quarta-feira, janeiro 09, 2008

Hot Fuzz

(Reino Unido/França, 2007)



“Yarp!”

De acordo com a ágil e muito bem sacada abertura deste filme de Edgar Wright, Nicholas Angel (Simon Pegg) é o melhor oficial da Polícia Metropolitana de Londres. Sério e dedicado, detém o recorde de prisões e detenções, é especialista em controle de motins e tumultos, em prevenção ao crime, em estourar bocas de fumo e também em conquistar a simpatia dos cidadãos, em jogo de xadrez, esgrima, piruetas, direção perigosa e até em manobras radicais com uma bike! Isso tudo evitando ao máximo disparar uma arma, mesmo quando vez ou outra é esfaqueado por suspeitos travestidos de Papai Noel! Tão bom e eficiente que faz seus colegas da Força, ou melhor, do “Serviço”, parecerem uns maricas incompetentes. Assim, seus embaraçados superiores, alegando que ele pode querer ser o “xerife de Londres”, decidem transferi-lo para o interior da Inglaterra, mais precisamente para Sandford, um daqueles típicos e pitorescos vilarejos britânicos onde todos se conhecem, as pessoas são sempre amáveis, sorridentes, promovem concursos de jardinagem, fazem quermesse para arrecadar fundos para a reforma do teto da paróquia local e que, há anos, é sempre eleito o “vilarejo do ano”. Às vezes, um ou outro morador esconde arsenais inteiros nos porões de suas fazendas. Mas isso é o de menos... E é para lá que Nicholas, agora sargento, tem que rumar na companhia de seu inseparável “lírio da paz japonês”, onde chega expulsando e fichando adolescentes do pub, no melhor estilo "tolerância zero". No entanto, por causa das baixíssimas taxas de crime da cidadezinha, Nicholas não tem muito o que fazer a não ser tentar capturar um ganso fujão (“The Sandford Most Wanted Citizen”), tomar Cornetto durante as pacatas rondas diurnas com seu novo e simpático parceiro Danny Butterman (Nick Frost), o gorducho filho do inspetor (o sempre irreprochável Jim Broadbent), aspirante a Mel Gibson, doido para botar para quebrar naquela modorra, pois grande fã de filmes de ação policial, especialmente de Bad Boys II e Caçadores de Emoção, além agüentar as piadas infames de seus colegas nada sérios quando, por exemplo, seu nome sai grafado errado no tablóide do vilarejo como “Angle” pelo incompetente jornalista local, Tim Messenger (Adam Buxton). No entanto, suspeita-se de tanta tranqüilidade, especialmente quando vários cidadãos respeitáveis ou nem tanto de Sandford começam a ser mortos de maneira bem violenta. Ainda mais porque todo mundo, inclusive seus colegas da corporação, por preguiça ou falta de prática em lidar com assassinatos, atribuem insistentemente as bizarras mortes a meros acidentes. Menos Nicholas, claro, que teimosamente parte para investigar sozinho os supostos crimes. Ou com alguma ajuda. E não somente de seu lírio ou do ganso fujão...

Mais uma divertidíssima parceria da dupla Edgar Wright-Simon Pegg, os mesmos criadores da antológica série Spaced e da ótima sátira/homenagem aos filmes de zumbis que aqui teve o título de Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, 2004). Em Hot Fuzz, como Shaun of the Dead, ambos nunca lançados nos cinemas daqui, juntam um humor bem britânico à sátira feita às películas policiais americanas de ação à Michael Bay e aos buddy movies no estilo Máquina Mortífera, evitando-se, no entanto, as tiradinhas espirituosas à Will Smith e a sucessão e a repetição gratuita de gags forçadas, parodiadas dos filmes originais, como ocorre na já desgastada cinessérie Todo Mundo em Pânico ou no péssimo Deu A Louca em Hollywood (2007). Some-se a isso a ótima montagem, que garante uma transição quase perfeita entre uma cena e outra, além de caprichadas seqüências de ação, calcadas diretamente de Bad Boys e também do western, como no engraçado tiroteio final. E, acreditem, ainda sobram farpas para Romeu+Julieta, de Baz Lurman, e o filme é ainda mais abrilhantado com as participações de Timothy “James Bond” Dalton, como Simon Skinner, o mordaz gerente do supermarché local, de Paddy Considine (de Terra de Sonhos, 2002, Dead Man's Shoes, 2004, e O Ultimato Bourne, 2007), como o bigodudo e um tanto escroto investigador Andy Wainwright, de Martin Freeman (da série The Office original), em rápida aparição como o Sargento de Nicholas em Londres, e Bill Nighy (de Shaun..., Simplesmente Amor, 2003, The Girl in The Café, 2005, Notas de um Escândalo, 2006) como o Inspetor-Chefe de Nicholas na Polícia Metropolitana, sem deixar de mencionar a irresistível química dos protagonistas Pegg-Frost, repetindo a dupla campeã e hilariante de Shaun of the Dead. Uma das melhores comédias do ano passado que, deixando de lado a fina veia romântica de Shaun...(aqui não há um interesse amoroso para Nicholas e, se há, é despachado logo no começo), parte direto para a testosterona e, principalmente, para um humor dos mais corrosivos.

8 comentários:

Osvaldo disse...

Vi esse final de semana e também achei demais!! Penso que a turma conseguiu fazer algo ainda melhor do que SHAUN OF THE DEAD. :D

Leandro Caraça disse...

Edgar Wright é o novo John Landis.

Ailton disse...

Não saiu no Brasil com um título em português?

Lorde David disse...

Osvaldo, essa turma é mesmo genial. Aquele tiroteio no supermercado é muito insano. Fruit Attack! Hehehehe.

Leandro: Yarp!

Ailton, na programação da TV a cabo tava só Hot Fuzz. Na Internet, não achei nenhuma informação sobre algum título nacional, a não ser sobre um suposto subtítulo que acrescentaram: "Arma Fatal", que achei ridículo.

Lorde David disse...

Ah, Leandro, para complementar, acho que Wright tem também um pouco do estilo do Martin Brest dos anos 80.

Osvaldo disse...

"Ah, Leandro, para complementar, acho que Wright tem também um pouco do estilo do Martin Brest dos anos 80."

MIDNIGHT RUN!!!

Lorde David disse...

E Beverly Hills Cop, claro. :)

.Tiago Vitória disse...

De forma diferente - óbvio - fez-me lembrar o estilo irreverente e diferente do trabalhar cinematográfico de Tarantino: saber transformar um filme que poderia ser completamente NORMAL num outro bem mais divertido e marcante.