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quarta-feira, fevereiro 13, 2008

A Quase Verdade

(La Vérité ou Presque, França, 2006)



Em nada lembrando as produções sobre desacertos afetivos de um grupo de indivíduos de Resnais ou Rohmer, mais uma vulgar comedinha francesa de encontros e desencontros, salpicada com algum drama e muita verborragia, freqüentada por tipinhos blasé bem de vida, mas sempre entediados, daquela maneira intelectualóide insuportavelmente francesa, metidos à besta e um tantinho arrogantes entre si, nesta história dirigida sem muita convicção pelo mediano diretor Sam Karmann, que aqui também interpreta Thomas, e que conta, num fiapo de trama, a ciranda extraconjugal da bela e madura Anne (Karin Viard), casada com Thomas, que se sente atraído por Caroline (Julie Delarme), uma jovem mulher que está grávida de Marc, que é ex-marido de Anne, mas com quem ainda se encontra furtivamente para um affair nas tardes ensolaradas de Lyon. No meio deles, um escritor homossexual (André Dussolier), que está em Lyon para uma palestra a convite de Thomas e que, prestes a finalizar a biografia de uma cantora de jazz dos anos 60, acaba se envolvendo mais do que profissionalmente com Anne e, sobretudo, com Marc. Todos, como bons adultos, tendo a mentira, ou a quase verdade, com grande aliada. Ou seja, nada muito interessante ou inovador, mas assistível, sobretudo pela boa fotografia em CinemaScope, que privilegia belas locações em Lyon, saindo um pouco das obviedades paisagísticas parisienses, coisa rara no gênero, e pelas boas interpretações de Karin Viard (de Um Dia de Rainha, 2001, e Inferno, 2005) e, sobretudo, de André Dussolier (de Medos Privados em Lugares Públicos, 2006), que conseguem conferir um pouco mais de espessura e humanidade aos tipinhos não raro egocêntricos que interpretam. Já François Cluzet (de A Rainha Margot, 1994), repetindo a mesma cara de sonso vista no boboca Quatro Estrelas (2006), continua o bobalhão de sempre.

segunda-feira, julho 16, 2007

Medos Privados em Lugares Públicos

(Coeurs, França/Itália, 2006)



Ao sair do cinema no último sábado, após a sessão deste magnífico trabalho de Alain Resnais, não mais um musical (como Amores Parisienses, 1997, e Pas sur la Bouche, 2003), não mais uma colagem de teorias científicas behavioristas que embasam uma bela estória (Meu Tio da América, 1980), não um filme sobre a memória (Hiroshima, Mon Amour, 1959), não mais uma experiência radical com a descontinuidade do tempo narrativo (O Ano Passado em Marienbad, 1961), mas tão labiríntico quanto, fiquei desconcertado, pensando em quantas vezes não geramos expectativas (falsas) em relação ao outro. Quantas vezes não alimentamos um auto-engano ao acreditar, por um mínimo sinal emitido, que a pessoa com quem compartilhamos certas afinidades no trabalho, no dia-a-dia, na Internet, no gosto por filmes (ou vídeo, no caso), livros, música, não seria a pessoa certa, aquela finalmente a preencher o nosso vazio afetivo de longa data? E alimentamos esse auto-engano por um bom tempo, para, depois da ilusão desfeita, voltar ao ponto de partida, novamente abraçados na solidão, que é persistente como a neve que cai ao longo do filme. Mas convicções são sempre mais fortes. E tendemos a acreditar na imagem, que leva também ao mal-entendido, difícil de ser desfeito. É um pouco o que acontece na estória dos seis personagens deste Coeurs, baseado numa peça teatral do britânico Alan Ayckbour (em quem Resnais se baseou para filmar Smoking/No Smoking, 1993), cujas vidas se entrecruzam de maneira ora prosaica, ora inusitada numa Paris fria, desorientadora e sombria, bem ao contrário daquela panelinha de filme-ônibus turístico (e suuuuperamado, gente!) que é Paris, Te Amo. Aqui, prevalecem os tipos essencialmente solitários, interligados pela fusão da imagem da neve que cai constantemente nas cercanias da Biblioteca Nacional e sobre eles, como forma de pontuar a narrativa e, acima de tudo, causar estranheza. Lá estão um corretor de imóveis (André Dussolier), a moça que trabalha com ele (Sabine Azéma, musa do diretor e muito bela) e a irmã dele (Isabelle Carré); uma cliente do corretor (Laura Morante, de Um Lugar na Orquestra, 2005), seu noivo desempregado, um ex-oficial do exército (Lambert Wilson) e o barman (Pierre Arditi) do hotel onde o noivo vai freqüentemente beber. Além disso, à noite, a corretora toma conta do pai doente do barman, um velho difícil, mas que ela, como cristã recém-convertida e capaz de perdoar a tudo e a todos, decide encarar, ainda que a sua maneira. Um tanto heterodoxa, mas eficaz. Ainda nas relações que se estabelecem (ou se desfazem) neste filme mosaico intimista, ela empresta ao colega da imobiliária onde trabalham uma fita de videocassete aparentemente inocente, com a gravação de um programa religioso, mas que, após o programa, revela um trecho de cenas pornográficas, que o faz acreditar que ela está mandando-lhe, por trás da bizarrice, um recado amoroso indireto, ao mesmo tempo em que a sua irmã busca um encontro às escuras e encontra o noivo desempregado e que está deixando a companheira. Tudo engano, claro. E tudo com humor à principio, depois com um persistente sentimento de melancolia, evidenciado pela neve que invade literalmente o apartamento do barman no final, correspondendo aos sentimentos dos personagens. E no meio do frio e de seu rigoroso formalismo, Resnais faz vibrar em belíssimas imagens a humanidade de todos. Que é intensa e desesperançada e acompanha a gente muito tempo depois de se encerrarem os créditos. Talvez o pecado maior seja acreditar demais no outro. Très extraordinaire!