
A obsessão de três pessoas, um policial, um jornalista e um cartunista, ao longo de mais de uma década, no final dos anos 60, para capturar o célebre serial killer autodenominado Zodiac, que causou pânico na região de São Francisco ao enviar cartas e mensagens cifradas para os jornais da cidade, avisando sobre novos crimes, e que dizia ter perpetrado mais de 30 assassinatos. Assassino(s) nunca capturado(s). Só três seqüências de morte. E uma obsessão em entender a realidade, em decifrá-la, que percorre toda a narrativa. Uma realidade, porém, que se mostra escorregadia a cada signo supostamente desvendado. E a fabricação do real pelo cinema, mero artifício ilusório para tentar organizar o mundo que escapa da compreensão, como mostrado na cena em que os protagonistas se encontram na sessão de Perseguidor Implacável (Dirty Harry, 1971), de Don Siegel, baseado no caso. Ou pela mídia, que amplifica a sensação de medo. Ao longo da investigação, evidências e mais evidências se tornam provas circunstanciais ou tecnicalidades, levando o caso ao impasse, mas não ao fim do mistério, o que é frustrante. E vidas são arruinadas, consumidas por essa obsessão. Um grande filme de David Fincher, dirigido com um rigor quase classicista, atento a todos os detalhes, evitando os excessos maneiristas de seus admiráveis trabalhos anteriores (Alien 3, Seven, Clube da Luta), para expor aqui com transparência absoluta um mundo cuja claridade é toda enganosa ou relativa.