
Flertando vez ou outra com o realismo fantástico, o diretor Emmanuele Crialese (do “rústico” Respiro, 2002) recria, em três partes bem definidas – a vida nada idílica na Sicília, a viagem de navio e o processo de entrada nos EUA – e com certo rigor e tomadas sintéticas, a saga da imigração italiana para a América pelos olhos do viúvo Salvatore Mancuso (Vincenzo Amato), seus dois filhos (Francesco Casisa e Filippo Pucillo), um deles surdo-mudo, e sua mãe “curandeira” (Aurora Quattrocchi), que, no início do século XX, embarcam da paupérrima e rural Sicília para a riquíssima Nova Iorque na terceira classe de um navio abarrotado de gente com as mesmas esperanças: a de um dia fazer a vida na América. No caminho, em meio ao mar revolto, o aperto e a insalubridade das acomodações, encontram uma misteriosa inglesa (Charlotte Gainsbourg) que precisa arrumar um marido a fim de poder ser admitida no Novo Mundo. Mancuso se prontifica a se casar por conveniência com ela, mesmo correndo o risco de ser passado para trás após o desembarque.
Filme econômico, quase documental em seu registro naturalista, como na seqüência em que se recria com detalhes todo o difícil processo de admissão e entrada nos EUA, com exames e todo tipo de testes, às vezes humilhantes, aplicados na triagem aos recém-chegados, quebrado vez ou outra por momentos um tanto deslocados de visões oníricas, mas no todo com belas imagens, como a visão que o simplório, mas muito expressivo Mancuso tem de Nova Iorque através das janelas embaçadas do porto da Ilha de Ellis. Nova Iorque, aliás, nunca é mostrada como conhecemos, a não ser do interior do porto de imigração, o que garante algum frescor sem deslumbramento a mais este olhar sobre o corriqueiro tema da imigração dos italianos (e de outros povos) ao Novo Mundo, além da presença sempre enigmática e fascinante de Gainsbourg.