aqui vivido por uma mulher, uma radialista nova-iorquina, Erica Bain (Jodie Foster), que num passeio noturno no Central Park com o namorado (Naveen Andrews, de Lost), ambos são brutalmente agredidos por arruaceiros. Latinos, claro, que gravam tudo em vídeo e ainda roubam o cachorro do casal. O namorado morre. Ela entra em coma. Quando desperta, com medo da cidade que antes lhe parecia segura e cheia de poesia em cada esquina, passa a andar armada, embora nunca tenha atirado com uma pistola antes. E passa a disparar em delinqüentes que flagra em assaltos ou que tentam molestá-la no metrô. E, pior, passa a gostar. Tanto que, como não consegue dormir à noite, anda pelos lados escuros da cidade como se procurasse motivo para atrair e, em seguida, alvejar criminosos. Um policial (Terrence Howard, de Crash e No Ritmo de Um Sonho), divorciado, um tanto desiludido com o sistema e fã do programa de crônicas poéticas que ela apresenta sobre a cidade, investiga essa súbita onda de homicídios. Sem suspeitar, fica até fica amigo dela. Uma hora, amigo até demais.

Interpretações perfeitas da dupla de protagonistas, que carregam o filme e ajudam a tornar situações improváveis verossímeis, e um final cínico, mas certeiro, num trabalho em que o diretor Neil Jordan (Traídos pelo Desejo, Um Lance de Sorte), sem meios tons, entrega o que promete em tensas seqüências noturnas e não tem medo de parecer anacrônico nesta era de falação politicamente correta ou de relativização de ações criminosas que, no entanto, nos deixa como legado sombrio a Bósnia, o Kosovo, o Iraque, Ruanda, Darfur e, horror dos horrores, a revistinha CartaCapital, enquanto discute-se o que deve ou não ser dito ou mostrado na TV ou escrito ou filmado de forma a não ofender sensibilidades alheias, essas em geral à esquerda. Como um Fritz Lang ou um Samuel Fuller, ao atiçar os baixos instintos da platéia, que, evidentemente, torce pela heroína de moral discutível, que a cada nova morte perpetrada torna-se mais e mais segura e confiante de que é capaz de aplicar por si só a condenação e a pena capital longe da polícia e dos tribunais, desafiando-os até, como na cena em que entrevista o policial sobre seu próprio crime, Jordan desanca sem medo de ser feliz essa outra mentalidade da patota ideológica também muito discutível de nossos tempos de indefinições múltiplas, de dizer tudo para nada dizer num impasse geral sobre tudo e todos. Enquanto isso, em Darfur...

quarta-feira, novembro 07, 2007

O Passado

(El Pasado, Argentina/Brasil, 2007)



O problema principal desta boa, mas parcial, adaptação do livro de Alan Pauls a cargo de Hector Babenco (que aqui faz uma ponta como um projecionista negligente), é justamente o seu protagonista, Gael García Bernal, queridinho da última Mostra de SP, onde marcou presença com três filmes. Na estória, narrada por meio de elipses, ele muda de mulher, as mulheres ao redor dele mudam, as situações mudam, mas ele continua com a mesma cara de moleque boboca na pele do tradutor e intérprete Rímini, que, após 12 anos, separa-se da mulher, Sofía, sua paixão de adolescência, conforme atestam fotografias antigas em determinado momento da narrativa. Paixão que se estendeu por tempo demais. Mas, não para ela. Logo, encontra uma substituta, uma modelo muito ciumenta. Mas, logo, logo, ela também sai da sua vida, de maneira abrupta. Arruma outra substituta, a racional Carmen, uma colega da faculdade e também tradutora. Com ela, a relação parece que vai amadurecer, pois têm um filho. Mas Sofía reaparece, como uma presença ameaçadora, dando ao filme ares de suspense, pois é visivelmente desequilibrada, e o passado, que tenta esquecer, insiste em pairar ao seu redor, levando Carmen, por causa de um incidente estúpido, a também cair fora da relação com o filho junto. E tudo outra vez de forma abrupta e mal-resolvida. Rímini entra em depressão e aprofunda a sua afasia, antes manifestada aqui e ali em lapsos de linguagem nas conferências que ajudava a traduzir. Ou seja, desaprende de vez as outras línguas que dominava, como o inglês e o francês. Também desaprende a se comunicar com o mundo, isolando-se. Até Sofía e seu passado reaparecerem, de novo, desta vez de maneira decisiva. Ou quase.

Visualmente elegante e de ritmo compassado, mas que, apesar de todas as obsessões e paixões envolvidas e revolvidas na trama como velhas e insistentes feridas, soa frio e inconsistente, dissolvendo-se nos tons neutros demais da fotografia muito composta em seus enquadramentos que se querem estilosos e que engessam o filme, limando também parte do senso de humor e das ironias que havia no livro. E também pelas limitações óbvias de Gael. A burrice de seu personagem certa feita chega a ser inacreditável e inaceitável.

Os Bravos e os Broncos da Mostra SP



1. Javier Bardem em Onde Os Fracos Não Têm Vez, dos Brothers Coen.



2. Viggo Mortensen em Senhores do Crime, de David Cronenberg.



3. Tommy Lee Jones em Onde Os Fracos Não Têm Vez.



4. Kurt "Stuntman Mike" Russell em À Prova de Morte, de Quentin Tarantino.



5. Jodie "Vigilante" Foster em Valente, de Neil Jordan.

terça-feira, novembro 06, 2007

Desejo e Reparação

(Atonement, Reino Unido/França, 2007)



Apesar da temática trágica, um grande filme para este grande, enorme, magnífico, gigantesco, glorioso dia sob o céu de York, levando para longe o inverno e as nuvens carregadas de nosso descontentamento cotidiano. Ao menos, por um dia. Espero. Baseado em romance prestigioso de Ian McEwan (que também é produtor-executivo, reforçando a fidelidade à sua obra original), finalista do Booker Prize, Nobel, etc., numa ambientação precisa, mas sem ceder aos exageros comuns a muitos dramas de época, como o apego excessivo aos detalhes, figurinos, talheres, porcelanas, etc., o diretor Joe Wright (do excelente Orgulho e Preconceito, 2005) consegue aqui o raro equilíbrio entre o rigor detalhista da produção de época e o intimismo dos melhores e mais sofisticados dramas literários de James Ivory, como Retorno a Howards End (1992) e Vestígios do Dia (1993). Com uma câmera fluente, em justos travellings, da mesma maneira que em Orgulho e Preconceito, no início, passeia elegantemente pela propriedade do casarão inglês campestre onde Briony Tallis (Saorsi Ronan), a imaginativa irmã mais nova de Cecilia (Keira Knightley), está terminando de escrever a sua mais recente peça de teatro, que encenará na aristocrática reunião familiar, com ensaios marcados e tudo com os primos e coleguinhas. O período antecede a segunda grande guerra. Ou seja, tensão no ar, especialmente a sexual. E a chegada dos familiares e amigos a casa, bem como a presença do menos abastado filho da governanta, o universitário Robbie (James McAvoy), por quem Briony sempre nutriu certa afeição, apesar de ele ser apaixonado desde a infância por Cecilia, só a acirra. Numa noite, Briony flagra Cecilia com Robbie num enlace amoroso e, depois, num incidente envolvendo suposto abuso de uma das primas, Robbie, o mais pobre, num mal-entendido, leva a culpa por conta de Briony, que, alimentada por outros mal-entendidos e por sua imaginação pra lá de fértil, devotada ao drama, acaba acusando-o injustamente, o que vai custar caro para ambos. E também para Cecilia. E, pior, muito mais difícil de ser reparado naquela sociedade inglesa de classes sociais fortemente marcadas e de desejos ocultos em choque com uma moral ainda muito repressora. Com a eclosão da guerra, Robbie, separado de Cecilia, agora enfermeira, para não ser preso, vai para o front, mas como simples soldado, sem patente. E Briony, culpada, passará o resto da vida tentando corrigir a injustiça. Primeiro, como enfermeira (agora interpretada por Romola Garai), assistindo os inúmeros feridos, depois como escritora.

A escrita jamesiana de McEwan, ora delicada, ora de texturas sombrias, ora um tanto empolada, mas sempre fluente, ganha tradução plena e enxuta graças ao excelente roteiro de Christopher Hampton (Ligações Perigosas, 1988, Carrington, 1995), em momentos como no soberbo plano-seqüência da retirada das tropas de Dunquerque do ponto de vista de Robbie e seus colegas soldados no meio de toda a devastação da guerra, evitando, no entanto, a barulheira das batalhas, concentrando-se mais em seus efeitos. Outros, como na ensolarada primeira parte, que envolve os flertes entre Cecilia e Robbie e toda a tensão sexual latente entre eles, são reencenados sob diferentes ângulos e pontos de vista, além dos furtivamente presenciados por Briony. Mas nenhuma cena, por mais simples que seja em sua enunciação, é mais devastadora que a da reviravolta final, agora a cargo de Vanessa Redgrave como a Briony madura que, ao fazer a tardia reparação, finalmente sela o destino de todos. Dela, de Vanessa, não é preciso dizer muita coisa. É brilhante, como sempre. Mas é o elenco jovem que se destaca, sobretudo McAvoy e Ronan, como a menina inteligente, precoce, que, no entanto, não consegue articular a sua frustração, que vira raiva, depois culpa, neste filme envolvente, quase silencioso, conduzido serenamente por Wright, que nunca escorrega para as facilidades do melodrama. E que muito menos é friamente calculado ou “acadêmico”, como insistirão alguns, correndo-se o risco de cometer outra injustiça com este belo trabalho, além daquela que perdura por décadas na trama.

segunda-feira, novembro 05, 2007

Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto

(Before the Devil Knows You’re Dead, EUA, 2007)



Um assalto fracassado a uma pequena joalheria no subúrbio novaiorquino. Em seguida, em vários desdobramentos, o filme recua para mostrar em diferentes perspectivas como o que parecia um crime comum acabará, na verdade, deflagrando uma tragédia familiar, de ressonâncias bíblicas, envolvendo especialmente dois irmãos co-responsáveis pelo roubo: o inseguro e enrolado Ethan Hawke e o seguro até demais (e também enrolado) Philip Seymour Hoffman. E também o patriarca (Albert Finney, soberbo), claro. A cada flashback, o caldo engrossa. É o veterano Sidney Lumet, em direção firme, incisiva e elegante, amarrando os vários pontos sem atropelos e, sobretudo, de volta aos bons tempos de Serpico (1975) e Rede de Intrigas (1976), num ótimo filme, que ainda traz Marisa Tomei, como a esposa insatisfeita de Hoffman, mais gostosa do que nunca.

sábado, novembro 03, 2007

Esse faria até o Capitão Nascimento desistir!

Com Javier Bardem como Anton Chigurh, definitivamentes os velhotes não têm vez. Menos o "velhote" do Tommy Lee Jones. E menos ainda o "velhote" do Cormac McCarthy. Sensacional!

quinta-feira, novembro 01, 2007

Senhores do Crime

(Eastern Promises, Reino Unido/Canadá/EUA, 2007)



“Às vezes, na minha profissão, vida e morte vêm juntas”, é o que diz, em sentença emblemática, a enfermeira londrina interpretada por Naomi Watts a Nikolai (Viggo Mortensen, excelente), um motorista enigmático e guarda-costas da família de uma organização criminosa russa conhecida como Vory v Zakone e chefiada pelo patriarca Semyon (Armin Mueller-Stahl). Ao ajudar no parto de uma desconhecida adolescente russa, que morre ao dar à luz, sem intenção, descobre por meio de um diário encontrado nas coisas da menina, provas que incriminariam membros da família russa. O bebê sobrevive. Ela, também descendente de russos, após a recusa do tio, ingenuamente pede para Semyon traduzir o diário. Mete-se numa encrenca daquelas, pondo em risco a sua vida, a de sua família e a do bebê.

Aqui, David Cronenberg mostra que, ao contrário de seu trabalho anterior (mas sem contradizê-lo), o magistral Marcas da Violência (2005), o “histórico” de violência de um indivíduo como Nikolai, pertencente a essa seita do crime, cheia de códigos bem marcados, sobrevivendo num mundo à parte, numa Londres ameaçadora em cada fachada, não está oculto sob um falso nome, numa nova vida, sobre um passado violento que, mesmo enterrado, ressurge. Está lá impresso na forma de tatuagens, comuns entre os criminosos russos. Está, de cara, na superfície. Antes, o horror se ocultava diante da aparência de uma vida supostamente imaculada. Aqui, a aparência é marcada por horrores tatuados, depois por hematomas, materializados e intensificados à maneira de Cronenberg e seu "body horror", que pontua o filme, de andamento no todo plácido, embora carregado de tensão, com cenas de violência extrema, direta, sempre perturbadoras, como mutilações, perfurações, facadas, socos em que se ouvem os ossos quebrando ou esmagando e lacerações profundas na garganta. E também, graças a um roteiro coeso e enxuto, carrega como ninguém na ambigüidade dos personagens, especialmente em relação a Nikolai, a princípio um oportunista, a Seymon, a principio um velho avô simpático, e seu filho Kyrill (Vincent Cassel), a princípio, um sujeito agressivo e psicótico. Mas, só a princípio. Um filme rigoroso nos detalhes do dia-a-dia desses criminosos e apoiado por um elenco extraordinário resulta num trabalho de mestre. Simplesmente um dos melhores filmes do ano, do diretor de A Mosca (1986), Gêmeos – Mórbida Semelhança (88) e Mistérios e Paixões (91), entre outros, aqui num registro mais clássico, mas tão incômodo quanto em seus trabalhos mais gore.

Go Go Tales

(Itália/EUA, 2007)



Um Abel Ferrara num registro mais cômico, menos denso que Maria (2005), por exemplo, e cuja atmosfera lembra as produções noturnas que habilmente dirigia nos anos 80, como Cidade do Medo (1984) e O Rei de Nova Iorque (1990). Sem a violência extrema desses filmes, está claro. Aqui, devendo muito (mas muito mesmo!!!) ao John Cassavetes de A Morte de um Bookmaker Chinês (1976), conta, muito no improviso e durante uma noite, os apuros de um dono de uma casa de strip tease de Nova Iorque financeiramente quebrado (Willem Dafoe), mas que mantém o cada vez mais insustentável vício de apostar grandes quantias de dinheiro na loteria, mesmo já não recebendo muitos clientes na sua espelunca. Já não tem mais dinheiro nem para pagar as suas garotas estrangeiras, todas elas com altas pretensões artísticas e que ameaçam entrar em greve. Também se encrenca com seus sócios, entre eles o irmão oxigenado (Mathew Modine), um dos gerentes, The Baron (Bob Hoskins), e, sobretudo, com a exaltada proprietária do imóvel (Sylvia Miles), que quer expulsá-lo de lá para dar lugar a uma loja de departamentos. Aposta todas as fichas no próximo sorteio da loto para levantar o lugar. Isso se conseguir encontrar depois o bilhete supostamente premiado!

Engraçado e ao mesmo tempo melancólico, pontuado por várias cenas das garotas se despindo ou exibindo outros “talentos” em cena, como a stripper “roteirista” interpretada por Steffania Rocca, que consegue financiamento para seu roteiro cinematográfico bem no meio de uma sessão privada de lap dance, filme que se passa quase que inteiramente dentro do cabaret, um ambiente ideal para transformar as mulheres em fetiches, obsessão de Ferrara. Tem também como grande trunfo a interpretação marcante de Willem Dafoe como um tipo um tanto patético, às vezes ingênuo, mas cujo carisma e certo idealismo mantêm o lugar, o clube Paradise, funcionando acima das dificuldades financeiras, além de interligar todas as figuras insólitas que lá orbitam, desde o cozinheiro especializado em cachorros-quentes orgânicos a uma dançarina que se exibe no palco com um rottweiler (Asia Argento), conduzindo todos a um final pra lá de irônico.

quarta-feira, outubro 31, 2007

A Retirada

(Disengagement/Désengagement/Hitnatkoot, Israel/França/Alemanha/Itália, 2007)



Em Kedma (2002), possivelmente a obra-prima de Amos Gitai, tratava-se da conquista da Palestina pelos judeus desterrados pelo Holocausto e pela guerra. Em Kippur (2000), tratava-se de mantê-la durante a guerra do Yom Kippur. Neste A Retirada, trata-se da desocupação de parte dela. No caso, da recente retirada unilateral dos colonos judeus assentados na faixa de Gaza. Sob a superfície, os efeitos dessa decisão do então primeiro-ministro Ariel Sharon na vida pessoal dos envolvidos, em especial numa francesa de origem israelense (Juliette Binoche) e em seu irmão adotivo, o sabra Uli (Liron Levo), oficial do Exército israelense encarregado da desocupação, que não deixa de ser dolorosa, pois agora são judeus evacuando judeus. Morando na França, com a morte do pai, ela descobre o paradeiro da filha que tivera durante a adolescência num kibbutz e que hoje é professora em Gaza. Depois do funeral, parte com o irmão para Israel. E, no meio da desocupação, em meio a bloqueios e dificuldades burocráticas, além do caos e clima de tensão, ela reencontra a filha num abraço dos mais tocantes. Ao mesmo tempo, em elaborados travellings laterais e planos-seqüência, marca registrada do diretor, a desocupação é mostrada num tom seco, cirúrgico, quase documental, que tende a reabrir novas feridas, desta vez entre os israelenses. Antes, na casa de Binoche, em Avignon, num belo momento no velório do pai, a soprano Barbara Hendricks entoa um trecho de “Das Liede von der Erde”, de Gustav Mahler, que falava, entre outras coisas, do caráter efêmero do homem neste planeta, para além das fronteiras artificiais de nacionalidade, algo que é discutido antes no trem, durante a viagem de Uli a Avignon, com uma palestina (Hiam Abbas, de Free Zone e Munique) que encontra no corredor do vagão e por quem se enamora, neste que é mais um belo e doloroso trabalho deste prolífico diretor israelense, que mostra também que, fora de Israel, uma palestina e um judeu conseguem se entender muito bem, ainda que por poucos minutos, pelo breve flerte que têm. O que não acontece aqui entre os israelenses, sempre tensos e exaltados. E que traz também Juliette Binoche linda, nua e, ao menos na primeira parte, bem mais alegre e sorridente do que nos filmes chororô anteriores que têm protagonizado.

terça-feira, outubro 30, 2007

I'm Not There

(EUA/Alemanha, 2007)



Poética. É palavra incontornável e difícil de tirar da cabeça depois de se assistir a essa deslumbrante cinebiografia anticonvencional, fragmentada, de Bob Dylan, o trovador judeu da América profunda. Homem de muitas fases, nomes e, principalmente, faces. Não à toa, ele é interpretado aqui por vários atores, em diferentes texturas e colorações de película, desde a infância como um menino negro prodígio no blues, viajante clandestino nos vagões de carga pelo interior dos EUA (Marcus Carl Franklin), poeta beatnik e homem de família (Heath Ledger), “homem” de Londres (Cate Blanchett), no divertido e rápido encontro com os Beatles, pregador evangélico (Christian Bale) até a participação como um fora-da-lei (Richard Gere) no western crepuscular de Sam Peckinpah, Pat Garret e Billy the Kid (1971), como cowboy da contracultura, sem raízes, sem nome, à margem de tudo e de todos e sempre viajando sem rumo (“No Direction Home”). Por isso, a imagem da estrada, do trem rasgando as pradarias, algo tão americano, é sempre recorrente neste trabalho de Todd Haynes (Velvet Goldmine, Longe do Paraíso). Mas, é a banda sonora, obviamente rica de composições e poemas de Dylan, que conduz o filme por seus diferentes estágios e caminhos, de maneira nunca linear, sobrepondo o homem ao mito junto ao turbulento contexto político dos anos 60 e 70. Para ser visto, ou melhor, sentido várias e várias vezes.