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quinta-feira, janeiro 17, 2008

A Ciência dos Sonhos

(The Science of Sleep/Le Science des Rêves, França/Itália, 2005)



Stéphane (interpretado por um bastante carente e antipático Gael García Bernal) é um artista ultracriativo, que quando está sonhando é capaz de criar infinitos mundos a sua volta com cenários de papelão, rios de papel celofane e animações de barbante e tricô. Como apresentador do programa “Stéphane TV”, dá a sua receita para a “ciência dos sonhos” na frente das câmeras de papelão, sendo capaz de intervir nesses sonhos e de trazer várias pessoas que cruzam o seu caminho, e que freqüentemente despreza, para esse universo onírico, onde freqüentemente dá asas a seu pouco apreço pelo mundo exterior, tentando purgar-se de relacionamentos frustrados e também da relação mal-resolvida com a mãe francesa (Miou-Miou), entre outras coisas. Porém, a realidade é menos "fofinha", especialmente depois que se muda do México para a não tão romântica Paris, para morar com a mãe. Lá, ela arruma para ele um trabalho numa minúscula editora que publica calendários. Achando que iria criar as mais belas e inusitadas ilustrações para as folhinhas, acaba na verdade virando um mero fotocompositor gráfico de um estúdio de quinta categoria, ao lado de indivíduos absolutamente banais ou grosseiros, como o sexista colega interpretado pelo sempre divertido Alain Chabat, algo frustrante e muito aquém do que aspirava para si em seus sonhos de papelão. Um dia, para complicar, encanta-se com a sua vizinha Stéphanie (Charlotte Gainsbourg, apagada), pois, até por causa do nome em comum, vê nela a sua parceira ideal. Porém fica tão dependente e obcecado por ela, que mesmo fisgando-a direto para o seu mundo de fantasia, percebe que nem nesse universo paralelo é plenamente correspondido. E no mundo real, mesmo que ela demonstre genuíno afeto por ele, as coisas vão se tornando ainda piores, à medida que sua obsessão e insegurança por ela aumentam. É preciso trazer um pouco desse seu mundo onírico para a realidade e intervir nela a partir dos sonhos. Assim, partindo da esquizofrenia do mal-amado protagonista-sonhador, mundos fantásticos vão se sucedendo a ponto de não se distinguir mais a realidade do sonho, num filme em que o videoclipeiro diretor Michel Gondry, do superestimado O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004), numa trama confusa, ora psicanalítica, ora surreal, ora simplesmente banal, descarrega mais uma vez o seu conhecido arsenal de imagens hypadas, aqui quase sempre em stop motion, tornando toda a criatividade do protagonista naquilo que julga ser uma aberração sem fim, incômoda distorção da realidade, em sonhos que estão mais para pesadelos de um Freddy Krueger de pano excessivamente carente que para os de um romântico príncipe encantado dos contos de fada. Mas há, ainda assim, algo de muito verdadeiro no comportamento de Stéphane, do tipo rapaz criativo, incapaz de se encaixar neste mundo dos meros mortais, bastante honesto no que diz, que conhece por acaso uma garota solitária, que lhe dá alguma trela e por isso acha que ela precisa da companhia dele a todo custo e mais do que nunca, tentando estar sempre junto dela, dividindo afinidades até o dia em que percebe que as coisas não são bem assim. Que ela o quer apenas como amigo, e também a uma certa distância, o que ele não consegue conceber para a sua realidade própria, idealizada, o que o faz sofrer ainda mais. E, pior, para machucá-la, tenta romper com ela em definitivo, rechaça-a, afasta-se bruscamente, mesmo que ela não queira vê-lo totalmente afastado. E assim o rapaz acaba se tornando mais uma vítima de seus próprios atos do que um injustiçado. Creio que isso seja doloroso, frustrante e facilmente (auto)identificável para muita gente, pena essas intenções mais realistas serem solapadas pela constante necessidade de Gondry querer se afirmar a todo custo por meio de imagens rebuscadas e trilha sonora legalzinha e que atrapalham bastante o andamento do filme, que, ao menos, está bem longe de ser aquela comédia romântica ultracool e superficial que muitos andam "sonhando" a respeito.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Novo Mundo

(Nuovomondo, Itália/Alemanha/França, 2006)



Flertando vez ou outra com o realismo fantástico, o diretor Emmanuele Crialese (do “rústico” Respiro, 2002) recria, em três partes bem definidas – a vida nada idílica na Sicília, a viagem de navio e o processo de entrada nos EUA – e com certo rigor e tomadas sintéticas, a saga da imigração italiana para a América pelos olhos do viúvo Salvatore Mancuso (Vincenzo Amato), seus dois filhos (Francesco Casisa e Filippo Pucillo), um deles surdo-mudo, e sua mãe “curandeira” (Aurora Quattrocchi), que, no início do século XX, embarcam da paupérrima e rural Sicília para a riquíssima Nova Iorque na terceira classe de um navio abarrotado de gente com as mesmas esperanças: a de um dia fazer a vida na América. No caminho, em meio ao mar revolto, o aperto e a insalubridade das acomodações, encontram uma misteriosa inglesa (Charlotte Gainsbourg) que precisa arrumar um marido a fim de poder ser admitida no Novo Mundo. Mancuso se prontifica a se casar por conveniência com ela, mesmo correndo o risco de ser passado para trás após o desembarque.

Filme econômico, quase documental em seu registro naturalista, como na seqüência em que se recria com detalhes todo o difícil processo de admissão e entrada nos EUA, com exames e todo tipo de testes, às vezes humilhantes, aplicados na triagem aos recém-chegados, quebrado vez ou outra por momentos um tanto deslocados de visões oníricas, mas no todo com belas imagens, como a visão que o simplório, mas muito expressivo Mancuso tem de Nova Iorque através das janelas embaçadas do porto da Ilha de Ellis. Nova Iorque, aliás, nunca é mostrada como conhecemos, a não ser do interior do porto de imigração, o que garante algum frescor sem deslumbramento a mais este olhar sobre o corriqueiro tema da imigração dos italianos (e de outros povos) ao Novo Mundo, além da presença sempre enigmática e fascinante de Gainsbourg.

sexta-feira, novembro 23, 2007

A Noiva Perfeita

(Prete-Moi Ta Main, França, 2007)



Um solteirão convicto, ruim de tato e ótimo de faro (o sempre divertido Alain Chabat, também produtor e co-roteirista). Para os perfumes, está claro. E as suas mulheres. Suas várias mulheres. Na verdade, sua mãe e suas cinco irmãs que, com ele, formam o “G7”, grupo de reunião familiar, herança paterna do muito querido pai ultrademocrático, agora presidido indefinidamente pela matriarca e que decide todo tipo de assunto na mesa da sala de jantar e onde ele é obviamente voto vencido em qualquer discussão, das nas mais triviais às mais sérias, tanto que vive sendo pressionado por todas a se casar logo, já que passou dos quarenta anos e se encontra ainda na barra delas, que querem se livrar dele de uma vez por todas. Primogênito sofre mesmo. Então, de saco cheio, decide bolar uma farsa. “Aluga” a irmã (Charlotte Gainsbourg) de seu colega de trabalho para que ela vire a sua noiva de mentirinha até o dia do casamento, para então ser dramaticamente abandonado por ela no altar, acreditando assim que, por causa do trauma encenado, a mulherada nunca mais tocará no assunto. Mas as coisas, claro, serão mais complicadas. Não por culpa dele, já que as irmãs e a mãe passam a gostar muito, mas muito mesmo da cunhada "avulsa", perdoando-a por qualquer deslize e deixando-o cada vez mais num beco sem saída. Ela também quer adotar uma criança (e brasileira!!) e, sendo noiva ou casada, o processo seria bem menos complicado. Nada de mais, certamente previsível, mas um filme agradável de Eric Lartigan, sobretudo por causa do charme da dupla principal e das situações divertidas que cria desde o início à anos 70. Mais, por mais despretensioso que seja este filme, refletindo seriamente, parece haver uma onda no recente cinema francês, sempre em sintonia com a realidade atual, de amizades compradas ou de noivas alugadas, tal como visto em Meu Melhor Amigo (2006), do veterano Patrice Leconte, e em Por Amor ou Por Dinheiro (2005), do também veterano Bertrand Blier. Parece mesmo que o amor e a amizade descompromissada são itens mais raros hoje em dia na sociedade francesa ou em qualquer outra sociedade, e isso não deixa de ser de fato um tantinho inquietante.

P.S.: Apesar do momento um tanto difícil e de incertezas e frustrações que se somam a cada dia, só para lembrar a todos que o tem acompanhado que este esnobe blogue completa hoje o seu primeiro aniversário. Espero continuar com ele por algum tempo, embora, depois de tudo o que tem me acontecido de junho para cá, no fundo, no fundo, eu preferiria mesmo é ter permanecido para sempre na Toscana, tomando vino rosso, comendo salame de funghi porcini, disputando campeonato de lançamento de queijo ou procurando trufas brancas nas florestas escuras e nas montanhas escarpadas da Garfagnana. Mas vamos em frente. Com ou sem trufas.