terça-feira, dezembro 04, 2007

A Vida dos Outros

(Das Leben der Anderen, Deutschland, 2006)



Um ótimo filme... para um filme alemão. Ou seja, quadradão e convencional do início ao fim, talvez refletindo um pouco do cotidiano excessivamente regular na sombria Alemanha Oriental (“die DDR”), anos antes da queda do Muro de Berlim, um país cuja população era mantida sob estreita vigilância pela temida Stasi, uma das maiores polícias secretas do mundo, com espiões e informantes em toda a parte, muito empenhados em fornecer ao governo comuna informações detalhadíssimas do comportamento de cidadãos considerados suspeitos, ou melhor, simpatizantes do “decadente e burguês” modo de vida ocidental. Um os espiões, o rígido capitão Gerd Wiesler (Ulrich Mühe) se encarrega de vigiar um dramaturgo de Berlim, Georg Dreyman (Sebastian Koch), que, apesar dos exemplares serviços prestados à pátria comunista, com peças que inclusive exaltam o regime dos comedores de criancinhas, faz sucesso também do outro lado do muro, o que evidentemente gera suspeitas de traição. Aos poucos, porém, em sua obstinada vigilância por meio de escutas, telefones grampeados e gravações, o solitário Gerd vai se envolvendo mais e mais com o cotidiano agitado de Georg e, sem motivo aparente, passa a omitir em seus relatórios diários detalhes do comportamento do dramaturgo considerados comprometedores, especialmente quando este decide colaborar com uma publicação ocidental, num artigo versando sobre adulterações no número de suicídios no regime totalitário.

Envolvente em seus detalhes, minucioso na reconstituição do trabalho pra lá de voyeurístico (ou paranóico mesmo) dos agentes, apesar da mudança de lado um tanto inverossímil para um duro carrasco voluntário da Stasi, o filme, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, com eficaz, embora impessoal, direção do debutante em longas Florian Henckel von Donnersmarck, é conduzido sobretudo pela excelente interpretação do já falecido Ulrich Mühe como o oficial pleno de ambigüidades, mas cujo modo discreto de agir prevalece até o final comovente, mas contido, que evita o drama rasgado: “Es ist für mich” (“É para mim”). Sehr gut!

4 comentários:

Demas disse...

Quadradão mesmo! O roteiro é tão didático que chega a irritar em muitos momentos. O filme é de Ulrich Muhe, cuja boa atuação dá um pouco mais de credibilidade para a quinada que seu personagem estabelece no meio do filme. Mas a película não merecia Oscar não.

Abração

Lorde David disse...

É que os alemãos são muito sistemáticos, até no roteiro, hehehe. Mas eu acho que mereceu o prêmio, sim. Faz bem o estilo dos filmes de língua estrangeira que ganharam nos últimos anos. Vejamos: Mar Adentro, Lugar Nenhum na África, Infância Roubada..., tudo filme edificante ou quadradão, trabalhos encharcados de boas intenções. Este atual ganhador ao menos não me aborreceu. Danke für den Komment, mein Herr!

Demas disse...

Hoje, algumas horas depois de ter visto o filme e após pensar um pouco mais sobre ele, confesso ter enxergado outras virtudes. Mas a quinada do personagem do agente continua sendo uma pedra no sapato. E se a escolha do Oscar é preferir o "filme edificante" ao "melhor filme", a estatueta foi sim para as mãos certas. Esse é um desvio da academia que me irrita, mas... fazer o quê?

Abração

Lorde David disse...

A guinada é meio difícil de engolir, mas deixando de lado esse "detalhe", dá um filme bem digno... de ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro, pois, como já afirmei, certamente a categoria que mais laureia obras convencionais, depois do Nobel de Literatura, hehehe.