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quarta-feira, janeiro 16, 2008

Meu Nome Não é Johnny

(Brasil, 2007)



Baseado em livro-reportagem de Gulherme Fiuza, a trajetória real de João Estrella (hoje produtor musical), que, de jovem surfista maconheiro da classe média alta da Zona Sul carioca passou a ser, em fulminante ascensão, um dos principais fornecedores de cocaína para o jet set e beautiful people da galera bronzeada do Rio de Janeiro. Também era um dos principais consumidores de seu próprio veneno, já que cheirava quase todos os seus dividendos. Sempre ao lado de sua mística namoradinha (Cléo Pires), também se envolveu num perigoso, mas lucrativo esquema de tráfico para a Europa, onde tudo era farra e festa, como sempre fora na sua vida desregrada. Porém, tanta inconseqüência tem um custo, claro, pois um dia é pego em flagrante, encarcerado na cadeia da Polícia Federal para depois ser levado a julgamento, num filme que segue demonstrativo e bem-humorado até a entrada em cena da juíza do caso (Cássia Kiss), com o seu olhar severo e moralizante, mas campassivo, que o livra da cadeia, e com direito a discurso redentor de seu arrependido protagonista no final. Ainda assim, um digno trabalho do diretor Mauro Lima, num filme que, no geral, sem querer ser moderninho a todo custo e apesar da temática, é surpreendentemente espirituoso, dinâmico, muito longe da bomba que andam cotando por aí, com divertidas seqüências, como a do “passeio” noturno de João com dois policiais corruptos que querem achacá-lo a todo custo, mas na maior "tranqüilidade", e ele na maior pindaíba, ou a sua estadia em Veneza, quando tenta flertar com uma ragazza local, enrolando-se num macarrônico italiano e agüentando depois os ciúmes da esposa, e levado sobretudo por mais uma inspirada e carismática interpretação de Selton Mello, além da boa ambientação do Rio de Janeiro dos anos 80.

segunda-feira, março 26, 2007

O Cheiro do Ralo

(Brasil, 2006)



Quem vê bunda não vê coração. Amarra-se na bunda, no caso no traseiro de uma garçonete (Paula Braun) da lanchonete onde Lourenço (Selton Mello), dono de um depósito que negocia mercadorias usadas, almoça o mesmo lixo todo dia. Misantropo, gosta de humilhar os clientes, pagando sempre o preço mais baixo pelas mercadorias oferecidas, na verdade quinquilharias, e prefere a parte pelo todo. Além da bunda, signo onipresente ao longo do filme e que quer comprar a qualquer custo, se interessará também por um olho e pela prótese de uma perna mecânica, em certo momento. Também dia a dia o cheiro do ralo do seu banheiro o incomodará cada vez mais. Ficará impregnado por esse odor “mérdico”, a ponto de ser consumido por ele (e pela bunda também, qualquer bunda feminina) neste filme de humor corrosivo, episódico, e por isso irregular, e que nasceu com a intenção de ser propositalmente cult, inteligente, pelas mãos do diretor Heitor Dhalia (Nina, 2004). Escorrega ao tentar explicar ou psicologizar as obsessões do protagonista como um problema ligado à ausência paterna, mas Selton Mello, no tom certo, e o texto sarcástico de Lourenço Mutarelli (que faz o segurança) e Marçal Aquino garantem a parte pelo todo do filme no quesito diversão cool e moderninha.