sexta-feira, dezembro 01, 2006

A Fonte da Vida (The Fountain, EUA, 2006)


Muitos torceram o nariz, alguns gostaram, outros simplesmente cochilaram. A Fonte de Vida tem se configurado como um dos filmes mais polêmicos do momento, especialmente nos minutos finais, propositalmente kitsch, com ecos de 2001 - Uma Odisséia no Espaço. Mas antes de ser um filme de ficção científica à maneira da odisséia de Kubrick, é, sobretudo, um melodrama sem-vergonha sobre a aceitação da morte, que concentra muito de seus melhores momentos no relacionamento amoroso entre Isabel (Rachel Weisz) e o cientista Tommy Creo (Hugh Jackman). Ela está morrendo de câncer, ele busca obsessivamente curá-la, testando fórmula extraída de uma misteriosa espécie de árvore nativa da América Central, que seria a mitológica árvore da vida procurada pelos espanhóis em tempos coloniais e cuja seiva traria nada menos que a imortalidade. Essa busca se estende por séculos, quando ele, já imortal e encerrado numa bolha espacial em companhia dessa mesma árvore, atinge os confins do universo e tem uma revelação que o conduz de volta ao tempo presente, quando descobre que aquilo tudo que buscava se encerrava nele mesmo.

The Fountain, em alusão ao ciclo de vida e morte, é narrado de forma cíclica, não linear, misturando três épocas distintas que se tocam, com idas e vindas entre elas, e que são pontuadas na narrativa por elegantes fusões e passagens de cena, aproximando presente, passado e futuro. Daí também a profusão de formas circulares que permeiam visualmente a estória, do anel entregue ao Conquistador pela Rainha Isabel da Espanha Inquisitorial, para onde o filme recua certa feita, aos círculos tatuados no braço de Tommy no futuro, num quebra-cabeça onde felizmente todas as peças não fazem questão de se encaixar plenamente.

A seqüência final, passada no futuro e alvo maior das críticas pelo new age brega, mas corajoso, leva Hugh Jackman ao transe como um simulacro de Buda para melhor demolir as convicções gestadas ao longo dos séculos em sua mente, sejam elas místicas ou científicas. Pela forma kitsch do Buda e de todo o resto, assume-se que não há sagrado ou misticismo; há apenas crenças retroalimentadas pelo auto-engano, construções imaginárias, que fazem o tal homem, ao buscar o fim do curso natural das coisas, se curvar a falsas convicções, consumindo-se por elas. Por isso, os três tempos narrativos podem ser na verdade um só, um delírio situado na mente do protagonista. O momento final não é tão transcendente quanto se esperava, talvez por terminar um pouco cedo, e o filme falha nesse ponto. Ainda assim, pode não ser o filme da vida de Darren Aronofsky, mas está bem longe de ser a bomba do ano. Ou isso tudo é um auto-engano da minha parte?

7 comentários:

Ailton disse...

David, teu texto está tão elegante e bem construído que dá até impressão que o filme é bom. Hehehe

Lorde David disse...

Eu engano bem, hahaha!

Leandro Caraça disse...

Percebe-se que aqui não há o mau humor dos outros blogs mas sim a vontade de se analisar o filme. :)

Lorde David disse...

Obrigado pela nobre visita, Leandro. E tem toda a razão, de mau humor já bastam os outros blogs.

Alê disse...

"Outros simplesmente cochilaram". Senti uma alfinetada aí. ;)
Brincadeiras à parte, seu texto está absolutamente brilhante, e acendeu ainda mais minha vontade de rever o filme.
Beijinho.

Michel Simões disse...

Opa, então somos 3 q gostaram do filme hehe!!!

Lorde David disse...

Alê: revendo, acho que você vai gostar da história de amor dos dois. Foi também o que mais me chamou a atenção.

Michel: gostei sim do filme. Pode ter suas falhas, mas Aronofsky abraça o projeto com vontade.