terça-feira, dezembro 11, 2007

Across the Universe

(EUA, 2007)



No cinema, a diretora de teatro americana Julie Taymor já foi beeem mais inventiva no maquiavélico Titus (1999) e até no superficial, mas colorido Frida (2002), compensando os personagens rasos e convencionais deste último com uma riqueza visual fora do comum em cada seqüência. Aqui, numa longa mistura que evoca Hair com Rent (só que sem a Aids!!!), com um pouco de Pink Floyd – The Wall e muito, mas muito amor livre ou nem tanto, porque “All We Need is Love”, “Love is All We Need”, “All My Loving”, várias canções conhecídissimas dos Beatles, inclusive a do título, servem de gancho e evolução para a estória rasteira e cheia de óbvias referências visuais do estivador inglês de Liverpool (claro!) e wannabe artista plástico propositalmente chamado de Jude (Jim Sturgess) que, na busca pelo pai na América e, sobretudo, pelo auto-conhecimento (o que quer que isso seja), encontra a sua muito bem-nascida "Lucy In The Sky With Diamonds” (Evan Rachel Wood), a sua cara-metade. Antes, conhece também Max (Joe Anderson), o rico irmão de Lucy. Max, playboy da fraternidade, abandona a faculdade em Princeton e todos partem para morar juntos numa república na Vila Madá, ou melhor, num loft no Greenwich Village nova-iorquino, dividindo o espaço com outros artistas, como a sexy cantora Sadie (Dana Fuchs) e seu amante, o músico Jo-Jo (Martin Luther McCoy), em plena efervescência cultural e política do final dos anos 60. Com a contracultura a todo vapor, a guerra do Vietnã explodindo e o movimento de Martin Luther King pela igualdade racial pegando fogo, o jubilado playboy Max é literalmento convocado pelo Tio Sam a servir na Indochina. Sem escapatória, claro. E Jude vê a engajada Lucy aderir cada vez mais às passeatas e movimentos contra a guerra. E, pouco ligando para a política, sente perdê-la para a causa. No fundo, costurando inúmeras referências da época, uma sucessão irregular de clipes mais calculados que verdadeiramente delirantes ou menos extravagantes do que se poderia esperar de um material desses, mesmo quando “The Benefit of Mr. Kite” dá origem a uma seqüência circense cheia de malabarismos visuais estrelada por Eddie Izzard, ou quando Bono aparece travestido de Dr. Robert, guru espiritual da galera, e engata nossos heróis por uma jornada psicodélica ao som de "I Am The Walrus" num ônibus escolar riponga em direção à Califórnia, para juntos fazerem todos “o teste do ácido do refresco elétrico”. Tudo de mentirinha. Os nossos heróis ficam no meio do caminho. Assim como o filme. Mas as mais de 30 canções dos Beatles que empurram o que sobra da narrativa são sempre irresistíveis, mesmo quando cantadas pela (boa) voz dos atores e em arranjos de ritmo muitas vezes mais lento do que o usual, como “Let It Be” ou “I Want To Hold Your Hand”, aliás um belo momento entoado pela “Dear Prudence” (T.V. Carpio), lamentando no início do filme um amor não-correspondido.

No fundo, apesar da forma e da temática anos 60, um filme muito, mas muito careta, totalmente condicionado ao amor monogâmico de hoje em dia, que é emblemático na busca de Jude por Lucy, na busca da parceira ideal, da cara-metade dos sonhos artificialmente coloridos e da necessidade de exibi-la para todo o mundo como um troféu, como um fetiche agarrado, como demonstra a cena final no alto do prédio, declaração coletiva de amor pretensamente romântico que não esconde o seu conservadorismo triunfal. Isso em época de amor livre, de amor grupal, de amor coletivo, negando o verdadeiro espirito da contravenção amorosa dos anos 60 em cada fotograma retocado artificialmente e sintonizando-o a estes nossos tristes tempos em que ninguém parece disposto a ficar só ou a buscar em vários parceiros ou relacionamentos de descobertas os seus vários amores que se completam, senão um único que se quer que se jure o tempo todo que será eterno, sacramentado, com papel passado e tudo, depois pelo casamento, ou pelo morar juntos que, aos olhos da lei, ganhou a estranha e medieval denominação de "concubinato". Ou seja, pelo supostamente viveram felizes para sempre, pelo dividir a casa juntos, por fazer planos de classe média para o futuro somente depois de alguns meros encontros, vislumbrando um ideal que não existe. Se existisse, não haveria, em contrapartida, tanto divórcio por aí. Com papel passado e tudo.

1 comentário:

ludmila disse...

esse filme e maravilhoso