quinta-feira, novembro 22, 2007

Mutum

(Brasil/França, 2007)



O universo literário-atemporal-metafísico de João Guimarães Rosa é muito bem transposto para as telas por Sandra Kogut nesta sensível, mas nunca sentimental adaptação de Miguilim, a novela original que, junto com Manuelzão, compõe o livro Campo Geral. Ao manter a fidelidade à linguagem poética do texto de Rosa em muitos dos diálogos, na verdade todo um discurso trabalhado e transfigurado em outra língua, que nada tem a ver com regionalismos e exotismos e que, no entanto, nunca soa artificial ou pomposo, saindo com naturalidade da boca dos atores, em sua grande maioria "não-atores", a diretora Kogut narra com o mínimo de recursos, mas bastante apuro, dispensando inclusive o uso da trilha sonora invasiva, limitando-se aos ruídos ambientes e, mais importante, às elipses, a estória de Miguilim, aqui Thiago (Thiago da Silva Mariz), um menino do sertão mineiro às voltas com o pai bruto (João Miguel, de Cinema, Aspirinas e Urubus) cada vez mais agressivo, que, além de bater nele e na mãe, num dos surtos, manda embora a cadelinha Rebeca, a sua favorita, coisa que não compreende por quê. A oras tantas, seu irmão e muito amigo Felipe (o Dito no conto original) fica enfermo e falece, entre outros fatos ruins e igualmente incompreensíveis que presencia, que acontecem por acontecer e que compõem o duro processo de crescimento e aprendizagem de Thiago, nesta parábola de cunho universal sobre ver melhor. Sobre Thiago/Miguilim transcender este seu mundo pouco nítido e encarar o mundo dos adultos com outro olhar, conforme atesta o belo final, que, tal qual no livro, muito me comoveu em sua enganadora simplicidade.

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