
Da mesma forma que Brett Ratner (X-Men 3), Michael Bay (Transformers, o mais divertido filme do ano, junto com As Férias de Mr. Bean) e Tim Story (Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado), mais um diretor dito genérico (David Yates, do belo The Girl in the Café, 2005) que acerta a mão num blockbuster. A fabulosa saga de Harry Potter (Daniel Radcliffe) ganha aqui contornos mais realistas desde o início, quando Harry é mostrado sozinho num parquinho de Londres, prestes a ser aporrinhado por "trouxas" e por criaturas das trevas. Também o Mal, sempre ameaçador no retorno eminente de Lorde Voldemort (Ralph Fiennes), ser maligno que ninguém ousa dizer o nome e que Harry, ameaçado de expulsão, havia enfrentado no ano anterior, provocando a morte de um dos alunos, ganha presença mais corpórea e cotidiana na figura de Dolores Umbrigdge (Imelda Staunton), uma “tia” a princípio simpática. No entanto, como burocrática interventora do Ministério da Magia, que quer limitar o poder do diretor Dumbledore (Michael Gambon), passa a baixar uma série de medidas repressoras na escola de bruxos de Hogwarts, restringindo o uso de mágica e de outras (in)certezas hormonais da adolescência (que hoje se estende para além dos 30 anos...), abrindo caminho para a volta do Lorde, que assalta a mente de Harry em terríveis pesadelos, vez ou outra. Provocará também a revolta dos alunos, à maneira (suavizada) de If... (1968), de Lindsay Anderson, pois, com a ajuda da sociedade secreta da Ordem da Fênix, liderada por Sirius Black (Gary Oldman), e de Dumbledore, a fim de enfrentar Voldemort, Harry passa a treinar um exército de bruxos às escondidas da interventora castradora e obcecada por decretos, pregados na parede dia a dia, pontuando visualmente a narrativa. Há menos magia desta vez, mas não menos encantamento, sobretudo no relacionamento tenso entre os jovens e nas obrigações cada vez maiores que Harry, um quase adulto, é obrigado a assumir e carregar nas costas. Não se restringe mais a torneios de quadribol ou xadrez gigante, por exemplo. Além disso, tem coisas, em se tratando de sentimentos, que a magia é incapaz de solucionar. Também o confronto entre Harry e Voldemort, uma batalha mental, sobretudo, é muito interessante e assume de vez os traços sombrios das próximas aventuras. E, claro, o exuberante elenco de atores ingleses dos filmes anteriores está todo ali, ganhando o reforço da extraordinária Imelda (O Segredo de Vera Drake, 2004, de Mike Leigh), nessa trama bem mais complexa, nada infantil, com ecos de 1984, de George Orwell, e que mostra, acima de tudo, que crescer nunca é fácil, pois tem horas que não dá mais para escapar das responsabilidades. Nem com um passe de mágica.