Wer sich der Einsamkeit ergibt ("Aquele que se entregou à solidão") - Goethe
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segunda-feira, setembro 24, 2007
Proustiano
Quando penso em Santiago, o requintado mordomo da família Salles que colecionava dinastias de "eras sobre eras" de antanho, vendo ou revivendo nelas um pouco ou muito também do seu passado, penso também em célebre frase de Proust, nas linhas finais de Em Busca do Tempo Perdido, que diz que os homens são "como seres gigantes mergulhados nos anos e tocam eles, simultaneamente, aqueles períodos de suas vidas separados por tantos dias – tão distanciados no Tempo". O Tempo, sempre ele, implacável. O Tempo, que você mata ou desperdiça se ocupando em pensamentos e na rotina dos tempos mortos do cotidiano com pessoas que nada têm a ver com você, é o mesmo Tempo que lhe enterrará um dia. E não há nada que se possa fazer a respeito. Nada. Entre o tic-tac das horas, a angústia, a indiferença. Tic-tac, tic-tac. O Tempo, o Tempo...
terça-feira, agosto 28, 2007
Santiago
(Brasil, 2006)

Em belíssima fotografia em preto-e-branco, João Moreira Salles abre seu casarão, ou melhor, seu “palácio da memória” que dá para o palácio da memória do fascinante mordomo argentino da família, Santiago Merlo, hoje falecido. Misturando línguas e dialetos, dono de uma memória prodigiosa, durante mais de 30 anos e 30 mil páginas Santiago colecionou biografias de reis e rainhas de dinastias e aristocracias do mundo inteiro, tocou piano, rezou em latim, viu as lutas de boxe como as lutas dos gladiadores romanos no Coliseu, dançou com as mãos e serviu como um fiel súdito florentino a alta sociedade portenha e carioca, os seus Médicis e Bórgias da época. João retoma o material bruto de um filme seu começado há 15 anos e nunca terminado. Com as imagens fantasmagóricas ressuscitadas e influenciadas por Ozu nos rigorosos enquadramentos, faz um filme sobre si a partir de Santiago, sobre o descompasso entre a memória afetiva, que nunca nos abandona, e o tempo daquilo que fica para trás e, ainda que quase nunca consiga se desvencilhar da relação mordomo-patrão e também de certa auto-indulgência, obtém momentos preciosos, principalmente fora do quadro ou entre a preparação de uma cena e outra. Meditativo, melancólico, maravilhoso.

Em belíssima fotografia em preto-e-branco, João Moreira Salles abre seu casarão, ou melhor, seu “palácio da memória” que dá para o palácio da memória do fascinante mordomo argentino da família, Santiago Merlo, hoje falecido. Misturando línguas e dialetos, dono de uma memória prodigiosa, durante mais de 30 anos e 30 mil páginas Santiago colecionou biografias de reis e rainhas de dinastias e aristocracias do mundo inteiro, tocou piano, rezou em latim, viu as lutas de boxe como as lutas dos gladiadores romanos no Coliseu, dançou com as mãos e serviu como um fiel súdito florentino a alta sociedade portenha e carioca, os seus Médicis e Bórgias da época. João retoma o material bruto de um filme seu começado há 15 anos e nunca terminado. Com as imagens fantasmagóricas ressuscitadas e influenciadas por Ozu nos rigorosos enquadramentos, faz um filme sobre si a partir de Santiago, sobre o descompasso entre a memória afetiva, que nunca nos abandona, e o tempo daquilo que fica para trás e, ainda que quase nunca consiga se desvencilhar da relação mordomo-patrão e também de certa auto-indulgência, obtém momentos preciosos, principalmente fora do quadro ou entre a preparação de uma cena e outra. Meditativo, melancólico, maravilhoso.
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