sexta-feira, junho 29, 2007

Natal em Julho

(Christmas in July, EUA, 1940)



Um pouco do clima de Frank Capra nesta comédia muito enxuta de Preston Sturges (dura não mais que uma hora). No entanto, cada momento ou diálogo ou cena são dos mais memoráveis, no registro dos sonhos e ilusões desfeitas de uma hora para outra na vida de pessoas comuns. Em Plena Depressão nos anos 30, um escriturário de Nova Iorque (Dick Powell) sonha a cada dia em melhorar de vida nestes tempos difíceis. Sonha tanto que nem dorme mais. E deposita todas as suas esperanças num concurso de rádio que premiará com grande soma de dinheiro (para a época) o melhor slogan para uma marca de café. Por isso, crê ingenuamente ter criado a melhor frase de todos os tempos: “Se você não consegue dormir à noite, não é o café. É a cama”, ainda que o café de fato impeça o sono para muita gente, como insiste sua pragmática namorada (Ellen Drew), na contramão da teimosia dele. Um impasse na hora de decidir o vencedor atrasa o resultado, o que só faz aumentar a expectativa em toda a cidade. E dá a chance para três maldosos colegas de trabalho anunciá-lo, numa armação, como o “real” vencedor. O que era para ser uma brincadeira de escritório acaba extrapolando os limites do prédio. Todo mundo fica sabendo, até o dono da companhia de café vai recebê-lo. Ele vira uma celebridade, ganha crédito nas lojas de um dia para o outro e passa a distribuir presentes para os vizinhos, como um ingênuo Mr. Deeds, fazendo valer o título do filme, até a hora da verdade. Aí o filme fica sério. E os afetos são testados para valer, de forma decisiva e emocionante. Um roteiro com diálogos rápidos, eloqüentes e certeiros, como sói acontecer em muitas das comédias dos anos 30, e um carinho todo especial que Sturges (Contrastes Humanos, 1941) imprime em seus personagens, sem sentimentalizá-los, no entanto, numa visão humanista contra um sistema triturador de ilusões e expectativas e as pessoas envolvidas nele, além de inspirada atuação de Dick Powell, em química perfeita com Ellen Drew, fazem deste um dos grandes pequenos filmes sobre a Depressão americana.

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