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quinta-feira, agosto 02, 2007

Rito de Amor e de Morte

(Yûkoku/Patriotism/Ritual of Love and Death/The Rite of Love and Death, Japão, 1966)



Um ritual de amor, outro de suicídio, num contexto nacionalista e moderno, mas que evoca tradições milenares da cultura japonesa. Em ambos os ritos, os amantes sem falar e ao som de Tristão e Isolda, de Wagner, se entrelaçam pelo falo, pela espada, neste filme curto, intenso e minimalista do escritor japonês Yukio Mishima (co-dirigido por Domoto Masaki), que também interpreta o oficial da Marinha Shinji Takeyama. Fiel às origens literárias, dividido em capítulos e com longas introduções escritas que expõem o contexto político tumultuado, após frustrada tentativa de golpe, Shinji retorna para a sua bela esposa Reiko (Yoshiko Tsuruoka), para praticar com ela o ritual de harakiri e morrerem com honra. Com poucos elementos em cena, apenas dois atores, quase estáticos e “extáticos”, emulando o teatro Nô, o filme explora, sobretudo, a intensidade dos olhares trocados entre ambos, especialmente os de Keiko, tanto na cena de amor quanto na hora da morte, mostrada com rigor ritualístico e detalhes explícitos. Poético na construção das imagens em preto-e-branco, uma espécie de prefiguração do suicídio do próprio e polêmico Mishima, encenado alguns anos depois e que seria revisitado por Paul Schrader no belo Mishima – Uma Vida em Quatro Capítulos (1985). Raro e inesquecível.

terça-feira, abril 10, 2007

Domínio: Preqüela de "O Exorcista"

(Dominion: A Prequel to the Exorcist, EUA, 2005)



Nunca lançada nos cinemas, trata-se da tumultuada primeira versão de O Exorcista: O Início, inteiramente filmada para ser engavetada pelos produtores da Morgan Creek e posteriormente refilmada e emporcalhada por Renny Harlin. Aqui, mais límpida, pelas mãos seguras de Paul Schrader. Atmosférica e mais lenta também, é na verdade um drama conduzido com sobriedade sobre a culpa e a perda da fé que um filme de terror pura e simplesmente, quase ausente de efeitos espetaculares, embora eles estejam presentes em alguns fracos momentos. Na África, após presenciar um trágico evento pelo qual se viu como responsável em plena II Guerra Mundial, o padre Merrin (Stellan Skarsgård) já não mais exerce o sacerdócio. Sem fé, há anos abandonara a batina. Agora como arqueólogo, durante escavações na colônia inglesa do Quênia, local dos mais inóspitos, descobre uma magnífica igreja cristã medieval misteriosamente enterrada. À medida que as escavações avançam, descobre também que a construção era na verdade um templo de louvação a Lúcifer. Hienas surgem. Um bebê deformado nasce morto. É o mal que passa a emanar do local, infiltrando-se entre os nativos do vilarejo e os ingleses. Mal difícil de ser detectado, pois aqui não há vômitos, camas balançando, tetos rachando, gritarias o tempo todo, nem sobrevôos de câmera em cenários digitalmente construídos. Assim, o demônio aproveita e possui um garoto defeituoso, muito inocente e assustado e que vivia abandonado até ser recolhido e tratado pela médica do vilarejo (Clara Bellar). Hora de o exorcista Merrin, com a sua espiritualidade atormentada, entrar em ação, mas não sem antes enfrentar seus dilemas e as tentações do próprio demônio, algo mais difícil de ser exorcizado.

Tudo é muito discreto, misterioso e eficaz, pois Schrader, roteirista de Taxi Driver (1976), Touro Indomável (1980) e A Última Tentação de Cristo (1987) e diretor de Hardcore – No Submundo do Sexo (1979), Mishima (1985) e Temporada de Caça (1997), mais seguro nas discussões teológicas entre Merrin e o padre novato Francis (Gabriel Mann), por exemplo, preocupa-se essencialmente em desencavar o mal que existe no mundo e que aflige os homens diante de suas fragilidades, bem à maneira de Robert Bresson, que com os efeitos fáceis que abundaram na infame versão de Harlin e até na de Friedkin. No mínimo, interessante.