Neste trabalho de contenção do diretor Joachim Lafosse, um drama familiar sem melodrama, discretamente os conflitos se insinuam na casa de Pascale (Isabelle Huppert), que, divorciada, mora com seus dois filhos gêmeos já bem crescidinhos e um tanto mimados, Thierry e François, numa propriedade no interior da Bélgica. Nos pequenos gestos cotidianos, registrados com algum distanciamento e rigor pelo diretor em longos planos estáticos, como tomar café, jantar, dar carona para os filhos, etc., pouco a pouco imiscui-se certa tensão, sobretudo entre os irmãos. Tensão que é acentuada quando Pascale, por conselho do namorado Jan, decide vender a casa e dar novo rumo a sua vida, o que obrigaria os irmãos a se virarem sozinhos. Antes, eles pareciam ser muito unidos e amigos, fazendo tudo junto, como andar de moto na lama, tomar banho ou atirar com espingarda de ar comprimido nos ratões de banhado que infestam o lago da casa. Em pequenos detalhes, as diferenças entre eles vão se acentuando, à medida que os conflitos vão emergindo, mas nunca explodindo. Quando, solerte, o pai os visita e lhes dá mais algum dinheiro, por exemplo, tensões afloram também na mãe, mas agora numa escalada irreversível. Aliás, toda vez que o dinheiro entra em cena, trazendo implícita a noção de propriedade privada como desagregadora dos laços familiares, ressentimentos não demoram a aparecer. Thierry se mostrará cada vez mais agressivo, ao contrário de François, mais calmo e resignado, até partirem de vez para o braço no desfecho aberto, filmado numa distância ainda maior, num filme em que o ponto de apoio é uma Isabelle Huppert também mais discreta que o habitual, mas eficaz e bela como sempre e plena de tensão latente, em sua incapacidade de lidar com a imaturidade dos filhos, com o ex-marido e até com o namorado.
Wer sich der Einsamkeit ergibt ("Aquele que se entregou à solidão") - Goethe
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quarta-feira, outubro 10, 2007
Propriedade Privada
(Nue Propriété, Bélgica/França, 2006)

Neste trabalho de contenção do diretor Joachim Lafosse, um drama familiar sem melodrama, discretamente os conflitos se insinuam na casa de Pascale (Isabelle Huppert), que, divorciada, mora com seus dois filhos gêmeos já bem crescidinhos e um tanto mimados, Thierry e François, numa propriedade no interior da Bélgica. Nos pequenos gestos cotidianos, registrados com algum distanciamento e rigor pelo diretor em longos planos estáticos, como tomar café, jantar, dar carona para os filhos, etc., pouco a pouco imiscui-se certa tensão, sobretudo entre os irmãos. Tensão que é acentuada quando Pascale, por conselho do namorado Jan, decide vender a casa e dar novo rumo a sua vida, o que obrigaria os irmãos a se virarem sozinhos. Antes, eles pareciam ser muito unidos e amigos, fazendo tudo junto, como andar de moto na lama, tomar banho ou atirar com espingarda de ar comprimido nos ratões de banhado que infestam o lago da casa. Em pequenos detalhes, as diferenças entre eles vão se acentuando, à medida que os conflitos vão emergindo, mas nunca explodindo. Quando, solerte, o pai os visita e lhes dá mais algum dinheiro, por exemplo, tensões afloram também na mãe, mas agora numa escalada irreversível. Aliás, toda vez que o dinheiro entra em cena, trazendo implícita a noção de propriedade privada como desagregadora dos laços familiares, ressentimentos não demoram a aparecer. Thierry se mostrará cada vez mais agressivo, ao contrário de François, mais calmo e resignado, até partirem de vez para o braço no desfecho aberto, filmado numa distância ainda maior, num filme em que o ponto de apoio é uma Isabelle Huppert também mais discreta que o habitual, mas eficaz e bela como sempre e plena de tensão latente, em sua incapacidade de lidar com a imaturidade dos filhos, com o ex-marido e até com o namorado.
Neste trabalho de contenção do diretor Joachim Lafosse, um drama familiar sem melodrama, discretamente os conflitos se insinuam na casa de Pascale (Isabelle Huppert), que, divorciada, mora com seus dois filhos gêmeos já bem crescidinhos e um tanto mimados, Thierry e François, numa propriedade no interior da Bélgica. Nos pequenos gestos cotidianos, registrados com algum distanciamento e rigor pelo diretor em longos planos estáticos, como tomar café, jantar, dar carona para os filhos, etc., pouco a pouco imiscui-se certa tensão, sobretudo entre os irmãos. Tensão que é acentuada quando Pascale, por conselho do namorado Jan, decide vender a casa e dar novo rumo a sua vida, o que obrigaria os irmãos a se virarem sozinhos. Antes, eles pareciam ser muito unidos e amigos, fazendo tudo junto, como andar de moto na lama, tomar banho ou atirar com espingarda de ar comprimido nos ratões de banhado que infestam o lago da casa. Em pequenos detalhes, as diferenças entre eles vão se acentuando, à medida que os conflitos vão emergindo, mas nunca explodindo. Quando, solerte, o pai os visita e lhes dá mais algum dinheiro, por exemplo, tensões afloram também na mãe, mas agora numa escalada irreversível. Aliás, toda vez que o dinheiro entra em cena, trazendo implícita a noção de propriedade privada como desagregadora dos laços familiares, ressentimentos não demoram a aparecer. Thierry se mostrará cada vez mais agressivo, ao contrário de François, mais calmo e resignado, até partirem de vez para o braço no desfecho aberto, filmado numa distância ainda maior, num filme em que o ponto de apoio é uma Isabelle Huppert também mais discreta que o habitual, mas eficaz e bela como sempre e plena de tensão latente, em sua incapacidade de lidar com a imaturidade dos filhos, com o ex-marido e até com o namorado.
terça-feira, agosto 07, 2007
A Comédia do Poder
(L’Ivresse du Pouvoir, França/Alemanha, 2005)

Não há um plano neste filme de Claude Chabrol (A Dama de Honra, 2004) que se conjugue com outro de forma gratuita. Cenas de corredores, de garagens, de saídas de prédios, tudo é encadeado de forma a desorientar e mostrar as bifurcações sistemáticas que se estabelecem de modo misterioso e orgânico e se estendem para além de nossa compreensão, na relação de promiscuidade entre as esferas pública e privada, ao narrar o dia-a-dia de uma juíza de instrução severa e um tanto vaidosa (Isabelle Huppert), que, ao conduzir uma grande investigação de corrupção, prende como exemplo o CEO de uma companhia estatal acusado de sacar dinheiro da empresa para fins pessoais. Ele é, no entanto, uma pequena peça num esquema muito maior. Há também uma dúbia relação dela com outro funcionário graduado (Patrick Bruel), o que põe em jogo sua moral aparentemente ilibada. O título original, literalmente "intoxicação do poder", fornece uma chave importante ao tratar de deslocamentos de poderes, que aqui ocorre o tempo todo. O CEO, por exemplo, no pleno comando de seus funcionários, ao ditar ordens para sua secretária logo no começo, vê-se pouco depois saindo sozinho da cadeia, abandonado pelos comparsas e publicamente execrado, tendo uma alergia constante no pescoço como sua única companheira. Na mesa da juíza, humilhando dia a dia o executivo ao devassar detalhes de sua vida íntima e invadir a casa da família dele, atrás da mesa, por meio da papelada burocrática ou da exigência sistemática de que seu nome seja dito sempre completo, "Jeanne Charmant-Killman", exerce ela à sua maneira o poder. E se diverte, se "intoxica" por ele e se envaidece ao se ver como capa de revista, ainda que, aos poucos, vai percebendo que a corrupção estende seus tentáculos para dentro dos corredores e gabinetes do Palácio de Justiça, e ela também nada mais é que uma peça no joguete bem maior entre políticos e executivos, em que o dinheiro fala mais alto, sempre. Mais uma vez, o poder se desloca, foge ao seu controle. Em certo momento, quando é ameaçada, vira vítima também e, em seqüência-chave, no hospital vê-se na mesma posição que o executivo que mandou deter. Também em sua vida pessoal, há uma ambígua relação entre ela e o sobrinho, explorada por Chabrol da mesma forma que o misterioso envolvimento dos personagens cínicos de Huppert e Michel Serrault em Negócios à Parte (1997), e que termina por diminuir sua relação com o marido, outra vítima.
Rigoroso, sistemático, Chabrol não facilita, não oferece detalhes didáticos do esquema de corrupção e de como ele era operado, por exemplo. Expõe apenas e faz aqui um admirável trabalho para desorientar e frustrar o espectador no final das contas, sem oferecer soluções possíveis ou fáceis. Para isso, Huppert, brilhante e bela, plena de ambigüidades, é uma atriz essencial nesse "esquema".

Não há um plano neste filme de Claude Chabrol (A Dama de Honra, 2004) que se conjugue com outro de forma gratuita. Cenas de corredores, de garagens, de saídas de prédios, tudo é encadeado de forma a desorientar e mostrar as bifurcações sistemáticas que se estabelecem de modo misterioso e orgânico e se estendem para além de nossa compreensão, na relação de promiscuidade entre as esferas pública e privada, ao narrar o dia-a-dia de uma juíza de instrução severa e um tanto vaidosa (Isabelle Huppert), que, ao conduzir uma grande investigação de corrupção, prende como exemplo o CEO de uma companhia estatal acusado de sacar dinheiro da empresa para fins pessoais. Ele é, no entanto, uma pequena peça num esquema muito maior. Há também uma dúbia relação dela com outro funcionário graduado (Patrick Bruel), o que põe em jogo sua moral aparentemente ilibada. O título original, literalmente "intoxicação do poder", fornece uma chave importante ao tratar de deslocamentos de poderes, que aqui ocorre o tempo todo. O CEO, por exemplo, no pleno comando de seus funcionários, ao ditar ordens para sua secretária logo no começo, vê-se pouco depois saindo sozinho da cadeia, abandonado pelos comparsas e publicamente execrado, tendo uma alergia constante no pescoço como sua única companheira. Na mesa da juíza, humilhando dia a dia o executivo ao devassar detalhes de sua vida íntima e invadir a casa da família dele, atrás da mesa, por meio da papelada burocrática ou da exigência sistemática de que seu nome seja dito sempre completo, "Jeanne Charmant-Killman", exerce ela à sua maneira o poder. E se diverte, se "intoxica" por ele e se envaidece ao se ver como capa de revista, ainda que, aos poucos, vai percebendo que a corrupção estende seus tentáculos para dentro dos corredores e gabinetes do Palácio de Justiça, e ela também nada mais é que uma peça no joguete bem maior entre políticos e executivos, em que o dinheiro fala mais alto, sempre. Mais uma vez, o poder se desloca, foge ao seu controle. Em certo momento, quando é ameaçada, vira vítima também e, em seqüência-chave, no hospital vê-se na mesma posição que o executivo que mandou deter. Também em sua vida pessoal, há uma ambígua relação entre ela e o sobrinho, explorada por Chabrol da mesma forma que o misterioso envolvimento dos personagens cínicos de Huppert e Michel Serrault em Negócios à Parte (1997), e que termina por diminuir sua relação com o marido, outra vítima.
Rigoroso, sistemático, Chabrol não facilita, não oferece detalhes didáticos do esquema de corrupção e de como ele era operado, por exemplo. Expõe apenas e faz aqui um admirável trabalho para desorientar e frustrar o espectador no final das contas, sem oferecer soluções possíveis ou fáceis. Para isso, Huppert, brilhante e bela, plena de ambigüidades, é uma atriz essencial nesse "esquema".
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