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quinta-feira, setembro 06, 2007

Encontros ao Acaso

(Come Early Morning, EUA, 2006)



A personagem da empreiteira provinciana, e um tanto casca grossa, (bem) interpretada por Ashley Judd, é uma vítima das desavenças de sua família de temperamento inconstante e, sobretudo, de si mesma, ao viver uma rotina de passar uma noite apenas com um sujeito diferente que encontra a cada noitada de sinuca, quadrilha e bebedeira nos bares de uma triste cidadezinha no interior do Arkansas. Uma noite, porém, depois de uma briga, conhece um bom sujeito, bom até demais, e as coisas parecem mudar. Aliás, os personagens masculinos são quase sempre inacreditavelmente simpáticos aqui, com uma ou outra exceção. No entanto, para ela que nunca gostou de compromissos, old habits really die hard.

Filme tristonho, tipo “independente” de espírito Sundance como tantos outros filmes passados no meio rural americano, infuso numa atmosfera melancólica que lembra muito a das películas dinamarquesas, e com um elenco de rostos conhecidos (Diane Ladd, Tim Blake Nelson, Stacy Keach) que garante certo interesse, nesta produção dirigida com modéstia, lentidão, mas com algum empenho pela atriz Joey Laurey Adams (Procura-se Amy), como demonstram as cenas da visita-surpresa de Ashley ao pai durante a noite, velho músico que se comunica essencialmente com a sua guitarra, e o melancólico plano final na varanda ao som de country music. Pois, no fim das contas, apesar de tudo e todos, sobretudo por causa de todos, está-se a só, a contemplar o pôr-do-sol na varanda, voltando para o mesmo ponto de partida, sem ter aprendido muita coisa, conformando-se aos velhos hábitos. E para as mulheres solitárias de trinta e poucos anos isso é ainda mais desesperador. Tadinhas!

quarta-feira, agosto 29, 2007

Possuídos

(Bug, EUA, 2006)



Desde as primeiras tomadas de Bug, um plano aéreo noturno de um motel decrépito no meio do nada em Oklahoma, a sensação de solidão e isolamento do personagem de Ashley Judd se insinua no espectador. E não o abandona até o seu intenso desfecho. Amargando a perda do filho pequeno, se entupindo de álcool e drogas e trabalhando como garçonete num bar vagabundo de lésbicas, ela é ainda perturbada por constantes telefonemas anônimos, que acredita serem de seu ex-marido (Harry Connick Jr.), recém-saído da prisão. Também crê estar sendo observada por ele. Uma noite, sua única amiga lhe apresenta um sujeito frágil e tão solitário quanto ela (Michael Shannon, de As Torres Gêmeas). Iniciam um romance. No entanto, ele, um desertor do Exército, em certo momento diz ter sido vítima de experimentos militares quando servia no Iraque e que o deixaram impregnados de insetos minúsculos que procriam sem parar debaixo da sua pele. E aí a paranóia, antes sugerida por sons do telefone, do ar-condicionado e dos ruídos esquisitos do alarme, vai se instaurando aos poucos no ambiente. E a contagia. Sexualmente, sobretudo. Embora a ameaça nunca seja visível, ela também passa a compartilhar da mesma visão dos estranhos insetos em toda a parte e a se mutilar como ele. E a paranóia se intensifica e toma conta do lugar, reveste suas paredes, põe a nu os indivíduos, os afastam de vez do mundo. Antes, o ex-marido, violento, os espreita e, certa feita, ao forçar a entrada no quarto e notar a ausência da TV, pergunta como viver sem o aparelho, como saber do que está acontecendo no mundo sem a televisão. Não é uma fala gratuita. A alienação progressiva de Judd, prefigurando a loucura do que virá, a determina.

Econômico, sem disfarçar as suas origens teatrais (baseado em peça off-Broadway de Tracy Letts), e até intensificando-as no terço final, a ponto de nunca permitir um respiro, ou um plano geral dos efeitos espetaculares e sons dos sobrevôos de helicópteros, só sugeridos por luzes e vibrações, quando os dois protagonistas instalam-se de vez em sua loucura, perdem o controle de si e aceleram a inevitável degradação, William Friedkin, com pleno do domínio do limitado espaço cênico, perscrutado em cada centímetro por sua câmera de lentes fechadas em planos-detalhe ou close-ups ou planos médios, faz aqui um trabalho de mestre, sensorial, concentrado, convergindo para as mesmas obsessões epidérmicas e inquietações orgânicas e sexuais de um David Cronenberg, por exemplo, mas mantendo coerência rara com o resto da sua obra. Daquela que mostra o indivíduo sem controle do corpo, degenerando-se (O Exorcista), tragado e desumanizado pelo submundo (Parceiros da Noite), sacrificando-se (Viver e Morrer em Los Angeles, Caçado), ou mais vítima, ainda que violenta e selvagem em seus impulsos primitivos, de um governo militarista, suposta fonte de todo o mal e (des)controle do ser humano (Regras do Jogo, Caçado). Para isso, conta com as fabulosas interpretações de Judd, mais desglamourizada do que nunca, e de Michael Shannon, reprisando o papel do palco, e com um texto cru e forte. Além disso, o sentimento de deslocamento dos personagens, de se encontrarem fora do mundo, e onipresente aqui até o último instante, quando a tela se escurece de vez, sentimento muito caro aos românticos do século XIX, e a completa entrega do casal a uma paixão auto-destrutiva, sinônimo de doença, que só pode ser plenamente realizada ou “curada” com a morte, fazem de Bug o mais romântico filme do ano. Sem concessões, claro, a ponto de deixar o público mal-amado e mal-acostumado de shoppings e Reservas Culturais da vida se “coçando” de raiva no final da sessão. E isso já é mais do que nada nestes pomposos tempos, tão preguiçosos, vazios, entorpecidos pelos ditos novidadeiros do já visto antes, e conformistas.