quinta-feira, janeiro 31, 2008

Paranoid Park

(EUA/França, 2007)



Um skatista, pendurando-se nos vagões de um trem em Portland, provoca a morte de um segurança da ferrovia. Morte acidental, está claro, mas que fará Alex, o responsável pela tragédia que abala a cidade, a se calar e a se reinventar emocionalmente por meio de palavras que vai rabiscando nas folhas dispersas de um caderno. Ato ocorrido, ato relembrado, refeito, enterrado, recontado aleatoriamente por intermédio da palavra escrita, que vai dando, em várias páginas rascunhadas, alguma forma e profundidade poética ao cada vez mais taciturno Alex, num mundo onde os adultos não se fazem presentes, a não ser desfocados ou nas breves aparições do detetive que investiga o caso, que os adolescentes skatistas fazem questão de zombar, ou do pai de Alex, além do segurança, que é cortado ao meio pelo trem ao tropeçar nos trilhos. Ato que obsessivamente se fará presente na caligrafia de Alex, que narra o filme, mas que ainda assim não dará conta de dar sentido a este seu universo particular de pais que se divorciam e adultos ausentes, em que outros jovens criam o seu próprio mundo acolhedor, representado pelo Paranoid Park do título, o parque onde os skatistas flutuam em manobras radicais, assim como o filme, e ponto de encontro de desajustados e a materialização posterior da paranóia de Alex, ao relembrar com culpa do ocorrido e o de querer contá-lo sem sucesso a alguém, calando-se, certa feita, para a namoradinha fútil que quer perder a virgindade, para o amigo Jared (ou se confundindo com ele) e dando as costas para o skate. É o diretor Gus Van Sant criando por meio de sofisticadas amarrações da banda sonora, mesclando o clássico de Beethoven ao melancólico som country, em imagens que também flutuam graças à fluida câmera de Christopher Doyle, o tédio e a opacidade desse universo adolescente, enigma e obsessão do diretor, mesmo em seus trabalhos mais redondinhos e convencionais, como Gênio Indomável (1997) e Procurando Forrester (2000), e que aqui ganha mais espessura pelo visual que mescla diferentes texturas de películas. Preenchido o caderno, no entanto, Alex volta para seu mundo, para o seu "Paranoid Park". As palavras não servem para a redenção, como em Encontrando Forrester. O autor do relato escrito mantém-se distante, amorfo, sem demonstrar remorso. Mantém-se assim o enigma e prevalece a contemplação do tédio e da alienação adolescentes, em filme que, obviamente, é também contemplativo em sua monotonia, à maneira do Van Sant de Gerry, Elefante e Últimos Dias.

2 comentários:

Osvaldo disse...

Quero demais ver... acabei perdendo de ver em sessões especiais no finalzinho do ano passado. Fui dar preferência no meu horário p/ DEATH PROOF e INLAND EMPIRE.

Lorde David disse...

Oi, Osvaldo. Acredito que em breve o filme esteja aportando por aí. Em algumas cidades, já está passando em esquema de pré-estréia. Um abraço.