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quarta-feira, setembro 19, 2007

Os Protocolos de Sião

(The Protocols of Zion, EUA, 2004)



O infame panfleto de Os Protocolos dos Sábios de Sião, uma falsificação surgida na historicamente anti-semita Europa Oriental, redigido mais especificamente na Rússia do Czar Nicolau II, com seus notórios pogroms, e que acusava os judeus, como um grupo secreto tal como os maçons ou os Iluminatti, de perpetrarem uma conspiração mundial contra a humanidade por supostamente ocuparem postos-chaves na sociedade, ainda que a população judaica sempre fosse minoritária em qualquer país e seus representantes sempre excluídos da sociedade em geral, habitando guetos trancados a chave ou aldeotas (os "shtetles") isoladas e longe das grandes cidades, que ganhou vulto com o Caso Dreyfuss na França no final do século XIX e que serviu de base para as teses raciais dos nazistas para fazerem o que se sabe hoje em dia, embora muita gente ainda insista em negar, como o governo do Irã, ou diminuir o seu impacto, como muitos acadêmicos revisionistas e certos esquerdistas que acusam os EUA e Israel de todos os males do mundo. Ainda que desmascarado pelo jornal britânico London Times nos anos 20 ou banido da Alemanha depois do Holocausto, após o 11 de setembro, a absurda tese da conspiração judaica enunciada nos Protocolos parece ressurgir com força, junto com o antiamericanismo e o sentimento antiarábe, pois, entre outros disparates, como fotos forjadas e exercícios imbecis de numerologia, circulava o boato de que 4 mil judeus não teriam comparecido ao trabalho no World Trade Center no dia do atentado, o que ajudou a alimentar a tese de que o ato terrorista teria sido forjado e praticado por judeus para provocar uma guerra infinita contra os árabes, mesmo que assumido pela Al-Qaeda, nas próprias palavras de seu líder fundamentalista Osama Bin Laden. Fala sério!

Percorrendo as ruas, prisões, sinagogas, a comunidade árabe de Nova Jersey, seitas evangélicas, comparecendo na estréia do polêmico A Paixão de Cristo e entrevistando inclusive o líder de uma seita ariana baseada no interior dos EUA, que não acredita que Hitler tenha cometido suicídio, e conhecida por fornecer bandeiras, braçadeiras e botinas de solado com estampa de suásticas para grupos neonazistas da Europa, além de vender livremente pela Internet edições de Os Protocolos... e de Mein Kampf, o diretor Marc Levin demonstra o quanto essa centenária tese da conspiração judaica, a que hoje engloba ainda judeus donos de banco, de Hollywood e da mídia (mesmo que seu maior representante atual, o publisher Rupert Murdoch, seja um protestante branco australiano), se mostra arraigada na sociedade e na mídia “alternativa”, inclusive entre as minorias e mesmo entre as pessoas ditas mais esclarecidas. Mostra inclusive cenas de um ridículo especial da televisão egípcia, que “adaptou” as teses dos Protocolos na forma de uma minissérie exibida em horário nobre e que fez sucesso no mundo árabe, ainda que com dramaturgia capenga e tendenciosa. E conversa com o editor de um jornal de língua árabe de Nova Jersey, um palestino cheio de ódio contra Israel, que, após os atentados, fez questão de republicar nas páginas do diário todo o conteúdo dos Protocolos, embora negasse que a sua motivação fosse a de (re)alimentar o anti-semitismo. Também demonstra o quanto emerge de radicalismo nas opiniões dos jovens árabes americanos e de negros contra os judeus, que, segundo eles, também teriam sido os responsáveis diretos pela escravidão, entre outras coisas. Para um deles, até o ex-prefeito de Nova Iorque, católico, era judeu, por causa do nome Giuliani, que soava como “Jew-Liani”. É hilário, de provocar gargalhadas nos transeuntes. Mas também há aqueles que vão na contracorrente, mesmo estando entre radicais, tendo a coragem de divergir em meio aos coleguinhas mais exaltados. E, ainda, no melhor momento, entrevista um médico legista judeu, responsável pela identificação dos restos mortais das vítimas do atentado no WTC e que fala, comovido, como identificou seu amigo da sinagoga, que trabalhava no prédio no dia, por meio do DNA de um pedaço de osso, derrubando o mito da ausência de judeus mortos no atentado. Esse médico também mostra um freezer cheio de caixas com restos mortais ainda a serem identificados, o que retoma a Auschwitz e de como os seres humanos, por força de ideologias estúpidas, em que Deus nada tem ver com isso, são facilmente reduzidos a pó ou a pedaços de roupa e fragmentos orgânicos. Mesmo assim, certos mitos parecem resistir na cabeça dada a conspirações das pessoas, e a Internet é a ferramenta que mais contribui para disseminá-los, neste documentário ora puramente demonstrativo, ora irônico, entrecortado por trechos de filmes de propaganda nazista ou discursos anti-semitas de figurões como Henry Ford, entre outros, que tem como maior mérito deixar as pessoas retratadas falarem, exporem a sua ignorância em acaloradas discussões sobre teses conspiratórias em que o diretor em pessoa, ele mesmo de origem judaica, às vezes com a ajuda do pai, não deixa de intervir, se mostrar presente, dar a cara para bater, contra-argumentar e sobretudo registrar, sem ser invasivo estilo manipula-que-eu-gosto-alla-Michael Moore. E estendendo o exemplo, muito do que se vê neste filme também não difere muito do que ouvimos aqui no Bananão de representantes do governo petista esbravejando dia a dia contra a mídia “golpista” e “conspiratória”, mesmo que os fatos estejam aí para rebater os perdigotos. É mais uma vez hilário isso, de as coisas se repetirem e tal. Ou trágico, para não dizer patético.

PS: O lado ruim de fazer um texto assim é que vai ter uma porção de nazistinha entrando no meu blogue após digitar no "Guga" palavras como "protocolos", "sábios", "Sião" ou "Hitler" ou a combinação delas de uma vez. Mossad neles!

sexta-feira, julho 06, 2007

O Tango de Rashevski (e a lição do poeta)

(Le Tango des Rashevski, Bélgica/Luxemburgo/França, 2003)



Uma família belga de origem judaica afastada, no entanto, das tradições até que a morte da matriarca, separada do marido, que virou rabino ortodoxo um tanto intolerante em Israel, leva vários de seus membros a ir em busca de suas raízes e, quando não, gera uma crise, ou várias crises, entre eles e os outros, envolvendo circuncisão, casamentos mistos (entre goyim e judeus, entre judeus e árabes), judaísmo liberal, judaísmo ortodoxo e, muita, mas muita discussão à maneira judaica e ao som de algum tango, que, segundo a lição da matriarca dos Rashevski, servia para varrer os problemas para longe, para o deserto de Negev, em Israel, cenário que abre e fecha este simpático filme do diretor Sam Garbarski. Drama e comédia, em que mais do que ser judeu, o importante é ser mensch ("ser humano", em iídiche, palavra relativamente fácil de definir, mas difícil de "sê-la" na prática), e buscar o entendimento, o conhecimento do outro, uma lição universal, ainda a ser aprendida pelos homens, judeus ou não. Belo filme, que complementa o que o recém-falecido poeta Bruno Tolentino disse uma vez numa entrevista, destacando o papel da alteridade, e muito pertinente nestes tempos esquizofrênicos em que as pessoas parecem se fechar sobre elas mesmas:

“O contato com o outro é essencial. É impossível não se relacionar, não levar em conta a realidade do outro. O outro é o real. Não sou eu nem o que eu quero. Se o seu esforço é todo por não se afastar da realidade, por servi-la, por ceder a ela cada vez mais, fatalmente você vai descobrir que essa realidade é o outro, a pessoa que está na sua frente. Ele existe. O resto é abstração. Você faz o que quiser com a sua imaginação. Mas o outro você não pode imaginar. Ele está sempre a mais ou a menos. Atrapalha. É uma droga. Realmente, seria melhor que não houvesse. Sem o outro, a vida seria muito mais fácil, mais simples, mais narcisística. Só que o outro não pode deixar de ser verdade. Não há alternativa. É por aqui ou nada. Mas tem gente apaixonada pelo nada, porque o nada te dispensa até mesmo de ser você. Aqui no nosso país nós nos acostumamos a atropelar o próximo como se ele nada fosse, em nome desse ou daquele ponto de vista, que na verdade não é outra coisa que não um ponto de vista. Não aceito de modo algum que a verdade seja tida como um ponto de vista pura e simplesmente, mas ela não pode prescindir do ponto de vista. Há um risco educativo em atropelar o próximo, impor uma seletividade. E é gravíssimo isso."

(Bruno Tolentino, no site: http://www.blogdogaleno.com.br)