sexta-feira, outubro 19, 2007

O Samurai

(Le Samouraï, França, 1967)



Sem muita inspiração para escrever sobre filmes recentes, como Piaf ou Justiça a Qualquer Preço (já devidamente desancado pelo Ailton) ou sobre alguns já vistos da Mostra, e também muito incomodado com a leitura de Jerusalém, do português Gonçalo M. Tavares, livro de fato perturbador e de prosa seca e precisa como poucos, fico com este imbatível clássico de Jean-Pierre Melville, também seco e precisoa cada minuto, estrelado pelo inigualável Alain Delon. Aqui, em ângulos de câmera rigorosos do início ao fim, graças à justa fotografia de Henri Decaë (de O Sol por Testemunha), Delon interpreta o nada eloqüente “samurai” do título, Jeff Costelo, na verdade um assassino profissional, um lobo solitário, conforme a epígrafe do Bushido que abre o filme (“não há solidão maior que a de um samurai”), e conforme atesta a seqüência inicial no apartamento, emoldurada por duas vigilantes janelas, quase tudo inteiramente silencioso, ao som apenas de seu passarinho de estimação, sua única companhia e cujo piado pontuará momentos importantes da narrativa. Costello é um fantasma, na verdade, e o que muito contribui para isso é a interpretação minimalista de Delon, este grande ator. E, assim, quase que sem diálogos, o filme prossegue acompanhando-o nos preparativos para uma nova tarefa. Antes do crime, porém, a preparação para o crime, mostrada em minúcias, como o roubo do carro, o teste para fazer o contato na ignição no veículo com o molho de chaves que ele carrega o tempo todo, a troca de placas, a obtenção da arma e, sobretudo, de um álibi, feito por meio de um acordo com uma garota de programa (a bela Natalie Delon, mulher de Alain), suposto interesse romântico do protagonista. Feitos os disparos em cima de um dono de night club, cumprida a missão. Ou nem tanto, já que ele é visto no clube por uma cantora de jazz e depois detido pela polícia para averiguação, numa seqüência antológica de sucessivas acareações. O álibi irrefutável dado pela garota de programa o liberta. Assim como o depoimento da cantora de jazz que, por algum motivo, finge não tê-lo reconhecido. Mas, quando Costello vai receber o pagamento, é quase morto e depois perseguido pelos que o contrataram. E também sofre a desconfiança do inspetor de polícia (François Perier), que, astuto e determinado, passa a vigiá-lo com escutas e segui-lo pelo metrô. Para isso, a geografia de Paris, a filmagem in loco das suas ruas e dos seus subterrâneos, que se desdobram em inúmeros túneis, tem um papel importante, sobretudo na construção do suspense, neste filme soberbo do início ao fim, rico em detalhes, com ótima edição e influência decisiva para Michael Mann, The Killer, de John Woo, O Profissional (menos), de Luc Besson, e Ghost Dog, de Jim Jarmush, entre outros.

8 comentários:

Ailton disse...

Sou um completo analfabeto em Melville, David. Esse seria o filme ideal para se iniciar no cinema do diretor?

Lorde David disse...

Não sei. Eu também não vi muitos. Vi este, que foi o que mais gostei, Bob, O Jogador (que foi refilmado pelo Neil Jordan em Um Lance de Sorte), Dinheiro Sujo e O Círculo Vermelho. Os últimos são bons também. Mas acho que O Samurai é o mais emblemático, pelo título, pela persona do Alain, perfeito no papel, pela perseguição no metrô, etc. E também porque tem em DVD, assim como Dinheiro Sujo.

Ailton disse...

Não sabia que tinha em dvd nacional.

Thales Oss disse...

Como o amigo Ailton disse anteriormente, também sou um completo analfabeto em Melville. Mas, me interessei por esse filme, vou dar uma procurada, ainda mais tem em DVD, como David disse agora. Valeu a dica.

Osvaldo disse...

Vou receber cópia do disco da Criterion em breve. :)

Finalmente verei esse filme!!

Bela foto que você escolheu do Delon, David.

Lorde David disse...

Muito bom, Osvaldo. Há muito tava namorando esta edição importada até o lançarem por aqui.

O DVD nacional foi editado pela Silver Screen, que creio que é um selo da Continental. Mas provavelmente foi ripado deste DVD da Criterion que o Osvaldo mencionou, pois a imagem está excelente, apesar da legendagem meio bizarra.

Osvaldo disse...

David, se interessar, é só falar. ;)

Lorde David disse...

Valeu, Osvaldo! Um abraço.