quarta-feira, março 05, 2008

A Era da Inocência

(L'Age des Tenebres/Days of Darkness, Canadá/França, 2007)



Com algumas delirantes, outras nem tanto, fantasias envolvendo a bela Diane Kruger e o cantor Rufus Wainright, Jean-Marc (Marc Labréche) preenche seu cotidiano vazio de funcionário público franco-canadense de classe média desprezado pela mulher workhalic e pelas duas filhas que não largam de seus iPods e telefones celulares. Fantasias também um tanto vazias. A era das trevas do título original, oculta sob a estúpida tradução nacional, é a assunção da estúpida era das celebridades, da exposição contínua da vida privada e do conformismo e resignação da classe média e de sua limitada imaginação a ela, anuncia com toda a superioridade que lhe é característica o diretor Denys Arcand, dando um fecho aqui um tanto apressado e monocórdico ao falatório intelectualizado dos super-aclamados O Declínio do Império Americano (1986) e As Invasões Bárbaras (2003), pois Jean-Marc, no fundo, não passa de um pulha também, que não ajuda nenhum dos desvalidos que vêm lhe pedir auxílio na repartição pública onde trabalha e não há muito que fazer para ele ou para a sua vidinha a não ser continuar se refugiando neste seu universo paralelo. E assim o filme, ainda que com bons momentos, como a encenação de uma justa medieval em pleno século XXI, a mesma câmera fluida dos trabalhos anteriores de Arcand e o seu pungente final clamando uma silenciosa volta de Jean-Marc às origens, se mostra tão vazio quanto os sonhos de seu protagonista malinha, o que talvez não represente nenhum descompasso em relação às intenções do diretor. O vazio, o vazio, e os cacos ou as maçãs depois... ah, esses canadenses. Têm de tudo, se dão ao luxo de brincar de Ivanhoé vez ou outra e vivem reclamando. Humpf!

6 comentários:

Ailton disse...

O protagonista é um dos amigos do moribundo de AS INVASÕES BÁRBARAS? São os mesmo personagens? Eu sou um dos defensores do INVASÕES...

Lorde David disse...

Não. Os de As Invasões Bárbaras eram acadêmicos e profesores universitários que teorizavam sobre tudo. Até sobre trepar, hehehe. Aqui é só um funcionário público que prefere dar vazão a sua imaginação limitada em vez de verbalizar. Nem os atores são os mesmos, se não me engano. E eu gosto de As Invasões, mas acho mais divertido O Declínio. Vi os dois em seqÜência, quando passaram no cinema.

miltondoprado disse...

Existe somente um personagem do Invasões / Declínio numa participação rápida, consultando o personagem principal num caso de perseguição da ex-mulher.

Tula disse...

Me interessei por esse filme depois que li sobre ele no jornal O Estado de SP....achei a história muito boa!!! Ainda não assisti...mas já está na minha lista.

Bjsss...

Marcelo V. disse...

Argh, acho o Arcand um saco. A melhor coisa de "Invasões" é justamente o plano do 11 de setembro...

Lorde David disse...

Valeu pela informação, Milton. Mas acho que a cena serve só para estabelecer uma tênue ligação em comum com os outros filmes, já que o núcleo de personagens aqui é outro.

Assista, Tula, mas lembre-se que o Estadão exagera na admiração a filmes como esse, típicos de Mostra.

E o plano nem foi ele que filmou, não é mesmo, Marcelo? Hehehe.

Abraços a todos.