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sexta-feira, janeiro 11, 2008

Conversas Com Meu Jardineiro

(Dialogue Avec Mon Jardinier, França, 2007)



Amigos inseparáveis nas travessuras da infância, separados depois pelas diferenças de classes com o fim dos estudos primários numa escola do interior da França, já que um, aqui certa feita apelidado de Dupincel (o sempre confiável e muito trabalhador Daniel Auteuil, de 36, Caché, Meu Melhor Amigo, Pintar e Fazer Amor, O Oitavo Dia, A Rainha Margot, etc.), é filho do proprietário da farmácia local, e o outro, apelidado de Dujardin (Jean-Pierre Daroussin, habitual colaborador do cineasta Robert Guédiguian, de Armênia e A Cidade está Tranqüila), de operários. O mais abastado, claro, vai estudar Artes Plásticas em Paris. Torna-se pintor de relativo êxito, especializado em retratar a calmaria do campo, onde se refugia na antiga propriedade da família para trabalhar e para esquecer um pouco o fato de que sua esposa o está deixando. E o outro se torna ferroviário na região até a aposentadoria, eventualmente trabalhando como jardineiro, até que um dia vai trabalhar na horta da propriedade de Dupincel, onde se reencontram. Aos poucos, as memórias os reaproximam, relembram anedotas e percebem que pouca coisa mudou no vilarejo em relação às folclóricas figuras locais, deixando de lado, em cada bate-papo, as diferenças sociais. Dupincel, por exemplo, encanta-se com a sabedoria popular de Dujardin, a ponto de utilizar parte do discurso do jardineiro, num momento divertido, para desmascarar um sujeitinho pretensioso, desses que existem às turras em eventos culturais e artísticos por aí, num vernissage em Paris.

Simpático filme de Jean Becker, filho do grande cineasta Jacques Becker (Grisbi, Casque D´Or, A Um Passo da Liberdade), que é exatamente o que enuncia o seu título: várias conversas entre o pintor e o jardineiro, entrecortadas por belas e tranqüilas imagens do campo e uma cena ou outra em Paris ou em Nice, onde o jardineiro passa as férias fora de temporada com a sua amada esposa (Hiam Abbass, de Free Zone e Munique), sem qualquer metáfora político-social, como quiseram ver alguns. Mas sobretudo boas e agradáveis conversas, diretas, cheias de humor, em que tipos antagônicos aprendem a enxergar o melhor de um e de outro, num belo exercício de alteridade, coisa rara hoje em dia, fazendo brotar novamente afinidades e interesses em comum, num filme simples e singelo, que é dirigido sem muito esforço por Becker, apoiado basicamente no charme dos dois protagonistas e na bela fotografia contemplativa. Mais isso basta, além de um final sinceramente comovente, ao som do sempre esplêndido concerto para clarineta e orquestra de Mozart, que certamente colabora para levar muitos às lágrimas. Como diria Voltaire, ou melhor Cândido, temos mesmo é que cultivar o nosso jardim, além de estar sempre com um Opidel (faca) e barbante para qualquer situação, como bem ensina Dujardin. E sem metáforas, por favor.

quinta-feira, março 29, 2007

Por Gentileza

(Après Vous..., França, 2003)



Comédia francesa leve e agradável, valorizada por um elenco muito acima da média e bem à vontade, em que Daniel Auteuil interpreta o simpático Antoine, ocupadíssimo gerente de um restaurante fino de Paris. Envolve-se com tudo, sempre. Um dia, na volta para a casa, evita que o frustrado Louis (José Garcia, de O Corte) cometa suicídio, enforcando-se numa árvore. Sente-se então responsável por ele. Leva-o para o casa, para desespero de sua noiva Christine (Marylene Canto). Arruma-lhe também emprego no restaurante como sommelier, apesar de Louis nada saber sobre vinhos ou como servi-los. Tenta também reaproximá-lo de sua antiga paixão, a adorável florista Blanche (Sandrine Kiberlain, de Betty Fisher e Outras Histórias e O Buquê), que namora um sujeito rude, que vive traindo-a, mas não larga dele por acreditar que, como quase toda mulher, é preferível estar mal-acompanhada do que só. Antoine se apaixonará por ela, agora para desespero (novamente) de Louis, pois será correspondido.

A direção de Pierre Salvadori evita os caminhos mais óbvios da comédia romântica tradicional, inclusive no desfecho, e o roteiro pavimenta o filme de complicações divertidas e bem armadas. O resultado final está mais para uma farsa, em que Auteuil e Garcia, tipos opostos, fazem uma dupla cômica cheia de química e que se sai admiravelmente bem em todos os qüiproquós, além do charme onipresente de Sandrine Kiberlain. Como não se apaixonar por ela?