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terça-feira, novembro 27, 2007

Jogo de Cena

(Brasil, 2007)



Direto para a câmera, num palco de costas para uma platéia vazia, depoimentos de mulheres "reais" são “interpretados” por outras mulheres. Algumas delas atrizes mais do que conhecidas, como Marília Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres. Outras, nem tanto. Outras, ainda, apenas mulheres comuns, pessoas nada conhecidas, como eu, como você, como todos nós. Mas eles se misturam, se repetem um a um, se sobrepõem, a ponto de nunca sabermos com certeza o que de fato é interpretação, o que de fato é emoção real, mesmo quando Marília Pêra revela para o diretor-entrevistador-“fingidor” Eduardo Coutinho (de Peões, Edifício Master, Santo Forte, Cabra Marcado Para Morrer, O Fim e o Princípio) um dos truques para simular choro em cena. E os depoimentos alternam momentos divertidos com outros mais tristes e muito verossímeis, mesmo entre as atrizes mais célebres. Assim, pouco a pouco, a linha que separa o real da representação, e até o documentário da ficção, vai se tornando inexistente, com resultados no mínimo inusitados e sempre fascinantes, pois, afinal, nós, os desconhecidos, estamos de um jeito ou de outro também representando, seja no trabalho, seja no depoimento à Polícia ou ao Juiz, seja para o médico, seja para a pretendente à namorada no primeiro encontro, fingindo ser o que não é, etc.

terça-feira, julho 24, 2007

Saneamento Básico - O Filme

(Brasil, 2007)



Para tratar da merda de um vilarejo no interior do Rio Grande do Sul, que contaminou o arroio local, moradores decidem pleitear uma verba no orçamento do município, destinada à realização de um curta-metragem, e usá-la para investir na fossa de tratamento dos dejetos. Mas, para isso, precisam escrever o roteiro e gravar cenas para o curta, um filme de monstro ecologicamente correto, que acaba saindo, claro, uma merda, mas bem engraçado em seu improviso e amadorismo e que serve de pretexto para o diretor Jorge Furtado (O Homem que Copiava, 2003) alfinetar a maneira como se faz cinema no Brasil, sempre dependente de dinheiro público e sempre a serviço de uma causa “nobre”. E a política, também. Ou seja, no final das contas, esgoto, política e, sobretudo, cinema brasileiro, com aqueles filmes que se pretendem socialmente engajados, são tudo a mesma merda, com o perdão do trocadilho infame.

Divertido quando se concentra na produção do filme dentro do filme, homenageando o cinema B à Ed Wood e a vontade de fazer cinema de guerrilha. Depois, alonga-se um pouco no desfecho. Ainda assim, o ótimo elenco, com Bruno Garcia, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Fernanda Torres, Paulo José, representando tipos engraçados e quixotescos, garante boas risadas, como sempre. E Camila Pitanga está gostosa, como sempre. Assiste-se com prazer, mas há algo que me incomoda nos filmes de Furtado, especialmente o fato de ele se prender demais ao roteiro, que é inegavelmente bem escrito, redondinho, buscando o efeito cômico a todo custo e sem dar espaço para as inconseqüências que uma história como essa pede. Até as supostas cenas erradas são muito bem arquitetadas e planejadas, e tiram parte do efeito subversivo ou irreverente que se quer causar espontaneamente. Mas isso é uma implicância minha e acho que tem a ver com as inúmeras exibições de A Ilha das Flores seguidas dos insuportáveis debates que eu era obrigado a encarar no primário, no colegial e, depois, na faculdade, ano a ano. Debates esses eivados de platitudes sob as eternas mazelas sociais brasileiras. Um saco! Por isso, até hoje fujo de debates, quaisquer que sejam. Mas nunca deixo de ver um filme de Furtado, ao menos.