Wer sich der Einsamkeit ergibt ("Aquele que se entregou à solidão") - Goethe
sexta-feira, abril 04, 2014
Promenade
quarta-feira, março 12, 2014
Liquidez
sexta-feira, dezembro 13, 2013
Intimidade (Intimacy, 2001)
Antes de Azul é a cor mais quente (Vie d´Adele, 2013), um outro filme, também francês (embora falado em inglês e passado na Inglaterra), ganharia a Palma de Ouro de 2001 em Cannes com sequências explícitas de sexo que, claro, não deixariam de causar polêmica e custariam a carreira da excelente atriz Kerry Fox (Um anjo em minha mesa, 1990, de Jane Campion), hoje renegada a papéis secundários. O longa de Patrice Chéreau, grande encenador teatral francês e diretor do maravilhoso épico sanguinolento A Rainha Margot (1994), investe no despojamento, na desglamourização, nos tipos londrinos comuns de sotaque cockney, sem corpos ou rostos exuberantes, para narrar a história de um barman (Mark Ryllance) que mora num sujo apartamento, numa região triste de Londres e semanalmente mantém em sua casa relações sexuais com uma mulher sobre a qual sabe muito pouco a respeito (Fox), à maneira de O último tango em Paris (1972). Um dia, resolve segui-la e fica sabendo que ela é casada com um taxista (Timothy Spall, gordo, feio e ótimo), tem um filho e atua em produções amadoras de teatro. Em flashbacks, ficamos sabendo que ele, um ex-músico, havia sido casado e um dia resolveu abandonar a mulher e os dois filhos, sem motivo aparente. Entre ele e o marido de sua amante, uma estranha cumplicidade se estabelece, não menos reveladora. E a "intimidade" dos dois amantes, feita de silêncios, respirações ofegantes e breves, às vezes brevíssimos, intercursos sexuais, se vê ameaçada, quanto mais ele tenta conhecer a vida dela e adentrar em seu mundo. Apesar do despojamento, da proximidade da câmera de Chèreau (recentemente falecido) dos rostos e dos corpos dos atores, da ambientação realista, o tom carregado de alguns diálogos, ditos num tom acima do desejado, muito próximo ao da representação teatral que do cinema, acaba prejudicando a proposta naturalista do filme, tornando-o artificial e "afetado" em alguns momentos. Ainda assim, um belo (e antierótico) filme sobre as diferenças muitas vezes inconciliáveis entre amor, sexo e intimidade, e o lado humano de tudo isso, com os filhos e a banalidade da vida conjugal.
quinta-feira, dezembro 12, 2013
O Gosto dos Outros (Le Goûte des Autres, 2000)
Na vida, há aqueles que dizem que a arte muda as pessoas. Que ela possuiria assim um papel educativo e transformador na vida de algum ser humano ignorante. Há os que creem nisso, com muita ingenuidade; há os que não. Há os que criticam isso simplesmente, como os franceses. Bom, franceses criticam tudo mesmo, criticam até as pessoas por aquilo que gostam ou deixam de gostar, na vida e nos relacionamentos, embora se enganem muito especialmente neste último quesito. Sobre o papel transformador da arte, seria mais ou menos isso o que acontece a Jean-Pierre Castella (personagem de Jean-Pierre Bacri, co-roteirista do filme), um rico industrial, um típico burguês grosseirão, provinciano e pragmático que, ao cumprir o protocolar papel de comparecer à estreia em Paris de Bérenice, peça de Racine, na qual sua sobrinha faz um pequeno papel, encanta-se com uma das atrizes (Anne Devereaux) e passa a assistir o espetáculo repetidas vezes. Passa também a frequentar jantares e reuniões com os colegas artistas dela, em que é frequentemente humilhado por eles, já que, na visão deles, se trata de um filisteu homofóbico, um estranho no ninho desse mundo estranho de gente esclarecida e dita progressista. Ainda assim, não desiste de conquistá-la; retoma as aulas de inglês com ela, embora ele seja incapaz de pronunciar palavras simples, em um dos momentos mais hilários deste filme de estreia na direção de Agnès Jaoui, roteirista e atriz de filmes de Alain Resnais, como o musical Amores Parisienses (1997). Da mesma forma que Amores..., Jaoui mantém a estrutura do filme coral, com vários personagens, nenhum deles sendo efetivamente o protagonista, se encontrando ou desencontrando em um bar onde Jaoui interpreta uma garçonete e que acaba se envolvendo, em momentos distintos, com dois seguranças de Castella (Alain Chabbat e Gerard Lanvin). Da mesma forma também que no filme de Resnais, Jaoui mostra que muito do que se pensa a respeito de alguém não passaria de autoenganos, equívocos e preconceitos banais. E consegue fazer isso num filme tipicamente francês, deliciosamente verborrágico e sarcástico, mas afetuoso com seus personagens e suas decisões equivocadas. Estabelece o ritmo de sua condução precisa a partir dos diálogos, sempre engraçados, mas não descuida das imagens e do que efetivamente tem que ser mostrado na cena cinematográfica, afastando qualquer indício de teatralidade. Enfim, uma grande estreia na direção que lhe valeu inúmeros prêmios na França e a merecida indicação ao Oscar de filme estrangeiro em 2000.
Agnès Jaoui e o marido Jean-Pierre Bacri, co-roteirista e ator nos filmes da esposa: ao contrário de muitos, um casal divertidíssimo.
quarta-feira, dezembro 11, 2013
Hardware - O Destruidor do Futuro (1990)
Lançada no final dos incertos anos de 1980, esta pequena e eficaz ficção científica foi injustamente tachada como um sub-Exterminador do Futuro (o subtítulo em português denuncia: obviamente tenta pegar carona e faturar em cima do filme de Cameron). No entanto, apesar das semelhanças, já que o enredo, concentrado, trata de um robô enlouquecido, Mark 13, em perseguição incansável a uma mulher num futuro apocalíptico, seu final é mais sombrio. Sua atmosfera, mais árida. A direção, na estreia em longas do diretor de videoclipes Richard Stanley, sabe desde o início o que quer e nunca deixa deixa o andamento narrativo cair. Concentra a ação em poucos ambientes - o deserto vermelho do começo, o depósito de sucata, o pequeno apartamento em Nova Iorque, palco de quase toda a ação. E intensifica o combate entre homem e máquina, esta achada num deserto e vendida como sucata até ser recuperada por uma artista plástica, tornando-se mais e mais claustrofóbica à medida que se aproxima do final, bastante pessimista e com referências bíblicas. Seu pequeno orçamento nunca é evidenciado, e os efeitos especiais ainda hoje impressionam. Há ainda muito sangue e violência na rota da protagonista, que parece cumprir uma via crúcis em busca da salvação. Um sucesso em sua época, é uma joia restaurada e lançada recentemente em ótima transferência para Blu-Ray (com disco de extras) que merece ser (re)descoberta.
quinta-feira, outubro 09, 2008
Ensaio sobre a Cegueira

A fotografia esbranquiçada, estourada e cheia de filtros e truques de César Charlone – a representação visual e "publicitária" da tal “cegueira branca” da trama, que sem maiores explicações atinge a população de uma cidade indeterminada, obrigando-a manter-se confinada em um hospital militarmente vigiado, sob péssimas condições de higiene e reduzida à barbárie – é como um bukaki constante nos olhos do espectador. Ou seja, mais atrapalha do que faz pensar nesta fraca, embora fiel adaptação do alegórico romance do super-aclamado (e superestimado) José Saramago. Salvam-se as locações em São Paulo como terra arrasada, à maneira da Londres de Extermínio, e, vá lá, Julianne Moore – a única a enxergar alguma coisa, ao contrário do elenco internacional e, principalmente, do espectador.
Linha de Passe

Um sub Rocco e Seus Irmãos – de subdesenvolvido mesmo. Para Daniela Thomas e, principalmente, para “Waltinho” Salles e seu cinema acetinado e todo “artístico” de riquinho xarope com consciência social (e renúncia fiscal), típico da era Lula, pobre só tem vez mesmo como empregada doméstica – obviamente mãe solteira da periferia paulistana, corintiana, de nome "Cleuza" e grávida pela enésima vez, para piorar ainda mais as coisas – motoboy, jogador de futebol, crente, motorista de busão ou então simplesmente como bandido. Lamentável – apesar do ótimo Kaique Jesus Santos (foto).
quinta-feira, julho 31, 2008
Batman – O Cavaleiro das Trevas

Batman (re)começa. Desta vez, sem traumas de infância, manjadas filosofias de superação do tipo "cair, para depois se levantar" ou qualquer princípio excessivamente explicativo presente do início ao fim no primeiro (e superestimado) filme da retomada do noturno justiceiro mascarado. Tudo cedendo lugar à ação e às intrigas políticas num contexto mais realista, muitas vezes em plena luz do dia, neste eletrizante embate com ares de tragédia grega (daí a onipresença das máscaras e de mascarados) entre o Cavaleiro das Trevas (Christian Bale) e seu arqui-sorridente inimigo Coringa (uma das derradeiras performances do excepcional Heath Ledger) – que literalmente mergulha Gotham City no caos –, sustentado por um elenco de peso (com destaque para Aaron Eckhart como Harvey Dent/Duas Caras e Gary Oldman retornando como o inspetor tornado comissário Gordon), aqui bem mais aproveitado em ótimas subtramas que conferem a necessária dramaticidade ao conjunto da narrativa, mesmo que o diretor e co-roteirista Christopher Nolan atropele um tantinho as coisas com a sua costumeira e atabalhoada edição em algumas cenas e a mania de querer impor um ar sério e exageradamente grave a tudo – a começar pelo risível tom de voz do Batman. Mesmo assim, simplesmente o blockbuster do ano!
quarta-feira, julho 30, 2008
A Banda

No Oriente Médio, o deserto é o mesmo. Os povos que o compartilham – especialmente egípcios e israelenses –, plenos de históricos conflitos entre si. Mas a música, ou a sugestão dela em meio ao silêncio e à aridez da região, e, principalmente, a língua inglesa, mediadora entre os personagens de nacionalidades aparentemente incompatíveis, harmonizam as diferenças, neste adorável filme sobre uma banda policial egípcia que, contratada para tocar num centro cultural árabe em Israel, perde-se num vilarejo israelense no meio do deserto, e seus moradores, num misto de empatia e desconfiança, os hospedam por uma noite. Assim, longe de rusgas político-religiosas, ampliam a visão de mundo uns dos outros, em momentos de humor e tolerância, apesar da rigidez e severidade do líder da banda (muito bem interpretado por Saleh Bakri). Filme bastante simpático do israelense Eran Kolirin, que conquista o espectador em seu aparente despojamento e simplicidade, sem, no entanto, forçar a barra num humanismo que se quer conciliador, atingindo as notas exatas no belo e muito aguardado concerto apresentado em seu polifônico final.
segunda-feira, julho 28, 2008
Arquivo-X: Eu Quero Acreditar

Saudades dos homenzinhos verdes... Ainda assim, OK para marcar o muito esperado reencontro entre os ex-agentes do FBI Scully (a bela Gillian Anderson) e Mulder (David Duchovny), num suspense razoável, com ecos de Frankenstein e toques de melodrama, em que pedaços decepados de corpos encontrados por um padre vidente com um passado sombrio (Billy Connolly) funcionam também como metáfora visual para determinar o relacionamento dilacerado da dupla ao longo dos anos em que estiveram afastados um do outro, apesar da direção convencional do criador da série original, Chris Carter, bem menos cinematográfica que a que Rob Bowman imprimiu no longa-metragem anterior da dupla, Aquivo-X: O Filme (1998), e que hoje, separadamente, funciona muito bem como um thriller tipicamente paranóico e premonitório do infame 11 de setembro.
terça-feira, junho 24, 2008
Fim dos Tempos

No lugar de um terremoto, um monstro, alienígenas exterminadores ou de uma onda gigante produzida por computador, devastando e arrasando grandes metrópoles americanas, uma brisa que balança as árvores de um parque. Suave vento, o “nada”, que, no entanto, carrega estranha toxina que provoca uma súbita e inexplicável onda de suicídios em massa, da qual fogem um professor de ciências (Mark Wahlberg) e sua mulher (Zooey Deschanel), ambos perplexos com “o acontecimento” do título original e, sobretudo, em crise no casamento. Assim é o Apocalipse de M. Night Shyamalan (O Sexto Sentido, Corpo Fechado, Sinais, A Vila): antediluviano e, principalmente, anti-hollywoodiano em sua simplicidade. Ainda assim bastante atmosférico e sugestivo, na discreta elegância com que constrói climas melancólicos e ameaçadores, fazendo uso de pouquíssimos elementos (arbustos balançando, capim ao vento, etc.), apesar do tolo subtexto ecológico e explicativo ao final, mas que se mostra, felizmente, insuficiente para dar conta da dimensão da catástrofe, que, mais do que ecológica, é inerente à outra natureza, a humana, no tocante à falência dos afetos, das relações entre os indivíduos, da desagregação familiar, etc. Algo tão devastador e bem mais palpável que uma catástrofe tipicamente hollywoodiana.
segunda-feira, junho 16, 2008
O Incrível Hulk

Ainda que sem a mesma sofisticação visual ou qualquer referência ao muito injustiçado filme anterior de Ang Lee, Hulk (2003), o cientista Bruce Banner retorna muito bem na pele franzina de Edward Norton, agora vivendo escondido na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, arranhando um Português escorreito e trabalhando como operário numa fábrica de refrigerantes. Como bom “brasileiro”, não desiste nunca na busca de uma cura para a anomalia genética que o transforma no ser verde e monstruoso do título e ainda arruma um tempinho para ter umas aulinhas básicas de anger management com um dos lutadores da família Gracie, a fim de evitar a aparição indesejada da criatura, resultado de uma experiência mal-sucedida com raios gama. Mesmo oculto, continua, porém, sendo obsessivamente rastreado pelo General Ross (William Hurt), que o quer para desenvolver uma arma letal para o exército americano e pai do amor da sua vida, a dra. Betty Ross (a adorável Liv Tyler). Quando o general finalmente descobre o seu paradeiro, manda o militar Emil Blonsky (Tim Roth) em seu encalço, no Rio, forçando Banner a voltar a ser o bom Hulk de antigamente para fugir dali. Aí o pau come de vez e o filme não pára mais, graças à boa condução do francês Louis Leterrier, especialista em fitas de ação e quebra-pau, como os dois Carga Explosiva (2002/2005) e Cão de Briga (2005), ao roteiro fiel aos quadrinhos originais, além do ótimo elenco e da boa ambientação no Brasil, mesmo que os efeitos especiais, um dos principais problemas do filme de Lee, ainda não sejam tão convincentes na recriação das criaturas e a edição picotada suprima perceptivelmente alguns momentos importantes, especialmente na continuidade das lutas, como no confronto final entre Hulk e Blonsky, então transformado no Abominável. Mesmo assim, é inegável: nesta mais do que satisfatória retomada do querido verdão da Marvel, Hulk volta arrebentando pra valer e, melhor, não estará mais sozinho nessa briga!
domingo, junho 15, 2008
Listas e um breve retorno
1) O Tempo e a Maré (2000), Tsui Hark
2) Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), Joel e Ethan Coen
3) Menina de Ouro (2004), Clint Eastwood
4) Cidade dos Sonhos (2001), David Lynch
5) A Inglesa e o Duque (2001), Eric Rohmer
6) Sob a Névoa da Guerra (2003), Errol Morris
7) Fale Com Ela (2002), Pedro Almodóvar
8) O Novo Mundo (2005), Terrence Malick
9) Gangues de Nova Iorque (2002), Martin Scorsese
10) Exilados (2006), Johnnie To
11) Sangue Negro (2007), Paul Thomas Anderson
12) Marcas da Violência (2005), David Cronenberg
13) Os Incríveis (2004), Brad Bird
14) Kill Bill, Vol. 1 (2003), Quentin Tarantino
15) O Segredo de Brokeback Mountain (2005), Ang Lee
16) Guerra dos Mundos (2005), Steven Spielberg
17) Kedma (2002), Amos Gitai
18) Amor à Flor da Pele (2000), Wong Kar-Wai
19) Um Filme Falado (2003), Manoel de Oliveira
20) Zodíaco (2007), David Fincher

O Tempo e a Maré: para mim, o campeão absoluto é adrenalina pura, movimento que não pára nunca, ação, diversão, tomadas maravilhosas, um exercício cinemático, hipercinético e hiperbólico dos mais vibrantes, pouco importando a maravilhosa confusão da trama, que envolve tiroteios coreografados com maestria, gângsteres de Hong Kong, guarda-costas picaretas, traficantes sul-americanos de Aracaju com rostos chineses e sotaque hispânico, um assassino profissional voltando à ativa , uma policial lésbica grávida no meio de todos e uma eletrizante perseguição de rapel num treme-treme na "Cidade das Baratas". Um dos filmes mais bacanas do mundo!
segunda-feira, abril 28, 2008
sexta-feira, abril 18, 2008
[REC]

Sustos genuínos (eu digo genuínos mesmo! De pular da cadeira!) nesta eficiente e curta empreitada digital dos diretores Jaume Balagueró (A Sétima Vítima) e Paco Plaza (Roma Santa), “revivendo” os filmes de zumbis de acordo com a estética do vídeo caseiro, consagrada em A Bruxa de Blair e retomada recentemente em Cloverfield, Redacted e, principalmente, Diário dos Mortos, do mestre George Romero, só que concentrada em poucos espaços. No caso, no quartel do corpo de bombeiros e num prédio de apartamentos em Madri, palco dos momentos mais claustrofóbicos, para onde seguem a repórter Angela (Manuela Velasco) e o cinegrafista Pablo (o ponto de vista do filme), que, a fim de fazer uma reportagem para o programa noturno “Enquanto Você Dorme”, acompanham filmando incessantemente a rotina de bombeiros, especialmente quando estes, junto com policiais, atendem a uma chamada vinda do prédio. Tudo muito banal, até que um dos policiais sofre um ataque de uma moradora enlouquecida: uma mordida, que transmite uma infecção capaz de tornar a vítima em zumbi raivoso. Logo em seguida, sem maiores explicações, o prédio é isolado pelas autoridades sanitárias, e os bombeiros, moradores, policiais e, principalmente, Angela e o cinegrafista, sem nunca deixar de registrar o que se passa lá dentro, são impedidos de sair. A cada nova mordida, claro, a epidemia se espalha, numa sangria desatada. Sem muita enrolação, começa então um sobe-e-desce de escadas, em momentos de gelar a espinha, neste filme enxuto, que aproveita muito bem os exíguos espaços em que o terror, solerte, se imiscui em cada canto ou apartamento escuro e se revela numa abrupta virada de câmera, até o final arrepiante, que ainda consegue encaixar a tradicional rivalidade entre portugueses (“Medeiros”, hehehe) e espanhóis e evocar mais uma vez, ainda que brevemente, um certo misticismo religioso comum às duas nações. Pena que os americanos, para estragar tudo, como andam fazendo com os terrores asiáticos, já o estejam refilmando como Quarantine...
quinta-feira, abril 17, 2008
The Rolling Stones – Shine a Light
Não curto o quarteto inglês, nem o “róqui” em geral, muito menos os Clinton (meu voto é para o McCain!). Portanto, não sou um entusiasta fervoroso deste filme, apesar de reconhecer os méritos da filmagem impecável do ardoroso fã (e estressadíssimo) Martin Scorsese, no registro de duas apresentações dos Stones no pequeno Beacon Theatre, em Nova Iorque, em 2006, alternando saborosos depoimentos antigos de seus integrantes com as manjadíssimas Jumpin´Jack Flash, Start Me Up e Satisfaction no palco, embora as guitarras elétricas encubram com certa constância os vocais do faceiro e serelepe frontman Mick Jagger, o homem, o mito, a lenda. Aqui, mais o homem, suas encoxadas (em Christina Aguilera) e, principalmente, suas rugas, bem como as do pai do Jack Sparrow, o guitarrista Keith Richards, e as do também guitarrista Ronnie Wood. Melhor quando arriscam tocar blues, ao lado de Buddy Guy ou no vocal de Richards acompanhado pela harmônica de Jagger, ou country, ou acústico, ou ainda quando Scorsese destaca o olhar blasé do também enrugado baterista Charlie Watts.
Visto numa sessão geriátrica, ou seja, durante à tarde num dia de semana, o que é até condizente com o espírito deste DVD, ou melhor, filme chapa-branca sobre a longevidade da banda e das rugas de seus incansáveis protagonistas sessentões.
quarta-feira, abril 16, 2008
Imagens do Além

O boboca Joshua Jackson (o Pacey da série Dawson’s “Cricri”) e a gata Rachael Taylor (de Transformers) formam um desses irritantes e grudentos casais jovens, moderninhos e descolados que, recém-casados, mudam-se para o Japão, onde ele vai trabalhar como fotógrafo de uma revista de moda de amigos, num emprego dos sonhos, com direito a um apartamento “funcional” no centro de Tóquio, todo decorado no melhor estilo GNT, Discovery Travel & Home, Pottery Barn, Tok & Stok e Casa Cláudia (o mundo dos vivos nunca foi tão morto e padronizado como atualmente...). Ela, no entanto, solitária e “perdida na tradução”, vagando pelas ruas de Tóquio durante o dia, tenta-se habituar ao novo lugar e, sobretudo, à cultura do superpovoado país oriental. Uma noite, voltando de um passeio, atropelam uma menina. Ou pensam ter atropelado. E estranhas e fantasmagóricas imagens de vultos começam a aparecer nas fotos que tiram.
Ainda que bem ambientado no Japão e comandado por um genérico diretor japonês, Masayuki Ochiai (de Infecção, disponível em DVD), refilmagem quase igual ao tailandês Espíritos – A Morte está a Seu Lado (2004), grande sucesso de bilheteria no Brasil, com os mesmos sustos, inclusive, só que tudo bem suavizado e previsível, sem a mesma capacidade de criar o clima apavorante e de constante tensão do original, que, afinal, não era tão original assim, já que lembrava Ringu – O Chamado, One Missed Call (vem aí a péssima versão gringa do”ringu” de Takashi Miike), Ju-On – O Grito e tantas outras fitas nipônicas e suas imitações chinesas e coreanas de meninas cabeludas e desgrenhadas vindas do além em busca de vingança. Mas que era(m) bem mais eficiente(s) em sua reciclagem de lugares-comuns.
terça-feira, abril 15, 2008
Estômago

O Como Água para Chocolate brazuca, versão “coxinha”, na estória em flashback de um paraibano, Raimundo Nonato (João Miguel), que, da prisão, relembra o dia em que chegou a São Paulo sem um tostão. Faminto, pede duas coxinhas num pé-sujo vagabundo e tem que se virar lavando os pratos para pagar. Consegue, porém, um quartinho ao lado da cozinha. E como é bom pra pôr a mão na massa, torna-se cozinheiro da espelunca, cujas coxinhas boas “pra caralho” que frita fazem sucesso retumbante entre os (novos) freqüentadores, dentre os quais uma puta um tanto gulosa (Fabiula Nascimento, muito bem), que vira a sua namoradinha, ainda que ela não o deixe beijá-la. Em pouco tempo, estará preparando o chique penne alla putanesca na cozinha de um fino restaurante italiano nas proximidades, gerido por um grosso, mas todo professoral carcamano (Carlo Briani). Alternadamente, na prisão, tenta se impor entre os perigosos colegas da apertada cela, por meio de receitas improvisadas no exíguo espaço, a fim de melhorar a gororoba servida no presídio.
Despretensioso filme de Marcos Jorge, com diálogos engraçados à brasileira, temperado por muitos palavrões e sacanagem, embora force um pouco no didatismo gastronômico, especialmente nas falas um tanto artificiais do dono do restaurante italiano, e levado pela divertidíssima interpretação de João Miguel como o simpático aprendiz de mestre-cuca paraíba e dono de um olhar só aparentemente inocente, além de um desfecho digno de giallo. Não é perfeito, um monte de gente vai gastar tinta para deitar falação socioculinária-cinematográfica em cima, mas ao menos dá pra rir. Ao menos aqui, não se trata da "cosmética da fome", tão freqüente no cinema brasileiro, muito menos de fome. Essa, só na barriga do espectador depois da sessão.
domingo, abril 13, 2008
Meu Nome é Taylor, Drillbit Taylor

Três nerds típicos – o gordinho tarado e falastrão, o magricela desengonçado e tímido (prefigurando o sensacional McLovin, de Superbad) e o outro, baixinho e com aparelho nos dentes, que não desgruda dos dois –, calouros numa High School, sofrem nas mãos de um psicótico veterano fortão. Cansados das surras e humilhações rotineiras, decidem contratar um guarda-costas (Owen Wilson) para se protegerem. Porém, o homem responsável pela segurança deles, pago com o dinheirinho da suada mesada de cada um, é na verdade um sem-teto malandro, que vivia de esmolas pelas ruas de Los Angeles, apesar de veterano, ou melhor, desertor do exército americano.
Ótima premissa, baseada em idéia do genial John Hughes, rei dos filmes adolescentes dos anos 80, e no filme Cuidado Com Meu Guarda-Costas (1980), e um começo que garante boas risadas, a cargo do martírio do desengoçado, mas simpático trio de nerds. No entanto, com a entrada em cena do meio sorumbático Wilson (sozinho ele não segura um filme, ainda mais depois de uma tentativa real de suicídio), infiltrando-se como professor no ambiente escolar, a coisa toda desanda, além do ritmo irregular característico das produções de Judd Appatow (Ligeiramente Grávidos, Superbad, O Virgem de Quarenta Anos, Ricky Bobby, O Âncora), ao sabor da verborragia típica do co-roteirista Seth Rogen (ator em Superbad, O Virgem..., Ligeiramente...), numa mistura que muitas vezes não dá liga, neste filme do burocrático Steve Brill, com resultados um tanto aquém de seu hilário potencial. O produtor Appatow deveria era ter trazido o Matt Dillon de volta. E agora como o guarda-costas da garotada.
sexta-feira, abril 11, 2008
Um Beijo Roubado

Com a surpreendente colaboração no roteiro do romancista de livros policiais Lawrence Block (O Ladrão que Estudava Espinosa, Cidade Pequena, Hit Parade), um dos meus escritores de "thriller de aeroporto" favoritos, o chinês Wong Kar-Wai (Dias Selvagens, Amor à Flor da Pele) dirige seu primeiro filme de língua inglesa, no entanto, não sendo este Um Beijo Roubado muito diferente daqueles que o celebrizaram em Hong Kong, marcado aqui também pelo uso ostensivo da câmera lenta, pelo demorado abrir e fechar de portas, embalado por uma trilha sonora nostálgica e melancólica e povoado por tipos solitários, em meio a vitrines embaçadas, suspensos no tempo das imagens que se sobrepõem, sofrendo nas noites de bebedeira ou de insônia as dores dos amores fraturados. Em seus filmes, de relações que se estabelecem ao acaso, o amor começa de repente, acaba de repente, sem explicação, e é uma lembrança dolorosa, que assombra seus protagonistas. Aqui não é diferente, só trocando o aperto dos apartamentos e as ruas tortuosas de Hong Kong pela vastidão das paisagens desérticas da América. Os sentimentos de abandono permanecem os mesmos, porém. Logo no começo, uma imagem comum a outros de seus filmes: um trem no elevado, símbolo dos amores expressos e desencontrados, atravessa a cena noturna, cruzando a cidade, no caso Nova Iorque, onde Elizabeth (a cantora Norah Jones, muito bem), à procura do namorado com quem acabara de romper, conhece Jeremy (Judy Law, ainda que bom ator, muito metrossexual para o papel que seria mais adequado a tipos mais duros e sofridos, como os de Tony Leung ou Andy Lau dos filmes chineses), que dirige um café e também foi deixado por sua namorada russa. A cada noite de insônia, Elizabeth reaparece para bater papo com ele, saboreando a torta de mirtilo ou blueberry do título original, que costuma fazer pouco sucesso entre os clientes do café, restando intacta no final do dia. Uma noite, ela não reaparece mais. Mergulhada na tristeza, deixa-se levar pelas estradas da América e vai parar em Memphis, onde trabalha como garçonete de dia e bartender à noite, quando ouve as tristezas e lamentos de um policial alcoólatra (David Strathairn), abandonado pela esposa (Rachel Weisz). Em outra parada de sua fuga sentimental pelos EUA, faz amizade com uma jogadora de pôquer (Natalie Portman), que a leva até Las Vegas. Jeremy, no entanto, não deixa de segui-la por meio de correspondências ou de telefones, onde quer que ela esteja. Correspondência que é mútua, com a narração de ambos pontuando o filme.
Com esplêndida fotografia, pra variar, filme belo e poético que talvez peque no roteiro, por ser redondinho demais em relação aos outros trabalhos de Kar-Wai, ora erráticos, ora confusos, mas ainda assim sempre fascinantes, para quem sabe apreciar suas obsessões fetichistas, aqui centradas no caráter erótico da torta de blueberry, imagem que abre e encerra o filme. Enfim, uma nova sinfonia pop de Kar-Wai, que nunca deixa de ser marcante pelos encontros e desencontros dos afetos à deriva, pelo visual elaborado de cores berrantes, mas nunca afetadas, e pelo elenco estelar, sobretudo por Norah Jones e pelos tipos desesperados e desesperançados interpretados por Stratahairn e pela bela, ou melhor, belíssima Weisz. Ah, o amor, essa coisa complicada...
