quinta-feira, julho 19, 2007

Léolo

(Canadá/França, 1992)




A vida não se passa na terra, mas na minha cabeça.
(de Réjean Ducharme, in "L'Avalée des Avalés")

O segundo e derradeiro filme do canadense Jean-Claude Lauzon, falecido em 1997 num acidente de avião, é uma pequena jóia que mistura memórias infantis com realismo mágico, uma meditação poética sobre a infância perdida e os estranhos mundos que habitam a imaginação. Bizarro, lúbrico, mas afetivo e belissimamente fotografado, com especial talento para filmar as palavras, que emanam poesia, conta a trajetória de Leo, ou Léolo, um garoto franco-canadense que, em seus jovens anos de menino, levado pela insanidade familiar, é conduzido para o inexorável caminho da escuridão. Mas antes anota suas iluminadas memórias em páginas soltas, episódicas, recolhidas do lixo por um velho colecionador de objetos afetivos, um tipo quixotesco e que narra o filme, pontuando-o com a leitura do clássico québécois L'Avalée des Avalés, de Réjean Ducharme, livro preferido de Léolo. De maneira onírica e irreverente, suas memórias falam de vida e família. Família, sobretudo, atormentada pela loucura. No mundo de sonhos onde se refugia, Léolo imagina ser um garoto italiano nascido do tomate que carregava o esperma de um camponês siciliano brincalhão. Imagina também, de modo recorrente, em voltar para a Itália, em delírios com a Sicília envolvendo a bela vizinha italiana Bianca, seu primeiro impulso sexual e, sobretudo, seu primeiro amor, ao mesmo tempo “tão perto, tão longe, tão jovem e tão aborrecida”. Mas, num bairro decadente de Montreal, passa mesmo a sua solitária existência entre estranhos infelizes, ainda que da família: o pai operário é obcecado pela saúde dos intestinos e o obriga a evacuar o tempo todo; o irmão mais velho, com quem divide o quarto, humilhado numa briga, torna-se fanático por fisiculturismo; as duas irmãs têm sérios problemas psiquiátricos e mal se comunicam; e o avô, um tipo asqueroso, que contrata jovens como Bianca para roer as unhas de seu pé como fetiche sexual, é que parece carregar toda a responsabilidade pelo fracasso genético da família. Tentou inclusive afogar Léolo na piscina. Sua imaginação ajudou-o, no entanto, a suportar o fardo e a forjar a vingança contra ele, o que o leva também ao hospital psiquiátrico, onde se reunirá novamente com a família, para seu azar e desespero. Somente a gorda mãe parece sã e meiga, suportando as turbulentas águas em casa como um grande navio que navega por ondas tempestuosas sem tombar. Mas o caminho da loucura é mesmo sem volta. Um pouco como C.R.A.Z.Y. (2005) faria mais tarde, sem a mesma inspiração, um triste, mas cativante retrato eivado de poesia de uma criança que decidiu sonhar, porque não vive, “porque não é”, conforme assinala a narração repetidas vezes, acompanhada pela bela trilha de Tom Waits e Gilbert Becaud. E sonhando para sempre, Léolo cala-se só em seu mundo interior.

1 comentário:

Wendell Borges disse...

Belo comentário, fiz algumas anotações sobre o filme em meu blogue. Assisti dia 06 de setembro deste ano. É raro encontrar alguém o tenha visto.