quinta-feira, novembro 01, 2007

Senhores do Crime

(Eastern Promises, Reino Unido/Canadá/EUA, 2007)



“Às vezes, na minha profissão, vida e morte vêm juntas”, é o que diz, em sentença emblemática, a enfermeira londrina interpretada por Naomi Watts a Nikolai (Viggo Mortensen, excelente), um motorista enigmático e guarda-costas da família de uma organização criminosa russa conhecida como Vory v Zakone e chefiada pelo patriarca Semyon (Armin Mueller-Stahl). Ao ajudar no parto de uma desconhecida adolescente russa, que morre ao dar à luz, sem intenção, descobre por meio de um diário encontrado nas coisas da menina, provas que incriminariam membros da família russa. O bebê sobrevive. Ela, também descendente de russos, após a recusa do tio, ingenuamente pede para Semyon traduzir o diário. Mete-se numa encrenca daquelas, pondo em risco a sua vida, a de sua família e a do bebê.

Aqui, David Cronenberg mostra que, ao contrário de seu trabalho anterior (mas sem contradizê-lo), o magistral Marcas da Violência (2005), o “histórico” de violência de um indivíduo como Nikolai, pertencente a essa seita do crime, cheia de códigos bem marcados, sobrevivendo num mundo à parte, numa Londres ameaçadora em cada fachada, não está oculto sob um falso nome, numa nova vida, sobre um passado violento que, mesmo enterrado, ressurge. Está lá impresso na forma de tatuagens, comuns entre os criminosos russos. Está, de cara, na superfície. Antes, o horror se ocultava diante da aparência de uma vida supostamente imaculada. Aqui, a aparência é marcada por horrores tatuados, depois por hematomas, materializados e intensificados à maneira de Cronenberg e seu "body horror", que pontua o filme, de andamento no todo plácido, embora carregado de tensão, com cenas de violência extrema, direta, sempre perturbadoras, como mutilações, perfurações, facadas, socos em que se ouvem os ossos quebrando ou esmagando e lacerações profundas na garganta. E também, graças a um roteiro coeso e enxuto, carrega como ninguém na ambigüidade dos personagens, especialmente em relação a Nikolai, a princípio um oportunista, a Seymon, a principio um velho avô simpático, e seu filho Kyrill (Vincent Cassel), a princípio, um sujeito agressivo e psicótico. Mas, só a princípio. Um filme rigoroso nos detalhes do dia-a-dia desses criminosos e apoiado por um elenco extraordinário resulta num trabalho de mestre. Simplesmente um dos melhores filmes do ano, do diretor de A Mosca (1986), Gêmeos – Mórbida Semelhança (88) e Mistérios e Paixões (91), entre outros, aqui num registro mais clássico, mas tão incômodo quanto em seus trabalhos mais gore.

4 comentários:

Osvaldo disse...

Depois de ver dois filmes como estes, não tem como um blogueiro ficar sem inspiração para fazer bons textos. Parabéns mais uma vez, David.

Abraços.

Lorde David disse...

Obrigado mais uma vez, Osvaldo. O impacto, sobretudo o do filme do Cronenberg, realmente foi grande em mim. Filmaço. Uma pena que só vão lançá-lo no ano que vem. O do Ferrara nem sei se vão. Um abraço.

Leandro Caraça disse...

Num ano normal esse filme ficaria no topo da lista. Mas nesse 2007 'atípico' eu colocaria "Senhores do Crime" entre os 10 melhores por enquanto (e olhe lá).

Lorde David disse...

Mesmo neste ano atípico, este filme figuraria fácil, não no topo, mas entre os meus 10 favoritos, ainda que eu não goste muito de listas.