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quinta-feira, julho 31, 2008

Batman – O Cavaleiro das Trevas

(The Dark Knight, EUA, 2008)



Batman (re)começa. Desta vez, sem traumas de infância, manjadas filosofias de superação do tipo "cair, para depois se levantar" ou qualquer princípio excessivamente explicativo presente do início ao fim no primeiro (e superestimado) filme da retomada do noturno justiceiro mascarado. Tudo cedendo lugar à ação e às intrigas políticas num contexto mais realista, muitas vezes em plena luz do dia, neste eletrizante embate com ares de tragédia grega (daí a onipresença das máscaras e de mascarados) entre o Cavaleiro das Trevas (Christian Bale) e seu arqui-sorridente inimigo Coringa (uma das derradeiras performances do excepcional Heath Ledger) – que literalmente mergulha Gotham City no caos –, sustentado por um elenco de peso (com destaque para Aaron Eckhart como Harvey Dent/Duas Caras e Gary Oldman retornando como o inspetor tornado comissário Gordon), aqui bem mais aproveitado em ótimas subtramas que conferem a necessária dramaticidade ao conjunto da narrativa, mesmo que o diretor e co-roteirista Christopher Nolan atropele um tantinho as coisas com a sua costumeira e atabalhoada edição em algumas cenas e a mania de querer impor um ar sério e exageradamente grave a tudo – a começar pelo risível tom de voz do Batman. Mesmo assim, simplesmente o blockbuster do ano!

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Os Indomáveis

(3:10 to Yuma, EUA, 2007)



Não um western apocalíptico ou modernizado, como Onde os Fracos Não Têm Vez. Também não um western crepuscular, que melancolicamente lamenta o fim do gênero e de seus mitos, como O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford. Apenas um western tradicional. E dos bons. Primeiro, porque é uma refilmagem (com algumas modificações na estória, originalmente escrita por Elmore Leonard) de um belo clássico de Delmer Daves, Galante e Sanguinário (1957), sem ser excessivamente reverente ao original, um cruzamento, carregando ainda mais na ambigüidade moral de seu renegado protagonista, de Matar ou Morrer (1952), de Fred Zinnemann, com O Preço de um Homem (1953), de Anthony Mann. Depois, porque o diretor dessa nova empreitada, o versátil James Mangold (Johnny e June, Identidade, Copland), capricha nas cenas de ação, nos tiroteios, como se calcados dos westerns que se faziam nos anos 50, e, principalmente, nos embates verbais entre seus dois antagonistas, os tais “indomáveis” do genérico título nacional, muito bem interpretados por Christian Bale e, sobretudo, pelo excelente Russell Crowe. Estão aqui também presentes as cavalgadas diante do Monument Valley e o assalto à diligência cheia de dinheiro que cruza as áridas pradarias do deserto. Assalto praticado pelo bando liderado pelo fora-da-lei Ben Wade (Crowe) e testemunhado por um honesto criador de gados, Dan Evans (Bale) e seus filhos. Mais tarde, quando o bando se separa, Wade, como sedutor compulsivo que é, é capturado num daqueles momentos de “fraqueza da carne”. Endividado, malvisto pela mulher (Gretchen Mol) e pelo filho mais velho (Logan Lerman) e correndo o risco de perder a propriedade, o pobre rancheiro, que teve uma perna amputada quando soldado da União durante a guerra civil, propõe participar com um pequeno grupo da arriscada missão de escoltar o prisioneiro até a cidade mais próxima, onde o trem no horário do título original o levará à prisão de Yuma. Tarefa dificultada pela incessante perseguição dos comparsas de Wade, agora liderados pelo psicótico Charlie Prince (Ben Foster), alguns índios apaches, outros tantos milicianos rudes e brutais no meio do caminho, além da astúcia verbal do sempre sedutor, mas violento Wade, lembrando o Robert Ryan, de O Preço de um Homem, tentando convencer Dan e os outros a soltá-lo ou dando sempre um jeito de manipular todo o mundo, antes de atirar com a sua exímia pontaria. Pleno de tiroteios, como no confronto final em Contention, onde enfrentam uma cidade inteira, e diálogos afiados, um filme que honra e celebra o gênero, levado pela memorável trilha sonora de Marco Beltrami, com motivos similares à banda sonora de um antigo bang-bang, e pela segura direção de Mangold, além do ótimo elenco.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

O Sobrevivente

(Rescue Dawn, EUA, 2006)



Com jeitão daqueles filmes de guerra da capinha azul distribuídos pela saudosa América Vídeo nos anos 80 e um final deliciosamente patriótico, daquele bem militarista, tipicamente americano, no entanto, um POW movie à maneira do loucão do Werner Herzog (Aguirre – A Cólera dos Deuses, Fitzcarraldo, Cada Um por Si e Deus Contra Todos, ou melhor, O Enigma de Kaspar Hauser, Coração de Cristal, O Homem Urso), largando os personagens para serem pouco a pouco engolidos pela natureza impiedosa que os cerca ou enlouquecerem de vez, ou então obsessivamente lutarem contra ela para sobreviver, às vezes de maneira inútil. Aqui, no caso, a história real e já mostrada antes por Herzog no documentário O Pequeno Dieter Precisa Voar (1997), do piloto alemão naturalizado americano Dieter Dengler (Christian Bale), que, em 1965, um pouco antes da escalada da guerra no Vietnã, é convocado com sua esquadrilha para uma missão ultra-secreta de bombardeio a alvos da guerrilha vietcongue no vizinho Laos. Seu avião é abatido, ele sobrevive, mas é feito prisioneiro no meio da selva, numa região de difícil acesso, pouca comida e vietcongues pra lá de caricatos. Além disso, é mantido numa cabana abafada, algemado a colegas um tanto desanimados, exaustos, esquálidos ou já bem louquinhos, como o Gene interpretado com todos os tiques conhecidos 'por Jeremy Davies. No entanto, a atitude positiva do sempre sorridente e engenhoso Dengler, capaz de abrir algemas, confeccionar facas e racionar a escassa comida, os motiva a tentar uma fuga arriscada pela densa selva escura e, enfim, ocultar-se nela, em momentos mais próximos aos dos emblemáticos filmes de Herzog estrelados pelo psicopata do Klaus “Aguirre” Kinski, sobretudo pelo lado demonstrativo, direto, com que a sobrevivência deles é mostrada. Até a cena da jangada à deriva no rio, de Aguirre, se faz presente aqui. Envolvente, filme conduzido sobretudo pela ótima atuação de Christian Bale, totalmente entregue ao papel e mais do que disposto a levar seu personagem ao limite, como bem teria lhe exigido o diretor, embora evitando deixar-se tomar pela loucura, mesmo nos momentos mais desesperadores, em que o olhar arregalado ou exausto de seu parceiro na fuga, brilhantemente vivido por Steve Zahn, num papel atípico, dá a exata medida do que teriam passado os soldados reais da história. Que venha agora o Rambo IV!