terça-feira, março 06, 2007

Notas Sobre um Escândalo

(Notes on a Scandal, Reino Unido, 2006)



Numa sociedade de desejos reprimidos, como a britânica, o escândalo do título virá, de uma forma ou de outra, neste drama intimista, adaptado por Patrick Marber (Closer) de romance de Zöe Heller, em que uma veterana professora de História, a solitária Barbara Covett (Judi Dench), afeiçoa-se obsessivamente pela colega recém-chegada numa escola reformista de Londres, Sheba Hart (Cate Blanchett), e que vai ensinar Artes Plásticas. Descobrirá que ela, uma “burguesa boêmia”, casada com um homem bem mais velho (Bill Nighy) e mãe de dois filhos, um deles portador de Síndrome de Down, está tendo um caso com um dos alunos (Andrew Simpson), de 15 anos, e em vez de delatá-la para o diretor, para o qual não tem a mínima simpatia, guardará a informação para si de forma a manipular Sheba e se aproximar ainda mais dela, com desdobramentos dramáticos para todos os envolvidos. “Estamos unidas por um segredo que dividimos”, Barbara sentenciará certo momento, provocando o dilaceramento a partir da palavra, sutilmente enunciada. Mas também pagará por isso.

Narrado a partir das páginas do diário de Barbara, num tom ora amargo, ora irônico, mas sempre contundente, pela direção precisa de Richard Eyre (Iris, 2001), o suspense progride de forma envolvente, apoiado pelo trabalho de um elenco excepcional, com duas atrizes esplêndidas, como sói acontecer no cinema britânico, e pela música de Philip Glass, que há tempos nunca se encaixara tão bem na narrativa como aqui, dando mais fluência ao andamento concentrado da história. Como na série para piano Metamorphosis, escrita nos anos 80, ou nas trilhas sonoras que compôs para Koyaanisqatsi (1982), Mishima (1985), Kundun (1997) ou Roubando Vidas (2004), Philip Glass tem feito o mesmo tipo de música estruturada na repetição de pequenos trechos melódicos ou rítmicos, com pequenas variações através de grandes períodos de tempo, e sutis modulações harmônicas, dando ao ouvinte a sensação de hipnose ritualista, num contínuo fluxo de vai-e-vem. Na cena final do filme, por exemplo, após a eclosão do escândalo, a composição de Glass assinala que tudo voltará a ocorrer, com novas vítimas, inocentes ou não, e novas páginas do diário de Barbara serão preenchidas. De novo, de novo e de novo.

3 comentários:

Alê disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blogue.
Alê disse...

Esbanjando Lingüa Portuguesa, hein? Poucas vezes nesses meus 30 anos vi o emprego do belo verbo "soer". Grande David! :)
E grande filme! Que espetaculares as atuações das duas, não?
Beijo.

Lorde David disse...

As duas são maravilhosas. Mesmo se o filme não fosse tão bom (o que não é o caso), já valeria pelas duas. E ainda tem o Philip Glass, no melhor da sua forma. E eu adoro esse verbo. Um beijo, querida e obrigado pelo elogio.