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segunda-feira, maio 07, 2007

Homem-Aranha 3

(Spider-Man 3, EUA, 2007)



Talvez o mais desequilibrado filme da série. Talvez o melhor em vários momentos. E o mais longo, também. Menos ação, muitos vilões, uma nova e bela namoradinha, Gwen Stacy (Bryce Dallas Howard, subaproveitada), mas todo mundo botando para quebrar de vez em quando, isso é o que importa, além, claro, dos eternos conflitos do melancólico herói, potencializados por uma misteriosa substância negra alienígena que, em contato com o alter-ego Peter Parker (Tobey Maguire), fará seu lado sombrio emergir, tornando-o tão xarope quanto um jovem baladeiro poser paulistano metido à moderninho emo, com a diferença de que seus sapatos, não o All Star cano baixo da moda, estarão mais limpinhos. E mais cruel também. Quer se casar com a sua paixão de infância, Mary Jane (Kirsten Dunst), mas a vaidade crescente do herói (e de Parker), no auge da popularidade de uma imagem que ele mesmo procurou construir para si, fará com que coloque o ego em primeiro lugar, pondo seu namoro em xeque, ao mesmo tempo em que, transformado num ser sombrio, literalmente, terá de lidar com três vilões ligados a conflitos de seu passado, sobretudo à morte de seu tio (Cliff Robertson), como o sentimental Homem-Areia (Thomas Haden Church), o vingativo Venom (Topher Grace) e o amigo, ex-amigo, amigo de novo e, por fim, inimigo Harry Osborne (James Franco), que assumirá de vez a armadura e o planador do Duende Verde para vingar a morte do pai (Willem Dafoe). Também caminhos se bifurcam, caminhos se reencontram, em aceleradas cenas de ação, onde o diretor Sam Raimi recupera muito do espírito do precursor Darkman (1990), ao evidenciar as mutações sofridas pelo meio “golem” Homem-Areia, por exemplo, num nível molecular, trazendo também certo senso humor que certamente não irá agradar a muita gente, além de tratar com mais intensidade temas afetivos ligados a amizade, amor e vingança, tudo entrelaçado. Herói dos quadrinhos, sentimentos de verdade, em tom crepuscular, como evidencia uma das últimas cenas do filme, e que emocionam. Sorry, puristas, mas este terceiro Spider-Man é ótimo e melhor ainda se visto sem muita expectativa.

segunda-feira, março 19, 2007

Maria Antonieta

(Marie Antoinette, EUA/França/Japão, 2006)



Austríaca de nascimento, francesa por conveniência política e inconveniência conjugal.

Do alto do palácio de Versalhes, diante da esplanada de seus jardins geométricos, “perdida na tradução” dos costumes franceses, Maria Antonieta (Kirsten Dunst) contempla a sua solidão neste belo filme de Sofia Coppola, em que a austríaca é restaurada ao trono e à sua importância histórica sem perder a sua frivolidade (e complexidade) como figura humana. Olhar feminino da diretora, nada frívolo, no entanto, menos engajada na Revolução vindoura e que vê com angústia o fato da futura rainha, ainda adolescente, longe da família, literalmente despida dos pertences de sua terra natal, não conseguir consumar o casamento com o delfim da França, Luís Augusto (Jason Schwartzman), também adolescente e futuro rei Luís XVI, nem a aliança que une os dois reinos. Que a acompanha com atenção aos detalhes pelos corredores do palácio, seguindo dia a dia a ritualística rígida da rainha, cercada o tempo todo por damas de companhia, ao mesmo tempo em que se empanturra de doces, coleciona sapatos, vestidos, jóias, promove jogatinas e bailes tipicamente adolescentes ao som de rock’n’roll, num delicioso anacronismo da produção. Um dia também se reinventa como cantora de ópera, sem dar a devida importância às tensões sociais e políticas que se avolumam fora das cercanias do palácio, ainda que seja flagrada num momento de intimidade com a filha e as amigas lendo encantada Rousseau, o santo padroeiro das esquerdas. Um dia, porém, os aplausos no teatro e na corte não irão mais para ela. Os colares que enfeitam o seu pescoço anunciam sutilmente a posição da lâmina onde cairá a guilhotina. Por trás da cor rosa de seus deslumbrantes vestidos, tons mais fortes e complexos tingirão o seu destino, do rei e dos filhos. E a França nunca mais seria a mesma.