
Com algumas delirantes, outras nem tanto, fantasias envolvendo a bela Diane Kruger e o cantor Rufus Wainright, Jean-Marc (Marc Labréche) preenche seu cotidiano vazio de funcionário público franco-canadense de classe média desprezado pela mulher workhalic e pelas duas filhas que não largam de seus iPods e telefones celulares. Fantasias também um tanto vazias. A era das trevas do título original, oculta sob a estúpida tradução nacional, é a assunção da estúpida era das celebridades, da exposição contínua da vida privada e do conformismo e resignação da classe média e de sua limitada imaginação a ela, anuncia com toda a superioridade que lhe é característica o diretor Denys Arcand, dando um fecho aqui um tanto apressado e monocórdico ao falatório intelectualizado dos super-aclamados O Declínio do Império Americano (1986) e As Invasões Bárbaras (2003), pois Jean-Marc, no fundo, não passa de um pulha também, que não ajuda nenhum dos desvalidos que vêm lhe pedir auxílio na repartição pública onde trabalha e não há muito que fazer para ele ou para a sua vidinha a não ser continuar se refugiando neste seu universo paralelo. E assim o filme, ainda que com bons momentos, como a encenação de uma justa medieval em pleno século XXI, a mesma câmera fluida dos trabalhos anteriores de Arcand e o seu pungente final clamando uma silenciosa volta de Jean-Marc às origens, se mostra tão vazio quanto os sonhos de seu protagonista malinha, o que talvez não represente nenhum descompasso em relação às intenções do diretor. O vazio, o vazio, e os cacos ou as maçãs depois... ah, esses canadenses. Têm de tudo, se dão ao luxo de brincar de Ivanhoé vez ou outra e vivem reclamando. Humpf!