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terça-feira, janeiro 22, 2008

Eu Sou a Lenda

(I Am Legend, EUA, 2007)



Will Smith, aqui como o cientista e militar Robert Neville, vivencia os males modernos da solidão urbana numa grande metrópole após um vírus, originalmente criado pela ciência para erradicar o câncer, ter dizimado mais de 90% da população mundial. Imune à infecção, a última esperança da Terra vive solitária num grande e bem equipado apartamento-laboratório em Manhattan na companhia apenas da cadela Sam e, durante o dia, tenta manter a sanidade recolhendo os despojos da civilização em ruas tomadas por mato, carros abandonados, prédios esvaziados e animais selvagens a solta. À noite, tranca-se em casa para se proteger do que sobrou do restante da humanidade: aberrações ferozes que habitam as trevas e se alimentam de sangue e restos humanos. Também não abandona as pesquisas em busca de uma cura para o vírus. E diariamente transmite mensagens de rádio na esperança de ir ao encontro de algum sobrevivente não-infectado. Numa atmosfera inicial de abandono que lembra bastante Extermínio (2003), de Danny Boyle, esta terceira adaptação do livro homônimo de Richard Matheson (a primeira, Mortos que Matam, de 64, com Vincent Price, seguido de The Omega Man - A Última Esperança da Terra, de 71, com Charlton Heston) caminha muito bem até o aparecimento das criaturas, pecando em soluções visuais manjadíssimas e na falta de suspense no ataque em massa dos vampiros-zumbis, quando o limitado, mas que ser quer estiloso diretor publicitário Francis Lawrence (de Constantine, 2004) põe quase tudo a perder ao apelar para sustos previsíveis e explosões genéricas, além de um desfecho banal e precipitado a cargo da “crente” brasileira interpretada por Alice Braga, como outra sobrevivente que finalmente responde ao chamado de Neville. Diz o diretor que ele rodou um final alternativo e mais fiel à obra de Matheson. Mesmo assim e antes do enfrentamento gore plastificado, Will Smith, melhor e mais contido quando está na companhia de cães, cobaias e manequins de videolocadoras que quando apela para as suas totalmente deslocadas gracinhas no momento em que se vê diante de outros sobreviventes ao explicar sobre Bob Marley, por exemplo, carrega até que bem boa parte do filme, e os "rohmerianos" planos iniciais da Times Square, do prédio das Nações Unidas, do porto de Nova Iorque e da Washington Square desolados e esvaziados das costumeiras multidões, lembrando um pouco do clima da cidade logo após o 11 de setembro, são bastante interessantes de se ver.

terça-feira, novembro 13, 2007

A Via Láctea

(Brasil, 2007)



“Seguir em linha reta em direção a tudo o que amamos” é o mote deste literário e pouco cinematográfico A Via Láctea, segundo e que se quer sensorial trabalho na direção da clarinetista Lina Chamie (Tônica Dominante, 2001). No entanto, o filme segue torto, torto, com o engarrafamento paulistano e as mazelas sociais que encontra pelo caminho servindo de óbvia metáfora para o desespero existencial do protagonista Heitor (Marco Ricca), professor de literatura e literatices, que, após ter rompido com a bem mais jovem namorada por telefone (Alice Braga), decide ir ao encontro dela de carro para tentar reatar. No entanto, a longa viagem pelas entupidas avenidas de São Paulo torna tudo mais difícil e dispara nele uma série de recordações felizes ou infelizes. Além disso, o que é pior, Chamie pavimenta o caminho de Heitor com óbvias e muito pretensiosas citações literárias e musicais, como o início de A Morte e a Donzela, de Schubert, mesclada aos primeiros versos de A Divina Comédia, de Dante Alighieri, mescla já feita melhor e de modo idêntico por Robert Guédiguian em Marie-Jo e Seus Dois Amores (2002). Assim como na utilização da Lacrimosa do Réquiem K626 de Mozart, obviamente evocada quando há morte e tristeza no ar, algo já visto ou ouvido inúmeras vezes em Elizabeth, Amadeus, O Dia da Caça e tantos outros filmes. Também há poemas de Carlos Drummond de Andrade, do livro Claro Enigma, Manuel Bandeira e de Mario Chamie, pai da diretora. E um final mais do que óbvio e esperado. Uma pena, porque nas cenas em que se ouve o pizzicato do movimento intermediário da Sinfonia em Ré Menor de César Franck há certa beleza, soterrada no entanto por mais uma metáfora literária pretensiosa, forçando na poesia barata que quer buscar uma transcendência universal a todo custo, como aquela da luz das estrelas que se extinguiram mais que ainda viaja pela Via Láctea, que é também a imensidão de luzes dos faróis dos carros parados à noite no engarrafamento. Oh, que poético!