segunda-feira, janeiro 14, 2008

O Suspeito

(Rendition, EUA, 2007)



Eita ano que começa mais uma vez bem devagar, quase natimorto, com as coisas e o que deveria importar mais, o reencontro com conhecidos e conhecidas, a cada semana, ficando só para o sempre depois do Carnaval e olhe lá. Bom, cada um com as suas exclusivas obrigações sociais, fazer o quê. Pelo menos o tal do Carnaval vem mais cedo este ano. Enquanto isso, há o excelente Atonement, com o ridículo título de Desejo e Reparação nos cinemas daqui, e também nas livrarias e com título mais correto de Reparação, de Ian McEwan. E há também este bom filme do diretor Gavin Hood, cujo anterior, o irregular Infância Roubada (2005), ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2006. Neste, um engenheiro químico egípcio, Anwar El-Ibrahimi (Omar Metwally), mesmo com Green Card e casado com uma americana (Reese Whisterspoon), após voltar de uma conferência na África do Sul, é detido no aeroporto de Washington sob a suspeita de estar envolvido num atentado que matou um agente americano da CIA no Egito. E, sob a alegação jurídica da Rendição Extraordinária, em que um suspeito de terrorismo pode ser capturado sem qualquer aviso pelo governo americano e transportado para escuras e labirínticas prisões fora do país para interrogatório, diga-se tortura, sem acusação formal ou direito a advogado, pois estaria fora da jurisdição dos EUA, Anwar é levado de volta para a África, onde, no Egito, é torturado por Abasi Fawal (o bom ator israelense Yigal Naor), chefe da polícia local, sob a supervisão do novato agente da CIA Douglas Freeman (Jake Gyllenhaal), em sua primeira e top secret missão de “tortura”. Um pesadelo digno de Kafka. Ao mesmo tempo, a esposa de Anwar, grávida, empreende em Washington uma jornada por gabinetes de políticos e assessores para descobrir o paradeiro do marido e até tentar se aproximar da rígida Secretária de Estado Corrine Whitman (Meryl Streep), responsável pela transferência secreta dele.

Depois do esquizofrênico O Reino (2007), do regular O Preço da Coragem (2007) e do bom Leões e Cordeiros (2007), mais uma vez o Oriente Médio como foco eterno de perturbações ligadas ao terrorismo para o Ocidente, muito por culpa do próprio Ocidente. Pois se questiona aqui a atuação moral dos agentes, analistas e políticos ocidentais para com seus próprios cidadãos, num filme coral, com vários personagens se entrelaçando de maneira até bastante óbvia, quando não inverossímil, e que está mais, no tom de suas várias narrativas que correm paralelamente, mesclando dramas familiares diversos com fanatismo, terrorismo que nasce entre os jovens estudantes das mesquitas e atuação autoritária da polícia do Egito em sua repressão, sem muita sutileza no tratamento, para os típicos melodramas corais egípcios como A Outra (1999), do cada vez mais tosco Youssef Chahine, ao recente Edifício Yacoubian (2006), de Marwan Hamed, do que para o excelente thriller Syriana (2005), também um filme coral. O fato de boa parte deste O Suspeito ser falado em árabe, além da boa ambientação no país, só corroborou essas minhas impressões. Ainda assim, interessante e envolvente de se assistir, por conta do sólido elenco, que conta ainda com Allan Arkin, como um senador, Peter Sarsgaard como o seu assessor e ex-namorado da esposa de Anwar, e da boa condução de Gavin Hood, inclusive na reviravolta final, que, por conta da ótima montagem, de fato, me pegou de surpresa.

6 comentários:

Ailton disse...

Também gostei de O SUSPEITO. Vi ontem mas fiquei incomodado com a péssima projeção, com tudo que era branco, inclusive, as legendas, fazendo rastro na tela. Nem eu nem ninguém teve coragem de se levantar pra reclamar. Shame on us.

Thales Oss disse...

Parece que foi ontem que Reese Whisterspoon saiu de fitinhas medíocres como "Legalmente Loira" para fazer parte do grande escalão hollywoodano.

Vendo os posts anteriores, vi que vc escreveu sobre o Hot Fuzz. Pra quem curtiu Shaun of the Dead ( no meu caso ) vai se amarrar. Pois o diretor conduz o filme com tom de comédia e suspense. Porra, o gordinho adora "Point Break". Hahahahahaa.

Lorde David disse...

Deveria ter reclamado, Ailton. Ou melhor, torturado o projecionista, hehehe.

Thales, eu até gosto de Legalmente Loira. Acho bem mais interessante que Johnny & June, que deu o Oscar à Reese. E Hot Fuzz é duca. Uma das poucas coisas que me animaram de fato no deprimente final do ano passado. Um abraço.

Ailton disse...

Gostei da idéia da tortura. Mas aí eu ficar muito estressado. hehehe

Demas disse...

Vi hoje. Gosto da maneira como Gavin Hood cria uma atmosfera de tensão (inteligente) nos seus filmes. Já gostara de "Infância roubada" e do curta "The storekeeper". E nesse "O suspeito" ele está melhor.
Abração

Lorde David disse...

Achei Infância mais ou menos, Demas. Deste eu gostei bem mais.