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sexta-feira, maio 11, 2007

Ser ou Não Ser

(To Be or Not to Be, EUA,1942)



The “Lubitsch Touch” again and again...

Quando as coisas estão difíceis, e ainda pioram, sempre recorro a Lubitsch. No começo desta semana, por exemplo, a visão de meu olho bom, o esquerdo, embaçou. Pensei que fosse algo com as lentes de contato que uso, e que só bastasse a troca delas e tal. No retorno ao oftalmologista, porém, ele constatou um pequeno rasgo no fundo da retina. Prognóstico: uma urgente cauterização a laser, pela quarta vez na minha vida, para fechar a fissura no fundo do olho a fim de impedir um muito provável descolamento de retina. Descolamento já ocorrido no olho direito, meu olho fraco, ultramíope, e cuja visão piorou consideravelmente após uma dolorosa intervenção cirúrgica tempos atrás. E lá fui mais uma vez sentir aquelas pontadas durante os disparos do laser, como agulhas cutucando o fundo do olho, uma lente grossa impedindo o fechamento das pálpebras e as lágrimas que não paravam de escorrer, insistentes, disparo após disparo. E eu querendo fechar o olho de qualquer jeito, sair dali, me esconder, respirar, enfim. Mas só me restava agüentar aqueles tiros estroboscópicos, firme. E depois, os flashes, a tontura, a visão embaçada e a cabeça latejando, todo aquele incômodo para que, ao menos, fosse evitada nova cirurgia e a conseqüente piora da visão de meu olho bom. Por enquanto. Depois disso, só olho(s) de vidro. Enfim, com a cabeça doendo, visão um pouco melhor, ma non troppo, fui para a casa no final da tarde e, potencializado por tudo isso, senti também o peso da solidão desses anos em São Paulo, da angústia e do acúmulo de frustrações, no trabalho e na vida pessoal, de tudo que passa e acabo não aproveitando, dia após dia, etc., coisas que só costumo sentir na quinta ou na sexta e não logo no início da semana. Aí percebi que, mesmo com tudo ao redor sem definições precisas, era a hora de ver este clássico de Ernest Lubitsch, a fim de esquecer um pouco da dor e do peso dos fracassos que ainda me afligiriam ao longo da noite e do dia seguinte. E depois ainda tratei de revê-lo, quando tudo já estava mais nítido e o pesar era menor. E que maravilha! Mais uma de suas charmosas obras-primas. Uma delícia do início ao fim. Um primor nas atuações, nos diálogos entremeados de malícia e erotismo (o tal do inimitável “Lubitsch Touch”) e que começa com Hitler, um vegetariano, mas “que engole países inteiros”, conforme assinala a narração, passeando calmamente pelas ruas de Varsóvia pouco antes da guerra e assustando a população local. Na verdade, trata-se de um ator da companhia do Teatro Polonês, que ensaiava uma peça sobre o nazismo e que deixou o palco irritado com as críticas a sua performance. Está armada a farsa metalingüística. Aqui, Lubitsch, que já havia satirizado o comunismo em Ninotchka (1939), tece uma caricatura do nazismo, tendo como protagonista o casal de atores da companhia, Maria e Joseph Tura (Carole Lombard e Jack Benny). Durante o famoso monólogo de Hamlet, Maria pede a um admirador, Sobinski (Robert Stack, o Elliot Ness da série de TV “Os Intocáveis”), um jovem piloto, que se levante e vá ao camarim dela para, digamos assim, “conhecê-la”. Isso, o ato de alguém sair no meio de sua apresentação, está claro, irrita Joseph, que se considera o grande ator de teatro da Polônia. Mas a química entre os dois, piloto e atriz, é imediata, pois Maria fica admirada em saber, sobretudo, do avião que Sobinski pilota, um bombardeio que despeja “três toneladas de bombas em dois minutos”, vejam só. E Sobinski se oferece, digamos assim, para mostrá-lo a ela. E em detalhes. No entanto, a guerra explode. E Sobinski se junta à Real Força Aérea Britânica. Lá descobre um espião da Gestapo disfarçado de líder da resistência. Doido para revê-la, regressa clandestinamente a Varsóvia, numa cena de ação construída com admirável suspense. Com a ajuda de Tura e sua trupe, arma uma cilada para o impostor, com os atores fazendo-se passar por soldados alemães, e com o canastrão Joseph tendo que interpretar várias vezes figurões nazistas igualmente canastrões e esmerando-se no “Heil, Hitler” toda vez que é obrigado a improvisar. Ao mesmo tempo, compete com Rawitch (Lionel Atwill), o “Hitler” da cena inicial, para ver quem é o melhor "nazista" em cena.

Num roteiro bem mais complexo que as habituais comédias de situação e operetas que Lubitsch magistralmente dirigira até então, ao juntar drama, propaganda antiguerra e, claro, humor durante a ocupação da Polônia, da mesma forma que Chaplin fizera em O Grande Ditador (1940) e que Billy Wilder, confessso discípulo de Lubitsch, faria mais tarde com a divisão da Alemanha em Cupido é um Moleque Teimoso (1961), expõe-se os artifícios do teatro para representar a realidade e atuar sobre ela, de modo a alterar a sorte dos envolvidos e a manter a resistência local viva. E isso no decorrer da guerra, o que gerou várias críticas ao filme pelo assunto, que seria impróprio para o humor. Sobre isso, Lubitsch declararia: “Ser ou Não Ser gerou muitas controvérsias e, na minha opinião, foi injustamente... Nunca quis fazer graça à custa dos poloneses... O que satirizei na fita foram os nazistas e sua ridícula ideologia. Satirizei, também, a atitude dos atores que sempre permanecem atores, por mais perigosas que sejam as situações nas quais se vêem envolvidos”. Destaque ainda para a impagável atuação de Sig Ruhlman, ator lubitschiano por excelência, como o líder da Gestapo em Varsóvia, o coronel Ehrhardt, também conhecido como o “campo de concentração” Ehrhardt, título que o deixa todo orgulhoso. E já que o assunto deste post começou pelos olhos, vale sempre lembrar do colírio que é Carole Lombard, de sua beleza e de seu perfeito timing cômico como a esposa que adora cutucar a vaidade do marido. Infelizmente, ela faleceria após as filmagens num trágico acidente aéreo, quando viajava para vender bônus de guerra. Apesar dessa nota destoante e da guerra em si, um filme hilário do início ao fim e, se não curou minha dor de cabeça, ao menos me fez esquecer dela por pouco mais de uma hora e meia. A lamentar, na edição recém-lançada pela Wonder/Silver Screen, as legendas em constante descompasso com as falas aceleradas. Ainda assim, a imagem está muito boa neste clássico em preto e branco que seria refilmado nos anos 80 por Alan Johnson, com Mel Brooks e Anne Bancroft revivendo o casal de atores, e que aqui foi lançado como Sou ou Não Sou (1983). Brooks também aproveitaria alguns elementos de Ser ou Não para compor sua famosa sátira Primavera Para Hitler (1968), e que viraria depois o sucesso The Producers na Broadway. Vale uma “olhada”, sempre.

sexta-feira, março 02, 2007

A Loja da Esquina

(The Shop Around the Corner, EUA, 1940)



Ah, que felicidade este filme! Que encanto! Que primor!

A quintessência das comédias românticas, numa versão agridoce das comédias de lojinha, bem comuns no Leste Europeu e freqüentes na fase muda de Ernest Lubitsch no início de sua carreira, na Alemanha. Aqui, na loja de artigos de couro do senhor Matuschek (Frank Morgan), em Budapeste, os vendedores Alfred Kralik (James Stewart) e Klara Novak (Margaret Sullavan), entre bolsas, carteiras e cigarreiras que tocam música cigana, trocam rusgas e farpas o dia inteiro, enquanto secretamente dividem apaixonadas confissões em cartas anônimas. Marcam o encontro e, entre quiproquós vários, desencontram-se, mas a esperança se renova a cada nova carta recebida por um ou por outro. Alfred, junto com o colega, no entanto, descobre a identidade dela, mas trata de ocultar esse segredo a seu favor, enquanto é despedido pelo patrão e readmitido novamente como gerente, depois de Matuschek descobrir que a sua esposa andava de caso com um dos empregados, o fofoqueiro Ferencz Vadas (Joseph Schildkraut), e sofrer um colapso, seguido à frustrada tentativa de suicídio, afastando-se da loja em plena época de Natal.

No filme inteiro, conduzido com suavidade e elegância por Lubitsch, o famoso “toque de Lubitsch” em sua conhecida irreverência e malícia está aqui menos evidente. Põe, no entanto, a humanidade dos personagens em relevo, ao expor em finos diálogos um microcosmos de pessoas comuns, sem muitas ambições, mas que amam, que querem ser amadas, que sofrem, que se sentem sós ou com medo, que ficam felizes uma hora, para em seguida desapontarem-se, em momentos genuinamente comoventes, a maioria deles a cargo do sempre honestíssimo James Stewart, incapaz de ser maldoso ou malicioso, e em perfeita sincronia com Margaret Sullavan. Juntos, os dois já haviam estrelado Amemos Outra Vez (Next Time We Love, 1936), de Edward H. Griffith, O Último Beijo (The Shopworn, 1940), de H.C. Potter, e voltariam ainda em Tempestade d’Alma (The Mortal Storm, 1940), de Frank Borzage. Sobre o filme, por quem Lubitsch tinha grande carinho, chegou a declarar uma vez: “Em termos de comédia humana, creio que jamais fui tão bom como em A Loja da Esquina. Nunca fiz um filme em que a atmosfera e os personagens fossem mais reais”.

Esta obra-prima ganharia depois uma versão musical nas mãos de Robert Z. Leonard, A Noiva Desconhecida (In the Good Old Summertime, 1949), uma adaptação para a Broadway em 1963 ("She Loves Me") e, enfim, seria estraçalhada por Nora Ephron em Mensagem para Você (You’ve Got Mail, 1998), transpondo a ação das simpáticas lojinhas de Budapeste para a Nova Iorque competitiva das megalivrarias, e substituindo as cartas pelas salas de bate-papo na Internet, onde tudo é mais volátil, fugaz, falso e, conseqüentemente, inverossímil, apesar do tom "fofinho" da comédia estrelada por Tom Hanks e Meg Ryan.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

O Diabo Disse Não

(Heaven Can Wait, EUA, 1943)

Um dia iremos todos morrer. E quando esta hora vier, é chegado o momento de prestar contas a Deus ou ao Diabo. Muitos, a maioria certamente, irão parar na ante-sala do Inferno. É o que acontece com Henry Van Cleave (Don Ameche), que passou a vida inteira sendo mandado para lá pelos outros, afetos e desafetos, tanto que, quando chega a sua hora, não hesita em se dirigir direto para o encontro de um elegantíssimo Lúcifer (Laird Cregar), nesta comédia de Ernest Lubitsch. Lá, Lúcifer quer saber que “diabos” ele estaria fazendo ali e porque deveria ser mandado para um lugar onde a música e o ambiente não são dos mais agradáveis. Henry, então, contará a sua vida, pontuada pelas paixões, em geral inapropriadas aos olhos de sua rígida e rica família nova-iorquina, como quando, bem jovenzinho, cai de amores pela babá francesa, ficando malade por ela, repetindo devaneios na língua de Voltaire por dias e dias. Ou então, quando se apaixona por Martha Strabel (Gene Tierney), adorável noiva de seu primo todo certinho e queridinho da família, à exceção do avô (Charles Coburn), que sempre preferiu a impulsividade de Henry e que o ajudará a conquistá-la. Martha, herdeira de uma família rica e tradicional do Kansas, será a mulher da vida de Henry, com quem finalmente se casará, após alguma insistência, para horror das famílias dele e dela. Ainda assim, como bon vivant que sempre foi, dará suas escorregadas para cima de coristas e atrizes, para a desconfiança de Martha, ameaçando o casamento. Algum infortúnio e mal-entendido, mas sobreviverão e continuarão juntos pela vida dançando a mesma valsa.

Filme pleno do famoso “toque de Lubitsch” (“Lubitsch touch”), com diálogos e situações que finamente emanam malícia, sexualidade e atrevimento, especialmente na primeira parte, e que depois, rumo ao fim, se tornará uma agridoce reflexão sobre a vida, a morte e o amor no meio, a ponto de comover. Tudo fotografado em belíssimo Technicolor, muito bem restaurado nesta edição em DVD da Fox, destacando a sofisticação dos ambientes e a beleza eterna de Gene Tierney (musa de Otto Preminger).

Tudo também conduzido pela narração suave e bem-humorada, cheia de verve e wit, de Don Ameche, que perceberá ao final, com a ajuda de Satanás, quão plena havia sido a sua vida, especialmente por tê-la partilhado com uma mulher maravilhosa como Martha. Pena que o título em português, bem à maneira dos portugueses, entregue todo o desfecho.