terça-feira, janeiro 08, 2008

Coisas que Perdemos pelo Caminho

(Things We Lost in the Fire, EUA, 2007)



Depois de um necessário período offline, sem fazer qualquer promessa inútil para o 2008 que se avizinhava, lendo Lawrence Block, Patricia Cornwell e Darkly Dreaming Dexter, praticando saudáveis esportes ao ar livre, como tiro ao ganso ("Adoro o cheiro de pólvora pela manhã! Cheira a vitória!") e pesca ilegal de trutas, trocando olhares, sorrisos e flertes diários com as corredoras de belas pernas bronzeadas do Parque Portugal campineiro, além de comer paçoquinha vez ou outra no lugar da farofa do peru, eis que retorno nem tão gloriosamente por estas bandas largas deste ainda nebuloso e incerto Ano Novo para fazer o que faço melhor. Ou seja, abrir como ninguém home pages, blogues e sites diversos, ler e-mails, deletar e-mails, rascunhar e-mails nunca enviados, deletar rascunhos desses e-mails nunca enviados, pesquisar no Google, baixar sinfonias ou composições emblemáticas do dodecafonismo vienense e trilhas musicais variadas a partir do período atonal, bisbilhotar no Orkut ou na Amazon.com, ou apagar sem ler e sem culpa spams de pesadas telas edificantes de PowerPoint “como nunca antes neste paíz”, essas coisas. Eventualmente, atualizar este espaço meio abandonado com um breve comentário sobre mais este bom filme da diretora dinamarquesa Susanne Bier. Oriunda do movimento cinematográfico dinamarquês DOGMA 95, que revelou nomes como o polêmico Lars Von Trier (Os Idiotas, Dançando Escuro, Dogville) e Thomas Vinterberg (Festa de Família, Querida Wendy), Bier estréia firme em Hollywood num drama não muito distante das características formais que definiram aquele movimento, como o uso espartano da música, iluminação naturalista, cortes bruscos na montagem, às vezes propositalmente truncada, câmera quase que o tempo todo na mão, mas sem "treme-treme", colada no rosto dos atores ou acompanhando-os sempre, uma estória que, no rascunho, tende ao melodrama e, principalmente, ênfase nas interpretações. Além disso, na trama, como não poderia deixar de ser, há muitos pontos de contato com seus trabalhos anteriores, especialmente com Brøthers (2004) e Depois do Casamento (2006). Neles como neste, um “outsider”, aqui muito bem vivido por Benicio Del Toro como um junkie tentando se livrar do vício da heroína, devido a um trágico acontecimento, é inesperadamente reunido a um meio familiar estranho a ele, pois tipicamente burguês. O marido (David Duchovny, o eterno Agente Mulder da série Arquivo-X e o “fornicador” da nova série Californication) fora assassinado, deixando sua esposa (a bela Halle Berry) e os dois filhos obviamente desconsolados. No entanto, há uma coisa que liga a família a esse “forasteiro”, além da cerimônia fúnebre para a qual é inesperadamente convidado: o patriarca, um bem-sucedido empreendedor imobiliário, morto com um tiro enquanto tentava salvar uma desconhecida do espancamento pelo marido agressor, era o seu único amigo e dele nunca desistira, mesmo diante das circunstâncias que naturalmente os afastariam. A ausência inesperada dele deixa a casa com mais quartos vazios. Como pretexto para terminar de reformar um cômodo detruído após um incêndio, o estranho, recuperando-se do vício, vai ocupar um dos quartos por inexplicável convite da viúva. E, como em Brøthers, ele vai se aproximar da família, sobretudo dos filhos, e do vizinho (John Carroll Lynch, de Zodíaco). Também como em todos os filmes da diretora, inclusive Corações Livres (2002), a cumplicidade entre esses indivíduos desnorteados vai aos poucos se estabelecendo essencialmente pelos olhares, captados por belos planos-detalhes por sua observadora câmera. No entanto, sem lágrimas em excesso nesses olhos tristes que vislumbram uma redenção possível, pois essa estória, melodramática na aparência, é dirigida com o máximo de contenção por Bier, que ainda assim, e mais uma vez, não deixa de atualizar a seiva do melodrama clássico: aqui nunca rasgado, mas sempre visceral.

PS: E com algum atraso, a todos os leitores e eventuais xeretas que acompanharam este blogue ao longo do muito difícil ano de 2007, ora buscando somente sacanagem, ora lendo, comentando ou até divulgando os posts daqui, e especialmente ao brother Osvaldo Neto e ao sempre companheiro Ailton Monteiro, um feliz 2008, livre de brigas, frustrações e conflitos mesquinhos e que as emoções cinematográficas ou principalmente aquelas vividas fora das telas sejam ainda mais intensas e realizadoras para todos. Sempre. Um grande abraço e boa fortuna.

4 comentários:

Ailton disse...

Amén, Lorde David. :)

E que pena que eu não vi os filmes anteriores da diretora pra poder fazer esse estudo comparativo.

Lorde David disse...

E o penúltimo dela, Depois do Casamento, vi por acaso na Mostra de 2006. Passou meio escondido, poucos deram a devida atenção e depois acabou sendo indicado ao Oscar. Foi uma bela e grata surpresa.

Michel Simões disse...

Feliz 2008 David, e grande retorno com o primeiro páragrafo do post. Sobre o filme, gosto, mas o melodrama no final me incomodou um pouco, gosto do estilo de Bier que ela soube muito bem manter de seus trabalhos anteriores...

abraço,

Lorde David disse...

Gostei do melodrama no final, Michel. Nem achei tão carregado assim. Pode até ser impressão minha, mas acho que Depois do Casamento tinha até mais choradeira que este, hehehe. Um abraço.