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terça-feira, novembro 06, 2007

Desejo e Reparação

(Atonement, Reino Unido/França, 2007)



Apesar da temática trágica, um grande filme para este grande, enorme, magnífico, gigantesco, glorioso dia sob o céu de York, levando para longe o inverno e as nuvens carregadas de nosso descontentamento cotidiano. Ao menos, por um dia. Espero. Baseado em romance prestigioso de Ian McEwan (que também é produtor-executivo, reforçando a fidelidade à sua obra original), finalista do Booker Prize, Nobel, etc., numa ambientação precisa, mas sem ceder aos exageros comuns a muitos dramas de época, como o apego excessivo aos detalhes, figurinos, talheres, porcelanas, etc., o diretor Joe Wright (do excelente Orgulho e Preconceito, 2005) consegue aqui o raro equilíbrio entre o rigor detalhista da produção de época e o intimismo dos melhores e mais sofisticados dramas literários de James Ivory, como Retorno a Howards End (1992) e Vestígios do Dia (1993). Com uma câmera fluente, em justos travellings, da mesma maneira que em Orgulho e Preconceito, no início, passeia elegantemente pela propriedade do casarão inglês campestre onde Briony Tallis (Saorsi Ronan), a imaginativa irmã mais nova de Cecilia (Keira Knightley), está terminando de escrever a sua mais recente peça de teatro, que encenará na aristocrática reunião familiar, com ensaios marcados e tudo com os primos e coleguinhas. O período antecede a segunda grande guerra. Ou seja, tensão no ar, especialmente a sexual. E a chegada dos familiares e amigos a casa, bem como a presença do menos abastado filho da governanta, o universitário Robbie (James McAvoy), por quem Briony sempre nutriu certa afeição, apesar de ele ser apaixonado desde a infância por Cecilia, só a acirra. Numa noite, Briony flagra Cecilia com Robbie num enlace amoroso e, depois, num incidente envolvendo suposto abuso de uma das primas, Robbie, o mais pobre, num mal-entendido, leva a culpa por conta de Briony, que, alimentada por outros mal-entendidos e por sua imaginação pra lá de fértil, devotada ao drama, acaba acusando-o injustamente, o que vai custar caro para ambos. E também para Cecilia. E, pior, muito mais difícil de ser reparado naquela sociedade inglesa de classes sociais fortemente marcadas e de desejos ocultos em choque com uma moral ainda muito repressora. Com a eclosão da guerra, Robbie, separado de Cecilia, agora enfermeira, para não ser preso, vai para o front, mas como simples soldado, sem patente. E Briony, culpada, passará o resto da vida tentando corrigir a injustiça. Primeiro, como enfermeira (agora interpretada por Romola Garai), assistindo os inúmeros feridos, depois como escritora.

A escrita jamesiana de McEwan, ora delicada, ora de texturas sombrias, ora um tanto empolada, mas sempre fluente, ganha tradução plena e enxuta graças ao excelente roteiro de Christopher Hampton (Ligações Perigosas, 1988, Carrington, 1995), em momentos como no soberbo plano-seqüência da retirada das tropas de Dunquerque do ponto de vista de Robbie e seus colegas soldados no meio de toda a devastação da guerra, evitando, no entanto, a barulheira das batalhas, concentrando-se mais em seus efeitos. Outros, como na ensolarada primeira parte, que envolve os flertes entre Cecilia e Robbie e toda a tensão sexual latente entre eles, são reencenados sob diferentes ângulos e pontos de vista, além dos furtivamente presenciados por Briony. Mas nenhuma cena, por mais simples que seja em sua enunciação, é mais devastadora que a da reviravolta final, agora a cargo de Vanessa Redgrave como a Briony madura que, ao fazer a tardia reparação, finalmente sela o destino de todos. Dela, de Vanessa, não é preciso dizer muita coisa. É brilhante, como sempre. Mas é o elenco jovem que se destaca, sobretudo McAvoy e Ronan, como a menina inteligente, precoce, que, no entanto, não consegue articular a sua frustração, que vira raiva, depois culpa, neste filme envolvente, quase silencioso, conduzido serenamente por Wright, que nunca escorrega para as facilidades do melodrama. E que muito menos é friamente calculado ou “acadêmico”, como insistirão alguns, correndo-se o risco de cometer outra injustiça com este belo trabalho, além daquela que perdura por décadas na trama.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Vênus

(Venus, Reino Unido, 2006)



Velhos hábitos, na vida dos velhos atores Maurice (Peter O´Toole) e Ian (Leslie Phillips), ainda bem conhecidos no mundo do teatro, mas não pelos mais jovens. A ida ao mesmo café de décadas, os mesmos amigos de décadas e que agora, um a um, passarão a ocupar, em vez das páginas dos espetáculos, as do obituário nos jornais.

Vinda do interior, uma jovem (Jodie Whittaker), sobrinha-neta de Ian, que a vê com horror em suas atitudes moderninhas, dará no entanto algum alento ao dia-a-dia de Maurice, decano, mas ainda bem lúbrico, que flertará com ela sem a menor hesitação, já que ela será bem permissível a alguns avanços dele, num certo limite. Aos poucos, porém, ele contemplará a sua própria finitude, ao ser operado da próstata, o que o deixará impotente, mas não menos desejoso de possuí-la. Além disso, quando o fim parece mais próximo, agirá um pouco à maneira do personagem de Michel Piccoli no filme de Manoel de Oliveira Vou para Casa (2001), tendo que fazer cada vez mais esforço para interpretar uma cena num filme de época, por exemplo. Ou um cadáver, simplesmente, numa série televisiva, em seqüência bem irônica.

Apesar dos esforços de Roger Michell (Um Lugar Chamado Notting Hill) e do roteirista Hanif Kureishi (Minha Adorável Lavanderia, Sammy e Rose, Intimidade) em criar momentos genuínos de ternura no relacionamento ora tumultuado, ora afetuoso dos dois, mas que não dispensará certas safadezas da parte de Maurice e doçuras um tanto ríspidas da parte dela, além do humor decorrente das conversas entre ele e seus velhos amigos, temperadas com o bom humor inglês de sempre, o filme é todo de Peter O'Toole, recitando magnificamente a poesia de Shakespeare e ainda encantado com as belezas femininas que parecem eternas, tal como vistas no quadro da Vênus de Velázquez, que ambos contemplam certa feita na National Gallery de Londres. Ou quando tenta bisbilhotá-la, na cena em que posa nua timidamente para artistas. Ou mesmo quando ainda se mostra respeitoso com a ex-mulher (Vanessa Redgrave), vítima de suas infidelidades constantes. Momentos também que soam como uma despedida e uma celebração solene de uma vida plena, com todas as suas virtudes e pecados, também. Constrói-se assim um filme agradável, cheio de pequenos encantos, sobre a vida finita e o desejo sem fim, em seus limites cinematográficos não muito ambiciosos.