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quarta-feira, março 12, 2008

Angel

(The Real Life of Angel Deverell, França/Reino Unido/Bélgica, 2006)



A conhecida colagem visual e de referências tradicionais de gêneros fílmicos de outrora, que François Ozon (re)utilizara com sucesso em filmes como Oito Mulheres e Swimming Pool, retorna aqui, depois do interlúdio mais assentado de O Tempo Que Resta. Neste seu primeiro filme inteiramente de língua inglesa, bebe direto na seiva do melodrama clássico à Douglas Sirk, ao narrar a trajetória, baseada em livro de Elizabeth Taylor (não a atriz, a escritora britânica), da Angel do título. Filha decidida de uma quitandeira humilde e dotada de imensa imaginação, torna-se escritora de sucesso de romances açucarados na Inglaterra do começo do século XX, vira dona de seu próprio castelo e conquista, ou melhor compra, o seu príncipe encantado, um artista esnobe, Esmé (Michael Fassbender), de origem aristocrática e que pinta seus nada coloridos quadros com traços modernistas em seu estilo ainda não muito bem aceito e compreendido pelos gostos vigentes da sociedade da época. A princípio adorável, com o tempo, Angel torna-se cada vez mais obsessiva em transpor as fantasias que imagina para o seu mundo, ignorando, de sua enorme mansão Paradise, os fatos concretos ao redor, algo nem sempre em sincronia com os desejos dos outros, especialmente com os de seu cada vez mais insatisfeito marido. Não raro também incorre a sua própria imaginação para reinventar-se como pessoa, criando peripécias mirabolantes que diz referir-se a acontecimentos ocorridos em sua vida.

Começando com um jeitão propositalmente antiquado, denunciado pelo uso ostensivo e artificial de back projection em alguns planos e pelas cores que remetem aos melodramas clássicos, revivendo-os, além da presença dos espelhos, marca registrada de várias obras de Douglas Sirk, como Sublime Obsessão e Palavras ao Vento, aos poucos, à medida que Angel vai se fechando em seu mundo de fantasia, que obviamente colide com a realidade, especialmente quando explode a Primeira Guerra Mundial e seu marido se alista e da qual volta mutilado, adquire tons mais sóbrios e soturnos, nada fantasiosos. E, como é típico na obra de Ozon, os relacionamentos, antes idealizados, vão se desgastando e se autoconsumindo com a convivência, sem possibilidade de redenção, além de expor nas entrelinhas certa tensão homoerótica no relacionamento entre Angel e sua secretária, irmã de Esmé, com fixação acentuada na escritora. Com ótimos coadjuvantes, como Charlotte Rampling, atriz fetiche de Ozon, e Sam Neill, arrasta-se um pouco à medida que se aproxima do final, que fecha o filme com uma clássíca tomada da fachada da mansão, vista numa panorâmica de baixo para cima, e nem sempre Romola Garai (de Feira das Vaidades e Desejo e Reparação, aqui morena) dá conta da complexidade de sua personagem-título, mas filme no todo elegante e bom de se ver, como os melhores filmes de época à inglesa.

terça-feira, novembro 06, 2007

Desejo e Reparação

(Atonement, Reino Unido/França, 2007)



Apesar da temática trágica, um grande filme para este grande, enorme, magnífico, gigantesco, glorioso dia sob o céu de York, levando para longe o inverno e as nuvens carregadas de nosso descontentamento cotidiano. Ao menos, por um dia. Espero. Baseado em romance prestigioso de Ian McEwan (que também é produtor-executivo, reforçando a fidelidade à sua obra original), finalista do Booker Prize, Nobel, etc., numa ambientação precisa, mas sem ceder aos exageros comuns a muitos dramas de época, como o apego excessivo aos detalhes, figurinos, talheres, porcelanas, etc., o diretor Joe Wright (do excelente Orgulho e Preconceito, 2005) consegue aqui o raro equilíbrio entre o rigor detalhista da produção de época e o intimismo dos melhores e mais sofisticados dramas literários de James Ivory, como Retorno a Howards End (1992) e Vestígios do Dia (1993). Com uma câmera fluente, em justos travellings, da mesma maneira que em Orgulho e Preconceito, no início, passeia elegantemente pela propriedade do casarão inglês campestre onde Briony Tallis (Saorsi Ronan), a imaginativa irmã mais nova de Cecilia (Keira Knightley), está terminando de escrever a sua mais recente peça de teatro, que encenará na aristocrática reunião familiar, com ensaios marcados e tudo com os primos e coleguinhas. O período antecede a segunda grande guerra. Ou seja, tensão no ar, especialmente a sexual. E a chegada dos familiares e amigos a casa, bem como a presença do menos abastado filho da governanta, o universitário Robbie (James McAvoy), por quem Briony sempre nutriu certa afeição, apesar de ele ser apaixonado desde a infância por Cecilia, só a acirra. Numa noite, Briony flagra Cecilia com Robbie num enlace amoroso e, depois, num incidente envolvendo suposto abuso de uma das primas, Robbie, o mais pobre, num mal-entendido, leva a culpa por conta de Briony, que, alimentada por outros mal-entendidos e por sua imaginação pra lá de fértil, devotada ao drama, acaba acusando-o injustamente, o que vai custar caro para ambos. E também para Cecilia. E, pior, muito mais difícil de ser reparado naquela sociedade inglesa de classes sociais fortemente marcadas e de desejos ocultos em choque com uma moral ainda muito repressora. Com a eclosão da guerra, Robbie, separado de Cecilia, agora enfermeira, para não ser preso, vai para o front, mas como simples soldado, sem patente. E Briony, culpada, passará o resto da vida tentando corrigir a injustiça. Primeiro, como enfermeira (agora interpretada por Romola Garai), assistindo os inúmeros feridos, depois como escritora.

A escrita jamesiana de McEwan, ora delicada, ora de texturas sombrias, ora um tanto empolada, mas sempre fluente, ganha tradução plena e enxuta graças ao excelente roteiro de Christopher Hampton (Ligações Perigosas, 1988, Carrington, 1995), em momentos como no soberbo plano-seqüência da retirada das tropas de Dunquerque do ponto de vista de Robbie e seus colegas soldados no meio de toda a devastação da guerra, evitando, no entanto, a barulheira das batalhas, concentrando-se mais em seus efeitos. Outros, como na ensolarada primeira parte, que envolve os flertes entre Cecilia e Robbie e toda a tensão sexual latente entre eles, são reencenados sob diferentes ângulos e pontos de vista, além dos furtivamente presenciados por Briony. Mas nenhuma cena, por mais simples que seja em sua enunciação, é mais devastadora que a da reviravolta final, agora a cargo de Vanessa Redgrave como a Briony madura que, ao fazer a tardia reparação, finalmente sela o destino de todos. Dela, de Vanessa, não é preciso dizer muita coisa. É brilhante, como sempre. Mas é o elenco jovem que se destaca, sobretudo McAvoy e Ronan, como a menina inteligente, precoce, que, no entanto, não consegue articular a sua frustração, que vira raiva, depois culpa, neste filme envolvente, quase silencioso, conduzido serenamente por Wright, que nunca escorrega para as facilidades do melodrama. E que muito menos é friamente calculado ou “acadêmico”, como insistirão alguns, correndo-se o risco de cometer outra injustiça com este belo trabalho, além daquela que perdura por décadas na trama.