quinta-feira, julho 19, 2007

Léolo

(Canadá/França, 1992)




A vida não se passa na terra, mas na minha cabeça.
(de Réjean Ducharme, in "L'Avalée des Avalés")

O segundo e derradeiro filme do canadense Jean-Claude Lauzon, falecido em 1997 num acidente de avião, é uma pequena jóia que mistura memórias infantis com realismo mágico, uma meditação poética sobre a infância perdida e os estranhos mundos que habitam a imaginação. Bizarro, lúbrico, mas afetivo e belissimamente fotografado, com especial talento para filmar as palavras, que emanam poesia, conta a trajetória de Leo, ou Léolo, um garoto franco-canadense que, em seus jovens anos de menino, levado pela insanidade familiar, é conduzido para o inexorável caminho da escuridão. Mas antes anota suas iluminadas memórias em páginas soltas, episódicas, recolhidas do lixo por um velho colecionador de objetos afetivos, um tipo quixotesco e que narra o filme, pontuando-o com a leitura do clássico québécois L'Avalée des Avalés, de Réjean Ducharme, livro preferido de Léolo. De maneira onírica e irreverente, suas memórias falam de vida e família. Família, sobretudo, atormentada pela loucura. No mundo de sonhos onde se refugia, Léolo imagina ser um garoto italiano nascido do tomate que carregava o esperma de um camponês siciliano brincalhão. Imagina também, de modo recorrente, em voltar para a Itália, em delírios com a Sicília envolvendo a bela vizinha italiana Bianca, seu primeiro impulso sexual e, sobretudo, seu primeiro amor, ao mesmo tempo “tão perto, tão longe, tão jovem e tão aborrecida”. Mas, num bairro decadente de Montreal, passa mesmo a sua solitária existência entre estranhos infelizes, ainda que da família: o pai operário é obcecado pela saúde dos intestinos e o obriga a evacuar o tempo todo; o irmão mais velho, com quem divide o quarto, humilhado numa briga, torna-se fanático por fisiculturismo; as duas irmãs têm sérios problemas psiquiátricos e mal se comunicam; e o avô, um tipo asqueroso, que contrata jovens como Bianca para roer as unhas de seu pé como fetiche sexual, é que parece carregar toda a responsabilidade pelo fracasso genético da família. Tentou inclusive afogar Léolo na piscina. Sua imaginação ajudou-o, no entanto, a suportar o fardo e a forjar a vingança contra ele, o que o leva também ao hospital psiquiátrico, onde se reunirá novamente com a família, para seu azar e desespero. Somente a gorda mãe parece sã e meiga, suportando as turbulentas águas em casa como um grande navio que navega por ondas tempestuosas sem tombar. Mas o caminho da loucura é mesmo sem volta. Um pouco como C.R.A.Z.Y. (2005) faria mais tarde, sem a mesma inspiração, um triste, mas cativante retrato eivado de poesia de uma criança que decidiu sonhar, porque não vive, “porque não é”, conforme assinala a narração repetidas vezes, acompanhada pela bela trilha de Tom Waits e Gilbert Becaud. E sonhando para sempre, Léolo cala-se só em seu mundo interior.

quarta-feira, julho 18, 2007

O Domínio de Houellebecq



1. O valor de um ser humano é medido hoje por sua eficiência econômica e por seu potencial erótico.
2. Num sistema econômico perfeitamente liberal, alguns acumularão grandes fortunas; outros afundarão em desemprego e miséria. Num sistema sexual perfeitamente liberal, alguns irão experimentar uma variada e excitante vida erótica; outros serão reduzidos à masturbação e à solidão.

(...)

O amor como inocência e capacidade de iludir, como aptidão para resumir o conjunto do outro sexo a um só ser amado, raramente resiste a um ano de vagabundagem sexual, nunca a dois anos.

Michel Houellebecq,
in Extensão do Domínio da Luta, livro adaptado para o cinema em 1999, na França, por Philippe Harel, que também interpreta o protagonista. Em breve nos cinemas (ou a qualquer hora, no e-mule), a adaptação alemã de As Partículas Elementares, por Oskar Roehler. Para calar a boca dos emo(rróida)s de aujourd'hui!

Só a Mulher Peca

(Clash by Night, EUA, 1952)



Mesmo não sendo a mais bonita do star system hollywoodiano dos anos 40 e 50 (a latina Rita Hayworth é hors concours), a diva Barbara Stanwyck sempre foi para mim uma mulher sexy direto das sombras do passado. Não à toa perturbou o bom moço Fred MacMurray, ao aparecer coberta apenas por um lençol e com o cabelo platinado em Pacto de Sangue (1944), de Billy Wilder. Ou, em Bola de Fogo (1941), de Howard Hawks, mexeu com o intelecto (e com outras coisas, também) do todo certinho Gary Cooper, com quem já havia trabalhado antes em Adorável Vagabundo (1941), de Frank Capra. Aqui, provoca grandes tormentas, conforme anuncia a seqüência de abertura deste filme do genial Fritz Lang, baseado em peça de Clifford Odets, ao chegar numa vila de pescadores, com as ondas sempre batendo nos rochedos e as nuvens anunciando tempestades. Viúva e arruinada, sem direito a um tostão da herança do falecido marido de Pittsburgh, volta para a casa do irmão pescador. E, com um emurrão do irmão, casa-se com o bondoso e simplório pescador Jerry (Paul Douglas), que cuida do pai doente e que ainda tem que agüentar um tio bêbado que dá conselhos mal-intencionados. Mas o coração ou o desejo dela bate mesmo pelo cínico (e casado) projecionista de cinema Earl (Robert Ryan), amigo de Jerry. Logo no primeiro encontro entre os dois, numa simples troca de olhares na cabine de projeção, percebe-se a atração mútua, o erotismo, o desejo velado. E assim, mesmo comprometida e com uma filha no colo, ela mantém o romance com Earl. Ao descobrir, ou já sabendo há tempos, o bom moço Jerry vira fera, libera sua fúria destrutiva, incontrolável. Como em Desejo Humano (1954), livremente baseado em A Besta Humana, de Zola, um melodrama de tinturas sombrias, com indivíduos que se movem por impulsos bestiais que levam à paixão, ao desespero e ao limite da morte, acionados, claro, pela presença de uma bela mulher, forasteira sofisticada como a Blanche de Um Bonde Chamado Desejo, elemento desestabilizador, num lugar regido, de um lado, pelas leis da natureza, que determina a época da pesca, e, de outro, pela orientação mecânica das máquinas e esteiras que todo dia transportam os peixes para o processamento, filmadas em tons naturalistas, quase como no universo mecanicista de Metrópolis (1927), pressupondo uma ordenação enganosa logo nos primeiros minutos de projeção. No final, prevalece a fúria das ondas. Belamente fotografado, em tons expressionistas, assinatura de Lang, com diálogos mordazes e de forte subtexto sexual, conta ainda com a presença de Marilyn Monroe num papel pequeno e desglamourizado de operária da fábrica local de processamento, cunhada de Stanwyck e fascinada por sua sofisticação de cidade grande.

terça-feira, julho 17, 2007

Cão Sem Dono

(Brasil/Rio Grande do Sul, 2007)




Cão sem raça e sem dono. Um sujeito feioso, largado e doente. Uma bela modelo que inacreditavelmente se interessa por ele. Pelo sujeito, não pelo cão, está claro. Pelo cão, também. Iniciam um relacionamento. A princípio, ele não se interessa muito. Depois, ela fica doente também e some. Ele, então, fica desesperado. E mais doente ainda. Mas um zelador que pinta quadros horrorosos está ali para socorrê-lo. E papai, também, no final das contas. Filme de tempos mortos de Beto Brant e Renato Ciasca, que escancara um certo vazio existencial, angustioso, etc., que parece afligir esses jovens atormentados por volta dos trinta anos. Por conta disso, pelo seu baixo orçamento e pelo fato de quase nada acontecer ao tentar forçar uma naturalidade por meio de diálogos e situações que me pareceram um tanto desajeitadas, elogiadíssimo. Ou vazio, somente, ainda que bem melhor que Crime Delicado (2005), trabalho anterior de Brant.

segunda-feira, julho 16, 2007

Medos Privados em Lugares Públicos

(Coeurs, França/Itália, 2006)



Ao sair do cinema no último sábado, após a sessão deste magnífico trabalho de Alain Resnais, não mais um musical (como Amores Parisienses, 1997, e Pas sur la Bouche, 2003), não mais uma colagem de teorias científicas behavioristas que embasam uma bela estória (Meu Tio da América, 1980), não um filme sobre a memória (Hiroshima, Mon Amour, 1959), não mais uma experiência radical com a descontinuidade do tempo narrativo (O Ano Passado em Marienbad, 1961), mas tão labiríntico quanto, fiquei desconcertado, pensando em quantas vezes não geramos expectativas (falsas) em relação ao outro. Quantas vezes não alimentamos um auto-engano ao acreditar, por um mínimo sinal emitido, que a pessoa com quem compartilhamos certas afinidades no trabalho, no dia-a-dia, na Internet, no gosto por filmes (ou vídeo, no caso), livros, música, não seria a pessoa certa, aquela finalmente a preencher o nosso vazio afetivo de longa data? E alimentamos esse auto-engano por um bom tempo, para, depois da ilusão desfeita, voltar ao ponto de partida, novamente abraçados na solidão, que é persistente como a neve que cai ao longo do filme. Mas convicções são sempre mais fortes. E tendemos a acreditar na imagem, que leva também ao mal-entendido, difícil de ser desfeito. É um pouco o que acontece na estória dos seis personagens deste Coeurs, baseado numa peça teatral do britânico Alan Ayckbour (em quem Resnais se baseou para filmar Smoking/No Smoking, 1993), cujas vidas se entrecruzam de maneira ora prosaica, ora inusitada numa Paris fria, desorientadora e sombria, bem ao contrário daquela panelinha de filme-ônibus turístico (e suuuuperamado, gente!) que é Paris, Te Amo. Aqui, prevalecem os tipos essencialmente solitários, interligados pela fusão da imagem da neve que cai constantemente nas cercanias da Biblioteca Nacional e sobre eles, como forma de pontuar a narrativa e, acima de tudo, causar estranheza. Lá estão um corretor de imóveis (André Dussolier), a moça que trabalha com ele (Sabine Azéma, musa do diretor e muito bela) e a irmã dele (Isabelle Carré); uma cliente do corretor (Laura Morante, de Um Lugar na Orquestra, 2005), seu noivo desempregado, um ex-oficial do exército (Lambert Wilson) e o barman (Pierre Arditi) do hotel onde o noivo vai freqüentemente beber. Além disso, à noite, a corretora toma conta do pai doente do barman, um velho difícil, mas que ela, como cristã recém-convertida e capaz de perdoar a tudo e a todos, decide encarar, ainda que a sua maneira. Um tanto heterodoxa, mas eficaz. Ainda nas relações que se estabelecem (ou se desfazem) neste filme mosaico intimista, ela empresta ao colega da imobiliária onde trabalham uma fita de videocassete aparentemente inocente, com a gravação de um programa religioso, mas que, após o programa, revela um trecho de cenas pornográficas, que o faz acreditar que ela está mandando-lhe, por trás da bizarrice, um recado amoroso indireto, ao mesmo tempo em que a sua irmã busca um encontro às escuras e encontra o noivo desempregado e que está deixando a companheira. Tudo engano, claro. E tudo com humor à principio, depois com um persistente sentimento de melancolia, evidenciado pela neve que invade literalmente o apartamento do barman no final, correspondendo aos sentimentos dos personagens. E no meio do frio e de seu rigoroso formalismo, Resnais faz vibrar em belíssimas imagens a humanidade de todos. Que é intensa e desesperançada e acompanha a gente muito tempo depois de se encerrarem os créditos. Talvez o pecado maior seja acreditar demais no outro. Très extraordinaire!

sexta-feira, julho 13, 2007

Short List

Nunca fui muito fã de listas. Nem sempre entendia por que um livro ou um filme era melhor que o outro e posto numa hierarquia que ignorava todo o resto dos que ficavam de fora e que poderiam ser tão bons ou até melhores que os escolhidos como muito bons. E há sempre aqueles livros ou filmes que, por piores que fossem para o resto da humanidade culta, sempre podiam chamar a minha precária atenção para uma cena ou uma frase perdida no meio da página, blá-blá-blá. Mesmo assim, decidi aceitar o desafio da Alessandra Marucci, seguindo recente corrente literária da blogolândia, e fazer a lista dos livros que mudaram a minha vida, se não para sempre, ao menos por alguns instantes (lágrimas). Ecco:

O Segredo, de Rhonda Byrne
O Alquimista, de Paulo Coelho
Homens São de Marte, Mulheres São de Vênus, de John Gray
O Monge e o Executivo, de James C. Hunter
As Cinco Pessoas que Você Encontra no Céu, de Mitch Albom

E tantos outros que me ajudaram a descobrir “quem somos nós”, de acordo com a Lei da Atração, e fizeram a fama, a glória e a fortuna de seus autores (e só deles), etc.

Brincadeirinha. Agora, a lista séria, canônica e definitiva (empino o nariz, ergo a sobrancelha, coloco a peruca), ou nem tanto, já que muitos de que gosto, pra variar, ficaram de fora, como Vidas Secas, A Ilha do Tesouro, Dom Casmurro, Orgulho e Preconceito..., mas seleção é corte mesmo, fazer o quê. Voilà, sem ordem de preferência (soam os trompetes, rufam os tambores, erguem-se os lenços):



As Partículas Elementares, de Michel Houllebecq - o mais cínico dos autores contemporâneos, na narrativa de dois irmãos, filhos de pais ausentes da geração de 68, em duas trajetórias distintas. Em um, o desespero, a solidão. Em outro, a redenção da humanidade pela ciência. Em ambos, as disfunções sexuais, abjetas, cruéis, pontuando a narrativa de forma ultra-realista. E tudo tão amargo, numa linguagem crua, objetiva, "científica", que se torna irônico no final das contas. As digressões também são maravilhosas.

Moby Dick, de Herman Melville - a humanidade num navio, o Pequod, liderado por um lunático (ou um grande líder? ou profeta?) contra seus monstros e tormentas interiores, numa aventura pelos sete mares, reverberando a Bíblia, Shakespeare, a democracia americana, os gregos, a Odisséia na grande caçada em busca de Leviatã ou da grande baleia branca, que é a esfinge devoradora, indecifrável. Uma travessia fadada ao fracasso, mas onde vale a viagem. "Chama-me de Ismael".

Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato - o mundo do conhecimento, da cultura é o mundo da diversão para as crianças e criaturas encantadas do Sítio do Pica-Pau Amarelo, e das coisas descobertas pela primeira vez.

A Volta do Parafuso, de Henry James - assombração? Ou imaginação? Ou delírios de sexualidade reprimida de uma jovem governanta? Em curtas páginas, longas e elaboradas sentenças, um mistério que permanece na Inglaterra Vitoriana do século XIX, pelo mais inglês dos autores americanos. De arrepiar.

Notas do Subterrâneo, de Fiódor Dostoiévski - as inúmeras camadas de todo ser humano reunidas num individuo amargo que desde o início se afirma como desprezível. Duro desde a primeira sentença.

E passo o desafio de escolher outros cinco melhores livros para as seguintes “vítimas” virtuais (se é que alguma delas lê isso aqui): Alexandre, Andros, Carlos, Leandro e Vébis Jr., e lembrando que cada um, caso aceite a brincadeira, deve indicar em seu blog não só os cinco livros favoritos, mas também apontar outros cinco blogueiros para o mesmo e nobre propósito. Have fun, my dear friends!

quinta-feira, julho 12, 2007

O melhor de "Paris..."



14th Arrondissement, by Alexander Payne. Ou assista aqui: http://www.youtube.com/watch?v=kfkUF2bAvF0

Paris, Te Amo (moi non plus)

(Paris, Je t'Aime, França/Alemanha/Suíça, 2006)



Um filme episódico, a cargo de vários diretores, assimétrico par excellence, que fala de amor na autoproclamada Cidade do Amor, em segmentos um tanto incompletos que se passam em alguma região de uma Paris multifacetada, multirracial e nem sempre tão turística ou encantadora como o sorriso da Monalisa do Louvre. Um amor que surge num flerte politicamente correto entre uma garota tipicamente árabe e um adolescente tipicamente francês. Chato, ainda que aproveite bem a locação entre o Jardin des Plantes e a grande mesquita da cidade. Ou, em outro episódio, o possível amor que surge numa tentativa de estacionar o carro em Montmartre. Ou então, na visita ao túmulo de Oscar Wilde, no cemitério de Père-Lachaise, por um casal ranheta em lua-de-mel, num dos piores filmes da irregular carreira de Wes Craven, cedendo, no final das contas, a um conformismo matrimonial. Intolerável para um diretor que já detonou com sonhos de adolescentes em A Hora do Pesadelo, ou devorou típicas famílias americanas em Quadrilha de Sádicos, nos anos 70. E isso com a improvável ajuda do além do antimatrimonial par excellence Oscar Wilde, que faz uma aparição à maneira de O Fantasma de Canterville. Tsc, tsc. Num outro, um vazio plano-seqüência mostrando um homem mais velho e uma bela garota nas redondezas de Parc Monceau, no inutilmente virtuosístico trecho dirigido por Alfonso Cuarón. Há também o cheio de perfumaria segmento que se quer bizarro de Christopher Doyle, ao narrar o amor entre uma oriental e um vendedor de cosméticos em Porte de Choisy. Um pé no saco. Ou entre um cego e uma atriz americana nas proximidades de Faubourg, com Tom Tykwer retornando um pouco aos bons e acelerados momentos de Corra, Lola, Corra. Ao menos, um dos melhores, afinal. Mas ainda tem um casal que fantasia chatices conjugais no distrito da luz vermelha de Pigalle. Tem dois mímicos malas que se apaixonam no Campo de Marte, no bem para-turista-ver-episódio de Sylvain Chomet. Tem um inusitado beijo entre um turista americano e uma francesa na estação de metrô das Tulherias, diante do namorado dela, no formalmente engessado episódio dos irmãos Coen, ainda que engraçado, além do beijo entre dois vampiros na Madeleine, no episódio todo estilizado de Vincenzo Natali. Tem a lamentação sem fim de Sergio Castellitto na Bastilha, em mais um drama chororô de Isabel Coixet sobre dar valor à vida que resta. E mais uma choradeira típica de Juliette Binoche, no superestimado episódio de Nobuhiro Suwa. E há o amor que se desfaz ou não entre um casal prestes a se divorciar e tem seu último (ou penúltimo?) encontro num café do Quartier Latin, no episódio alla Cassavetes de Gerard Depardieu e Frédéric Auburtin. E ainda um travelling pelo Marais no episódio gay-rohmeriano de Gus Van Sant, etc., etc., etc. No meio de tudo, Olivier Assayas revisitando Clean, e os excluídos dos subúrbios, como a Maria Cheia de Graça, após deixar o filho bebê, correndo pela estação Chatêlet-Les Halles para cuidar do filho de uma rica madame, e um imigrante nigeriano agonizando nas mãos de uma bela paramédica negra na Place des Fêtes. Triste, embora não tocante.

Filme bem chatinho, no todo, salvando-se, além do de Tykwer, o episódio final de Alexander Payne, pleno de humor e melancolia na estória de uma típica turista americana, gorda e feia, que, ao ler sua redação sobre as férias parisienses, narrando entre outras coisas a visita ao túmulo dos existencialistas Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em Montparnasse, depara-se com a própria solidão na Cidade Luz. Esse, sim, bateu fundo e tem algo a dizer sobre os franceses, os americanos, o flâneur e as pessoas comuns em geral. Pena que leva quase duas horas para se chegar até ele.

quarta-feira, julho 11, 2007

Quatro Estrelas

(Quatre Étoiles, França, 2006)



Um vigarista (José Garcia, de Por Gentileza e O Corte, de Costa-Gavras) e uma bela professora de inglês (Isabelle Carré, de Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais), que acaba de herdar uma soma considerável de dinheiro de sua bisavó, se esbarram no hotel Carlton em Cannes, onde ela passa férias agradáveis longe do namorado pé-no-saco e da rotina parisiense. Ele invade o quarto dela se dizendo empresário de Elton John. Em busca de mais emoção e demonstrando certo fascínio por ele, passa a segui-lo. Descobre que ele é um tremendo de um picareta, que deve dinheiro de jogo a mafiosos e que o prazo para o pagamento da dívida está para se esgotar. Sem muita explicação, ela decide ajudá-lo, quitando o débito com a herança, mas querendo em troca “apenas” o dobro da quantia emprestada. E não largará mais do pé dele até receber o dinheiro. Ele então a usa para dar um golpe da venda de uma casa a um ex-piloto bocó (e rico) de Fórmula 1 (François Cluzet, de A Rainha Margot), mas previsíveis sentimentos começam a aparecer, atrapalhando os objetivos de ambos. Até aí, um filme ágil, despretensioso e divertido de Christian Vincent; quando entra a figura do piloto, no entanto, se desequilibra, perde o foco, vira um pastiche que se quer romântico sem convencer, alonga-se em sua conclusão (chocha) e perde a chance de ser uma versão light do amoral Negócios à Parte (1997), de Claude Chabrol, apesar do jeitão cafajeste (e engraçado) de José Garcia e do charme da bela ruiva Carré, que passa boa parte do filme em vestidos justos ou num baby doll, provocando o sempre mal-intencionado Garcia e o bobalhão Cluzet.

E, para finalizar, um pouco de Isabelle Carré au naturel:



terça-feira, julho 10, 2007

Ratatouille

(EUA, 2007)



Remy, um ratinho de paladar e olfato apurados e que sonha em ser chef de cozinha, diferente dos outros ratos de seu bando, que, sujos como bons ratinhos quadrúpedes, só pensam em roubar e comer qualquer porcaria encontrada no lixo. O desastrado Lingüini, suposto herdeiro de um dos mais refinados restaurantes de Paris, Le Gusteau, que, manipulado por Remy, escondido em seu chapéu, se tornará um chef de renome, para desespero do patrão, o baixote Skinner, que assumiu o restaurante após a morte de Gusteau e que, como um oportunista, usa a fama do falecido chef, que acreditava que qualquer um podia cozinhar, para criar linhas de comidas semi-prontas. E o prato provençal do título, à base de legumes fritos no azeite, que derrubará o “ego” do mais cri-crítico dos personagens, em um momento proustiano dos mais sublimes, nesta saborosa animação da Pixar, mais uma vez a cargo de Brad Bird (Os Incríveis, 2004), em que pela primeira vez os mundos das criaturas extraordinárias e dos seres humanos ordinários se encontram e tentam estabelecer alguma (difícil) harmonia, ainda que rato nunca deixe de ser rato sob os olhos dos outros. Inclusive de burocratas franceses da inspeção sanitária. De dar água na boca, literalmente, sobretudo (mais uma vez) pela excelência da animação, que reproduz pratos sofisticados da alta (e da baixa, também) gastronomia francesa com muito realismo, além da perfeita recriação da atmosfera parisiense, cidade que se orgulha sobretudo de seus esgotos, de onde surge Remy. De onde brota a arte, também. Bon appétit!

sexta-feira, julho 06, 2007

O Tango de Rashevski (e a lição do poeta)

(Le Tango des Rashevski, Bélgica/Luxemburgo/França, 2003)



Uma família belga de origem judaica afastada, no entanto, das tradições até que a morte da matriarca, separada do marido, que virou rabino ortodoxo um tanto intolerante em Israel, leva vários de seus membros a ir em busca de suas raízes e, quando não, gera uma crise, ou várias crises, entre eles e os outros, envolvendo circuncisão, casamentos mistos (entre goyim e judeus, entre judeus e árabes), judaísmo liberal, judaísmo ortodoxo e, muita, mas muita discussão à maneira judaica e ao som de algum tango, que, segundo a lição da matriarca dos Rashevski, servia para varrer os problemas para longe, para o deserto de Negev, em Israel, cenário que abre e fecha este simpático filme do diretor Sam Garbarski. Drama e comédia, em que mais do que ser judeu, o importante é ser mensch ("ser humano", em iídiche, palavra relativamente fácil de definir, mas difícil de "sê-la" na prática), e buscar o entendimento, o conhecimento do outro, uma lição universal, ainda a ser aprendida pelos homens, judeus ou não. Belo filme, que complementa o que o recém-falecido poeta Bruno Tolentino disse uma vez numa entrevista, destacando o papel da alteridade, e muito pertinente nestes tempos esquizofrênicos em que as pessoas parecem se fechar sobre elas mesmas:

“O contato com o outro é essencial. É impossível não se relacionar, não levar em conta a realidade do outro. O outro é o real. Não sou eu nem o que eu quero. Se o seu esforço é todo por não se afastar da realidade, por servi-la, por ceder a ela cada vez mais, fatalmente você vai descobrir que essa realidade é o outro, a pessoa que está na sua frente. Ele existe. O resto é abstração. Você faz o que quiser com a sua imaginação. Mas o outro você não pode imaginar. Ele está sempre a mais ou a menos. Atrapalha. É uma droga. Realmente, seria melhor que não houvesse. Sem o outro, a vida seria muito mais fácil, mais simples, mais narcisística. Só que o outro não pode deixar de ser verdade. Não há alternativa. É por aqui ou nada. Mas tem gente apaixonada pelo nada, porque o nada te dispensa até mesmo de ser você. Aqui no nosso país nós nos acostumamos a atropelar o próximo como se ele nada fosse, em nome desse ou daquele ponto de vista, que na verdade não é outra coisa que não um ponto de vista. Não aceito de modo algum que a verdade seja tida como um ponto de vista pura e simplesmente, mas ela não pode prescindir do ponto de vista. Há um risco educativo em atropelar o próximo, impor uma seletividade. E é gravíssimo isso."

(Bruno Tolentino, no site: http://www.blogdogaleno.com.br)

quinta-feira, julho 05, 2007

Catedráticos do Rock

(Rock’n’Roll High School, EUA, 1979)



Na prévia ao filme de Allan Arkush (hoje diretor de TV de séries como Heroes e Crossing Jordan, além da clássica A Gata e o Rato, entre outras), na última Sessão do Comodoro, a exibição do divertido curta de Vébis Jr., “Das Faces e Sombras”, um livre exercício de improvisação e cinefilia, que, parodiando o cinema verité de John Cassavetes, narra com alguma habilidade a frustrada tentativa de dois colegas mal-intencionados de embebedar e levar para a cama uma amiga, ex-namorada de um colega deles. Antes disso, relembram o que ocorreu com um outro amigo cinéfilo, assassinado como o Corisco de Deus e o Diabo na Terra do Sol (64), num assalto ao tentar defender sua coleção de DVDs do Fritz Lang! Muito bom! Depois, a exibição do longa-metragem propriamente dito, um filme B típico do final dos anos 70, descaradamente camp, anárquico e inventivo, em sua deliciosa sucessão de gags de rachar de rir, que inclui, entre os absurdos, ratos de laboratório que explodem ao som do rock dos Ramones, um “bixo” que vive sendo trancado nos armários dos corredores da escola pelos veteranos e uma espécie de “consultor” afetivo profissional que administra seu muito procurado “escritório” dentro do esfumaçado banheiro masculino. Tem até secretária no toalete para atendê-lo!

O fiapo de estória narra a luta da autodeclarada fã número 1 dos Ramones, a primeira da fila de qualquer show da banda, Riff Randell (P.J. Soles, uma das “vítimas” de Michael Myers no clássico Halloween, 78), contra a nazista diretora da escola, que deseja banir, com a ajuda de dois escoteiros almofadinhas que roubam a cena toda vez que aparecem, o Rock’n’Roll e todo o espírito rebelde e transgressor que o envolve. Está declarada a guerra. Para tomar a escola, Riff contará com a ajuda da sua nova amiga nerd, do bonitão inseguro da turma, do muito sofisticado professor de música (o diretor de filmes B Paul Bartel), que desbunda após ver o show dos Ramones, e, claro, dos próprios Ramones, em turnê pela cidade e as grandes estrelas do filme.

Produção de Roger Corman, roteiro de Arkush em co-autoria com o genial Joe Dante (Piranhas, Gremlins, Grito de Horror) e um humor nonsense à John Waters, mais light, no entanto, e que certamente influenciaria os irmãos Zucker e Jim Abrams (Apertem os Cintos o Piloto Sumiu, Top Secret, Corra que a Polícia Vem Aí), em sua irreverência descompromissada e na sucessão de piadas que atiram para todos os lados, sob qualquer pretexto. Além de Bartel, participação especial-afetiva, como um chefe de polícia feioso, de Dick Miller, notório ator dos filmes de Roger Corman e depois dos filmes de Joe Dante, da musa de Andy Wharhol e atriz habitual das películas de Paul Bartel, Mary Woronov, ótima como a diretora opressora, e, claro, dos Ramones, recheando a exuberante trilha sonora com vários sucessos, como a canção-título. Um filme, acima de tudo, nostálgico e cult.

quarta-feira, julho 04, 2007

O Despertar de uma Paixão

(The Painted Veil, EUA/China, 2006)



Um amor, não uma paixão, essa coisinha de adolescente boboca, e que surge aos poucos, nesta história tradicional, baseada em romance de William Somerset Maugham (Servidão Humana, Adorável Júlia, O Fio da Navalha), mas muito bem conduzida por John Curran (Tentação, 2004), em que um médico ocidental servindo em Xangai (Edward Norton), traído pela mulher (Naomi Watts), que a princípio não o ama, vinga-se dela aceitando o posto de diretor de um hospital no longínquo interior da China, uma região devastada pela epidemia de cólera e ameaçada pela guerra civil entre nacionalistas e comunistas. Para evitar um divórcio escandaloso em meio à sociedade burguesa do final dos anos 20, ela se vê obrigada a ir com ele. E o filme já se inicia com a penosa ida à região, para então retroceder. À maneira dos filmes de James Ivory (Vestígios do Dia, 1993), com bela, mas nunca acadêmica ou entediante reconstituição de época, o médico se encarrega de erradicar a doença. E a sua esposa, até então tratada por ele com indiferença e em meio às hostilidades e solidão do lugar, aos poucos vai se encantando com seu trabalho. E com ele, sobretudo. Reconquista-o. E o amor é mútuo agora, neste filme elegante, atento especialmente aos olhares e aos mínimos gestos dos dois magníficos protagonistas, sobretudo a nuançada interpretação de Naomi Watts, aqui morena, num papel que já foi de Greta Garbo (1934) e da ruiva Eleanor Parker (1957). O amor é mesmo coisa para maduros, como diria Drummond. E brota devagar, construído com delicadeza, com sacrifício até. Filme de sensibilidade rara, que parece anacrônico em seu discurso old fashion em tempos de amores expressos e afetos à deriva. Mas só parece.

terça-feira, julho 03, 2007

O Balconista 2

(Clerks 2, EUA, 2006)



Dante (Brian O’Halloran) e o seu amigo mala Randal (Jeff Anderson), com 30 anos nas costas, os balconistas mais losers de Nova Jérsei, estão de volta, depois de 12 anos e de uma trilogia de O Senhor dos Anéis e de uma nova-velha trilogia de Star Wars. Mas parece que o tempo não passou para eles, apesar de o filme ganhar cores mais atuais. E a “atração” mútua entre eles continua a mesma. Agora trabalhando numa lanchonete fast-food, após o incêndio que, por culpa de Randal, destruiu a loja de conveniência do filme original, Dante está para se casar e se mudar para a Flórida com a rica noiva loira, provavelmente uma ex-cheerleader, dando finalmente um rumo a sua vida. Seu desbocado, tarado, provinciano, homofóbico e racista amigo pretende então organizar uma despedida de solteiro daquelas em seu último dia de trabalho, enquanto passa o tempo aporrinhando o nerd cristão Elias (Trevor Fehrman), também balconista da lanchonete, em engraçadíssimas conversas sobre trolls morando em vaginas e hobbits gays que passam a “trilogia inteira só caminhando” em O Senhor dos Anéis, duas seqüências antológicas. Mas uma nova paixão surge no caminho de Dante, na pele de Rosario Dawson como a (bela) gerente da lanchonete.

Não poupando a escatologia verbal e nérdica onipresente no primeiro filme, perde, no entanto, um pouco do gás no terço final, quando cede um pouquinho ao sentimentalismo, ausente no filme original, ácido do começo ao fim. Ainda assim, tem momentos hilários, diálogos afiados e a sempre cômica presença dos eternos maconheiros e exibicionistas, agora “cristãos”, Jay (Jason Mewes) e Silent Bob (Kevin Smith), mesmo que a sensação de lugar nenhum e vazio predomine em seu final supostamente redentor, forçando uma espécie de elogio do loser, pois, desta vez, ao contrário dos filmes anteriores de Smith, Silent Bob não tem nada a dizer. E o filme parece que também não, apesar de toda a sua verborragia, além de uma melancólica sensação de loser que contamina o espectador na mesma faixa etária e (quase) no mesmo status dos empacados protagonistas.

segunda-feira, julho 02, 2007

Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado

(Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer, EUA, 2007)



Melhor no humor que na ação, um tanto rotineira, apesar dos ótimos efeitos especiais, desta vez o quarteto, cada vez mais entrosado, recebe a visita do lendário Surfista Prateado, solitário viajante das galáxias, que traz consigo uma força maligna que ameaça destruir a Terra, o Galactus. De quebra, os quatro ainda têm de enfrentar o retorno de seu arquiinimigo, o Dr. Destino (Julian MacMahon), ressuscitado por Galactus. Mas, mesmo com tantas ameaças, o circo midiático (e toda a humanidade) se volta para o eminente casamento entre o líder do quarteto, o cientista Reed Richards (Ioan Gruffudd) e a sexy doutora Susan Storm (Jesssica Alba). Sem muita firula, o filme de Tim Story vai direto ao ponto, e é rápido, movimentado e divertido. Nada melhor para uma boa tarde de sábado, numa época em que ninguém mais agüenta piratas criptogays ou super-heróis em crise, sofrendo de amores não-correspondidos ou com cabelinho emo ou ambos. E que venham mais filmes com o Surfista Prateado. Ele merece um filme solo, sobretudo por conta do tratamento caprichado que ganhou nesta continuação.

sexta-feira, junho 29, 2007

Natal em Julho

(Christmas in July, EUA, 1940)



Um pouco do clima de Frank Capra nesta comédia muito enxuta de Preston Sturges (dura não mais que uma hora). No entanto, cada momento ou diálogo ou cena são dos mais memoráveis, no registro dos sonhos e ilusões desfeitas de uma hora para outra na vida de pessoas comuns. Em Plena Depressão nos anos 30, um escriturário de Nova Iorque (Dick Powell) sonha a cada dia em melhorar de vida nestes tempos difíceis. Sonha tanto que nem dorme mais. E deposita todas as suas esperanças num concurso de rádio que premiará com grande soma de dinheiro (para a época) o melhor slogan para uma marca de café. Por isso, crê ingenuamente ter criado a melhor frase de todos os tempos: “Se você não consegue dormir à noite, não é o café. É a cama”, ainda que o café de fato impeça o sono para muita gente, como insiste sua pragmática namorada (Ellen Drew), na contramão da teimosia dele. Um impasse na hora de decidir o vencedor atrasa o resultado, o que só faz aumentar a expectativa em toda a cidade. E dá a chance para três maldosos colegas de trabalho anunciá-lo, numa armação, como o “real” vencedor. O que era para ser uma brincadeira de escritório acaba extrapolando os limites do prédio. Todo mundo fica sabendo, até o dono da companhia de café vai recebê-lo. Ele vira uma celebridade, ganha crédito nas lojas de um dia para o outro e passa a distribuir presentes para os vizinhos, como um ingênuo Mr. Deeds, fazendo valer o título do filme, até a hora da verdade. Aí o filme fica sério. E os afetos são testados para valer, de forma decisiva e emocionante. Um roteiro com diálogos rápidos, eloqüentes e certeiros, como sói acontecer em muitas das comédias dos anos 30, e um carinho todo especial que Sturges (Contrastes Humanos, 1941) imprime em seus personagens, sem sentimentalizá-los, no entanto, numa visão humanista contra um sistema triturador de ilusões e expectativas e as pessoas envolvidas nele, além de inspirada atuação de Dick Powell, em química perfeita com Ellen Drew, fazem deste um dos grandes pequenos filmes sobre a Depressão americana.

quarta-feira, junho 27, 2007

Um Lugar na Platéia

(Fauteuils d'Orchestre, França, 2006)



Pessoas comuns em meio a pessoas incomuns, famosas, extravagantes, ricas, neuróticas, mas com problemas e angústias em comum entre si, nesta comédia tipicamente parisiense de Danièle Thompson (Fuso Horário do Amor, 2002). Na chique Avenida Montaigne, um concerto de Beethoven, um leilão de obras de arte e uma apresentação teatral de Feydeau estão para acontecer no mesmo dia, no mesmo quarteirão, nas cercanias do hotel Ritz. Em meio aos preparativos, os protagonistas de cada evento – um pianista (Albert Dupontel) cansado de todo o ritual tradicional do concerto, da casaca à platéia pomposa do teatro, e sufocado pela mulher (Laura Morante), que ainda ama, no entanto; um milionário (Claude Brasseur), que arruma uma amante bem mais jovem e que quer se desfazer de sua coleção particular para não virar “guarda de museu”, nas suas próprias palavras, apesar das restrições de seu filho intelectual (Christopher Thompson), que pouco liga para dinheiro ou para "Catarina de Médici" e que está com o casamento em crise; e finalmente uma atriz (Valérie Lemercier), bipolar, workaholic e cansada do sucesso na televisão, que encena a peça e que sonha em fazer um filme de prestígio com um diretor americano (Sydney Pollack), que por sua vez se encanta com a visão heterodoxa dela sobre Simone de Beauvoir – são servidos por uma jovem garçonete interiorana (Cécile De France), criada pela avó e que almeja ter o seu lugar na platéia, mas não muito longe do palco. Nem muito perto também. E de preferência com alguém sentado ao seu lado, como todo mundo. Ao arrumar um emprego num café nas redondezas, ela fará a ligação entre as três histórias neste filme de encontros, desencontros e temperamentos à flor da pele, que é francês sem ser cabeçudo, apesar das inúmeras referências artísticas e literárias que percorrem os afiados diálogos. Ao contrário, ao zombar de Sartre ou Beauvoir, é cheio de vitalidade, afetuoso com os personagens e emana elegância mesmo nos seus momentos mais vulgares, da mesma forma que o Imperador de Beethoven, brilhantemente executado durante o clímax, que une os três acontecimentos e personagens de forma decisiva, hilária e poética. Bravo!

terça-feira, junho 26, 2007

A Vida Secreta das Palavras

(La Vida Secreta de las Palabras/The Secret Life of the Words, Espanha, 2005)



Duas pessoas feridas. Ele (Tim Robbins), num acidente numa plataforma de petróleo, que o deixou com queimaduras e cego. Ela (Sarah Polley), deficiente auditiva, enfermeira do Leste Europeu, que trabalha como operária no Reino Unido e que evita falar sobre o passado. Solitária, evita falar na verdade com quer que seja. Durante as férias que é obrigada a tirar, ela arruma trabalho como enfermeira dele em pleno Mar do Norte, na plataforma. Aos poucos, os dois se aproximarão. Ele fala muito. E ela falará também. As palavras secretas do título virão à tona, trazendo o passado, dele e dela, dela, sobretudo, de volta. E junto com ele as feridas ainda não cicatrizadas da guerra e suas infelicidades impressas no corpo. Aí o filme, de atmosfera melancólica, concentrada, quase silencioso, perde parte de seu mistério, de suas ambigüidades, para virar um relato duro e direto das atrocidades da guerra. Intenso, no entanto, pois Robbins e Polley têm uma sintonia fantástica, construída aos poucos, evitando que o filme de Isabel Coixet (Minha Vida Sem Mim, 2003) derrape no sentimentalismo travestido de denúncia típica de ONG, como atesta a desnecessária participação da personagem de Julie Christie no terço final da narrativa.

Carreiras

(Brasil, 2006)



A tagarelice de mesa de bar de Domingos Oliveira, cena que abre o filme, alinhada mais uma vez à histeria confessional de sua protagonista e colaboradora habitual Priscilla Rosenbaum (muito bem), como uma âncora televisiva, que, entre uma carreira e outra de cocaína, vê sua carreira propriamente dita desmoronar, ao ser trocada por uma moça mais jovem na emissora onde trabalha. Noite adentro, esgoelando-se pelo telefone, ela atira farpas em tudo e a todos, amigos, noivo e inimigos. Quase não sobra “afeto” para ninguém. Rápido e rasteiro, apressado melhor dizendo, sobretudo por causa de seu baixo orçamento, não deixa de ter certo interesse, expondo acima de tudo a vontade do realizador em fazer cinema de qualquer jeito e a qualquer custo, ajudado pela flexibilidade do digital, apesar das suas precárias condições de realização, usadas inclusive para propagandear o filme, ao alardear mais uma vez a estética da mendicância exercida nas filmagens, feitas em cooperativa, discurso às vezes comum no cinema nacional e que aqui ganha a sigla de BOAA (Baixo Orçamento e Alto Astral). Mesmo assim, em termos narrativos, não se afasta muito de sua origem teatral, baseado em peça de Oduvaldo Vianna Filho, pois é todo conduzido pelo texto. Sente-se também que é um tanto incompleto em sua conclusão, vagamente conciliadora, pois ela passa a noite atacando o sistema e as pessoas por trás dele, é triturada por eles, para depois se submeter a eles no final das contas. Então fica tudo como está, mesmo, nem teria valido a pena berrar tanto, pois a carreira é retomada e as carreiras (e os cigarros e a bebida e os comprimidos), também. Ou teria?

segunda-feira, junho 25, 2007

Treze Homens e Um Novo Segredo

(Ocean’s Thirteen, EUA, 2007)



Os mesmos 11 de Ocean (George Clooney) dos dois filmes anteriores. Bandidões, mas bons sujeitos. Um plano ainda mais mirabolante: quebrar a banca do cassino de um rival todo perfeccionista e arrogante (Al Pacino), que passou a perna em um dos 11 (Elliot Gould), que ficou doente por causa disso. Não só. Também socializar os lucros, para deleite de Oprah Winfrey e desespero de Andy Garcia, novo parceiro da gangue. De quebra, melhorar as condições de trabalho dos operários mexicanos. Uma química ainda melhor entre eles, sobretudo entre Brad Pitt e Clooney, machões sensíveis, que choramingam sobre seus frustrados relacionamentos amorosos, enquanto planejam chacoalhar (literalmente) Las Vegas, em meio a diálogos afiados e inteligentes, um Steven Soderbergh super à vontade na direção e um Matt Damon roubando a cena como o sedutor de plantão. Em suma, uma delícia do início ao fim.

Olhe para os Dois Lados

(Look Both Ways, Austrália, 2005)



Olha para os dois lados, vida e morte, morte, sobretudo, e não vai para lugar nenhum, a não ser ficar imaginado coisas absurdas o tempo inteiro, por meio de toscas animações. Da escola Eu, Você e Todos Nós (2004), junto com Quem Somos Nós (2004): mulher, artista plástica sensível e neurótica, incapaz de amar, e homem de olhar sempre pensativo e filosófico, um fotógrafo, que descobre que tem câncer e reavalia a vida e tal. Um acidente de trem os aproxima, ou os distancia, dependendo para que lado se olha, etc. Mas e nós, como ficamos? Ai, ai.

sexta-feira, junho 22, 2007

O Hospedeiro

(Gwoemul/The Host Coréia do Sul/Japão, 2006)



Filme de monstro às antigas de Bong Joon-ho (Memórias de um Assassino, 2003), incluindo aqui e ali os comentários políticos e a sátira social e militar em meio a diálogos e situações às vezes tensas, às vezes dramáticas, às vezes (muito) bem-humoradas, sem qualquer vergonha de apelar para o pastelão e para o absurdo. Como no Godzilla japonês, nasce um monstro, agora made in Korea, um híbrido mutante gigantesco emergindo do rio Han, resultado do despejo de substâncias tóxicas advindas, claro, de uma base militar americana instalada no país. Sem perder tempo, o filme parte para o primeiro e eficiente enfretamento da criatura, mostrada já por inteira, engolindo gente às margens do rio e levando para o esgoto, entre as vítimas, a filha de um vendedor meio abobalhado de um quiosque local. Após o ataque, a família da menina e todos os que tiveram contato com o bicho são levados para uma base de quarentena pelos militares, que isolam a área do rio. Mas o pai descobre que a menina está viva e, perseguido, parte com toda a família, tipos meio desajustados ou marginalizados, para resgatá-la, numa aventura por baixo de pontes e esgotos de Seul, envolvendo inclusive funcionários corruptos da prefeitura, em meio às versões atropeladas difundidas pela mídia das autoridades coreanas e americanas, dos cientistas e dos militares, que declaram ser o monstro o hospedeiro de um vírus letal, como pretexto para testar armas químicas contra ele. Um tanto longo, tentando sempre alfinetar alguém, desde as autoridades submissas do país, os americanos, obviamente, e até os hábitos alimentares das pessoas, tem nas aparições do tal hospedeiro, inteligente e feroz, criado a partir de ótimos efeitos especiais, e na perfeita química entre os integrantes da família seus pontos altos. Uma bela diversão, que renova com inteligência e humor o gênero e vai um pouco além.

quinta-feira, junho 21, 2007

Extermínio 2

(28 Weeks Later, Reino Unido/EUA/Espanha, 2007)



Substituindo as longas e poéticas tomadas de Londres abandonada do anterior pelo campo, começa em ritmo forte esta continuação do excelente filme de Danny Boyle, aqui a cargo do espanhol Juan Carlos Fresnadillo (Intacto, 2001), adepto da correria. E não pára mais. Até o desenvolvimento mais aprofundado dos personagens passa a ser secundário. Durante a epidemia que transformou a população da Inglaterra em zumbis canibalescos velozes e furiosos, dizimando-a, os remanescentes tentam a todo custo sobreviver em meio aos despojos. Em mais um ataque numa fazenda, um deles (Robert Carlyle) consegue escapar, deixando para trás a mulher (Catherine McCormack). Semanas depois, com a epidemia controlada, os sobreviventes começam a retornar ao país, sob forte vigilância do exército americano. No entanto, um deles, justamente a mulher abandonada na fazenda, carrega o vírus e, ainda que imune a ele, volta a espalhar a contaminação. Então, outros sobreviventes, sobretudo dois irmãos, filhos dela, passam a ser perseguidos tanto pelos novos zumbis, ou infectados, como pelos militares, que tentam deter a ameaça a qualquer custo. Mais brutal, mais tenso e auxiliado ainda pelo bom uso da câmera na mão, chacoalhante, para acentuar a ação e os confrontos viscerais, num clima de caos generalizado, tem um final ainda mais sintético e apocalíptico que o anterior, homenageando Zombie (79), de Lucio Fulci. Produzido por Boyle, Alex Garland et caterva (Sunshine, 07, A Praia, 99), mantém ainda a convicção de ambos de que essa humanidade, cada vez mais desumana em sua determinação autofágica, não tem jeito mesmo. Eletrizante.

quarta-feira, junho 20, 2007

Zodíaco

(Zodiac, EUA, 2007)



A obsessão de três pessoas, um policial, um jornalista e um cartunista, ao longo de mais de uma década, no final dos anos 60, para capturar o célebre serial killer autodenominado Zodiac, que causou pânico na região de São Francisco ao enviar cartas e mensagens cifradas para os jornais da cidade, avisando sobre novos crimes, e que dizia ter perpetrado mais de 30 assassinatos. Assassino(s) nunca capturado(s). Só três seqüências de morte. E uma obsessão em entender a realidade, em decifrá-la, que percorre toda a narrativa. Uma realidade, porém, que se mostra escorregadia a cada signo supostamente desvendado. E a fabricação do real pelo cinema, mero artifício ilusório para tentar organizar o mundo que escapa da compreensão, como mostrado na cena em que os protagonistas se encontram na sessão de Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), de Don Siegel, baseado no caso. Ou pela mídia, que amplifica a sensação de medo. Ao longo da investigação, evidências e mais evidências se tornam provas circunstanciais ou tecnicalidades, levando o caso ao impasse, mas não ao fim do mistério, o que é frustrante. E vidas são arruinadas, consumidas por essa obsessão. Um grande filme de David Fincher, dirigido com um rigor quase classicista, atento a todos os detalhes, evitando os excessos maneiristas de seus admiráveis trabalhos anteriores (Alien 3, Seven, Clube da Luta), para expor aqui com transparência absoluta um mundo cuja claridade é toda enganosa ou relativa.

terça-feira, junho 19, 2007

Depois do Casamento

(Efter Brylluppet/After the Wedding, Dinamarca/Reino Unido/Suécia, 2006)



Uma câmera na mão, sempre próxima ao rosto dos atores, com poucos planos mais abertos, que revelam apenas o essencial e que lembra o estilo de filmar do Dogma, por uma diretora inclusive egressa do movimento. Também as locações autênticas na “rica” Índia, com pobres cheios de vida, e na “pobre” Dinamarca, cheia de ricos emocionalmente miseráveis, interpretações naturalistas, som ambiente, contando até com a ambientação num casamento, como em Festa de Família (Festen, 1998), de Thomas Winterberg, reencontro com o passado e muito da seiva do melodrama na história de um homem que administra a duras penas um orfanato na Índia e que vai a Copenhague para arrumar dinheiro para manter a instituição funcionando. Lá, ao entrar em contato com o possível doador, é convidado para o casamento da filha dele, onde descobre que o milionário filantropo é na verdade marido de uma antiga paixão sua. E descobre também que a noiva é na verdade a sua filha. E que o patriarca está morrendo de câncer. E que o dinheiro dele não servirá apenas para o orfanato, além de outras surpresas. Tudo revelado por meio de olhares, concentrando o drama, o grande mérito deste filme de Susanne Bier (Brothers, 2004), que conta ainda com um excelente elenco, encabeçado por Mads Mikkelsen (Meu Quer se Matar, 2002, e Cassino Royale, 2006), como o suposto idealista em confronto com o passado e obrigado a ceder a ele.

segunda-feira, junho 18, 2007

Andata e Ritorno – Finale

Addio:



A surpresa nas idas e vindas pela Toscana: a estância hidromineral de Montecatini Terme e a principal terma, o Tettuccio, em estilo neoclássico, de uma cidade bastante agradável.



E a despedida na cosmopolita Milão, já longe da Toscana, após cometer inúmeras infrações de trânsito na chegada à cidade com um ultrapotente Fiat Panda 1.3. Felizmente, longe da visão dos carrancudos Carabinieri. Na foto, a rua mais chique da cidade, a Via Montenapoleone, cenário de um filme brega-chique de mesmo título nos anos 80, e um dos carrinhos que circulam por lá.



Falando em máquinas, um estacionamento de carros “populares” na cidade.



Na terra das mamas e das igrejas, mais uma: o imponente Duomo, principal símbolo de Milão, em estilo gótico tardio, cuja restauração removeu a cor escura e a sujeira da fachada e das agulhas.



E, para encerrar em grande estilo, uma noite na ópera (Lady Macbeth, de Dimitri Shostakovic), no célebre Teatro Alla Scalla. Agora de volta à correria do trabalho, enquanto ainda existe. Aos poucos. Adagio sostenuto. Ma non troppo. E aos filmes, talvez, e na versão original e não mais dublados em italiano, per favore, pois os italianos são como os americanos. Ou seja, têm uma preguiça enorme de ver filmes legendados nos cinemas. Dublam tudo. Ainda asssim, foi muito divertido ver Grindhouse em italiano, com direito a trailer de La Terza Madre, novíssimo filme de Dario Argento, e intervalo no meio da sessão. E ainda assim, é admirável o gosto cinéfilo deles. Em Castelnuovo ou Milão, por exemplo, vê-se vendido nas bancas todo tipo de filme. São pilhas e pilhas de DVDs, amontoados de qualquer jeito nas preteleiras, que vão desde sucessos recentes aos clássicos de Hitchcock e Kubrick, vendidos em fascículos, e os gialli de Umberto Lenzi, Lucio Fulci e Dario Argento, além, claro, dos eróticos de Tinto Brass. Mas isso fica para um outro post, se a musa inspiradora ajudar. Arrivederci e até breve. Espero.

sexta-feira, junho 15, 2007

Andata e Ritorno – Quarta Parte

Retratos da Toscana:



Em Vergemoli, perto de Castelnuovo, as fantásticas formações de alabastro da Gruta do Vento, a quase dois mil metros de altitude.



Florença, a capital da Toscana. Grosso modo, uma série de monumentos e museus com obras-primas do Renascimento e de outras épocas (Brunelleschi, Benvenuto Cellini, Rafael, Michelangelo, Donatelo, Fra Angélico, Boticcelli, Vasari, esses caras todos) cercada de japoneses por todos os lados. Também tem ativa agenda cultural. Era o Maio (e Junho) Musical, com programação bem eclética, que reunia desde shows do Slayer e do Iron Maiden a apresentações da montagem da ópera O Ouro do Reno, de Richard Wagner. Aqui, na Piazza della Signoria, entre outros monumentos, David e David. O esculpido e o encarnado. Mas não se enganem: um deles é uma cópia.



Ao fundo, o cartão de visitas de Florença: a Ponte Vecchio sobre o rio Arno. Para lembrar de Puccini e da célebre ária O Mio Babbino Caro, da ópera Gianni Schichi:

O mio babbino caro,
mi piace è bello, bello;
vo'andare in Porta Rossa
a comperar l'anello!
Sì, sì, ci voglio andare!
e se l'amassi indarno,
andrei sul Ponte Vecchio,
ma per buttarmi in Arno!
Mi struggo e mi tormento!
O Dio, vorrei morir!

Babbo, pietà, pietà!
Babbo, pietà, pietà!



E, fugindo um pouco dos cartões postais de Florença, próximo à Ponte Vecchio, um grande cinema de arte. Pornô, claro. Ainda assim preserva o saguão elegante, inspirado na fantasia do Arlequim, dos tempos em que a programação do lugar era menos, digamos assim, "cult".



E, finalmente, Lucca, capital provinciana, terra natal de Puccini, a cidade por onde passávamos quase que diariamente para seguir de Castelnuovo a Florença, Siena, Montecatini, Arezzo, etc. É cercada por acolhedoras muralhas. Na foto, a Praça do Anfiteatro romano, erguida sobre as ruínas de uma arena romana e que tem os apartamentos mais caros de toda a Itália. Em Lucca, também um dos melhores momentos da viagem: o concerto do pianista sérvio Ivo Pogorelich e a sua interpretação muito particular (e triste) da mítica Sonata 32, Opus 111, de Beethoven, obra homenageada em Doutor Fausto de Thomas Mann, além de uma leitura bem eslava de Rachmaninoff e Scriabin.

quinta-feira, junho 14, 2007

Andata e Ritorno – Terza Parte

I Brasiliani di Barga – Série Encontros na Toscana



Lorde David, Monsieur Coli, um legítimo neto de garfagnaninos, Madame Bertzlian e Monsieur Chauzy, que é francês de Toulouse, mas brasileiro de coração, juntos após o formidável recital de canto e piano no belo teatro de Barga, onde o tenor também brasileiro Luciano Botelho (no centro) brilhou ao cantar a ária Una Furtiva Lacrima, da ópera O Elixir do Amor, de Gaetano Donizetti, numa apresentação que reuniu cantores talentosos de várias partes do mundo. Todos dirigidos por Dennis O’Neill.



E, no meio da trupe, eis o maestro de tudo: o grande tenor britânico Dennis O’Neill, encontrado por acaso numa sorveteria de Barga e que muito gentilmente nos convidou para o recital de seus alunos no teatro local. Depois, vino rosso e pasta na osteria local.



E por falar em música, próxima à Florença, um pouco da charmosa Arezzo, vista do Duomo, cidade onde nasceu Guido d’Arezzo, monge que criou no século XI o sistema de notação musical que possibilitaria o registro da música em partituras. Sem ele, não haveria a música polifônica, a música mais complexa. Também é a cidade natal dos pintores Piero della Francesca e Giorgio Vasari e dos poetas Petrarca e Pietro Aretino. Só gente boa.



E aqui, a placa assinalando a casa onde nasceu Guido e o sistema de notação com as notas musicais. O Si só seria acrescentado no século XV.

Andata e Ritorno – Seconda Parte

Estruturas:



Na conexão para Milão, o moderníssimo teto do salão de embarque do Aeroporto Charles de Gaulle, em Paris.



Em Florença, na Toscana, a maior obra do Renascimento florentino: a cúpula da Igreja de Santa Maria del Fiore, ou o Duomo, projetada por Filippo Brunelleschi.



Aqui, dois gênios florentinos, Arnolfo di Cambio e Brunelleschi, contemplam eternamente seus feitos arquitetônicos, logo ao lado do Duomo de Florença. Olhando para cima, à direita, Brunelleschi fixa o olhar na sua monumental cúpula. Ao lado, Arnolfo, olhando para baixo, vislumbra a nave da igreja que projetou no século XIII. Detalhe, a cúpula só foi erguida no século XV. A arte do escultor (ou dos escultores), no entanto, os aproximou.





Em Milão, a grande contribuição romana para a arquitetura, em versões modernas: o arco, onipresente na cidade. Acima, na entrada da Galeria Vitorio Emanuelle, elegante centro de compras, e, logo abaixo, na Piazza Diaz.

Continua...

quarta-feira, junho 13, 2007

Andata e Ritorno – Prima Parte

Aos poucos e ainda baleado devido ao (con)fuso horário, e depois de quase um mês de longos caminhos pela Toscana e Milão, este blog volta ao funcionamento, ainda que parcial. Eis alguns momentos inesquecíveis da viagem:



O começo, em Paris, depois de 12 horas de vôo no apertado (e lotado) Boeing 777 da Air France, mas com excelentes refeições e sorvete Häagen-Dazs à vontade a bordo. Acima, a praça da Bastilha, onde havia a fortaleza-prisão destruída na Revolução Francesa, e o moderno teatro da Ópera no fundo.



Dias depois, após mais uma viagem de avião de Paris até Milão e, de lá, em um potentíssimo Lancia Ypsilon, por meio de sinuosas e escuras estradas a beira de vales e montanhas escarpadas na Toscana profunda, a chegada na Garfagnana, com suas pitorescas cidadezinhas medievais. Na foto, o cartão postal da região, a Ponte do Diabo ou da Madalena, em Borgo a Mozzano, no Vale do Rio Serchio.




A capital "metropolitana", Castelnuovo di Garfagnana, e o rio Serchio.



Próxima à comuna de Castelnuovo, a casa de campo em Pieve Fosciana, onde passamos dias agradáveis e, às vezes, chuvosos, mas agradáveis ainda assim.



O lago de Vagli, uma das mais belas vistas da região. Suas águas profundas encobrem uma vila medieval que de dez em dez anos vem à tona com a abertura das comportas da represa de Vagli. É incrível também, em toda a Garfagnana, a variedade de tons de verde da vegetação, muito bem preservada.

Continua...