terça-feira, dezembro 12, 2006

O Crocodilo (Il Caimano, Itália/França, 2006)


O cinema é fantasia, mas também plataforma para reflexão política. Da mesma forma que em Caro Diário e Aprile, Nanni Moretti junta as duas coisas neste metalingüístico O Crocodilo, sem esquecer do humor. Aqui, menos narcisista, faz uma crítica direta ao governo marcado pela corrupção do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, o cidadão Kane italiano, histriônico, magnata da mídia e do futebol, ao centrar foco no produtor Bruno Bonomo (Silvio Orlando), responsável por dezenas de produções de baixo orçamento comuns na Itália dos anos 60 e cujas histórias (como “Cataratas” e “Freud Versus Maciste”, por exemplo) só servem para entreter seus filhos hoje em dia. Em baixa, ainda que homenageado com um tanto de sarcasmo num festival de cinema como o “homem que inventou o cinema de gênero bem antes de Tarantino”, e com a sua produtora indo à bancarrota, ele ganha uma chance de voltar ao batente numa produção épica sobre Colombo para a RAI. Assim, sem mais, oferece ao executivo da emissora o roteiro de um longa de uma jovem e idealista cineasta (Jasmine Trinca) sem ter lido todo o material. Mas trata-se de uma sátira à ascensão de Berlusconi, il Caimano do título original, quando ninguém tinha coragem de criticá-lo. Ainda assim, a produção começa e os problemas vão se somando: inexperiência da novata diretora-roteirista, atores que desistem do papel principal, cortes no orçamento, além do desmoronamento do casamento de Bruno com a atriz e heroína de seus filmes, o que o deixa desesperado.

A crítica política segue paralela às tentativas do produtor de erguer o filme a todo custo, alternando cenas do longa a ser produzido com imagens verídicas de Berlusconi expondo a nação italiana ao ridículo, como num célebre pronunciamento em que constrangeu o Parlamento Europeu ao convidar um deputado alemão a interpretar um nazista para um filme. Ao final, o “Crocodilo” da diretora estreante finalmente ganha forma, “sai da água”, e o filme assume de vez seu caráter panfletário, feroz, com a presença do próprio Moretti interpretando Berlusconi, num desfecho amargo, verborrágico, que destoa do bom humor do restante da narrativa. Ainda assim, em seus melhores momentos, O Crocodilo é uma bela homenagem ao cinema italiano e suas várias vertentes (política, social, exploitation, imitação barata de similares americanos ou tudo junto) e ao cinema em geral e vale sobretudo pelos momentos cômicos, divertidíssimos, proporcionados pela tragicômica atuação de Silvio Orlando como um picareta de bom coração capaz de soluções à Roger Corman para viabilizar qualquer filme B, seja de piratas (rodado numa piscina), seja esta sátira política, feita com cenários reaproveitados, como os antigos westerns que produzia.

2 comentários:

Alê disse...

Queria ver de novo pra conferir aqueles cinco minutos iniciais que perdi. Não seria nada mau, já que o filme é uma delícia.
Beijo.

Michel Simões disse...

Eu vi ontem, e achei o filme meio torto, estava gostando até os últimos 20 minutos!!!
abraço!